quinta-feira, 20 de abril de 2017

1920: Dadaísmo causa escândalo em Colônia

No dia 20 de abril de 1920, a polícia da cidade de Colônia, no noroeste da Alemanha, fechou a primeira exposição dadaísta, por considerá-la um atentado aos bons costumes.
Deutschland Hans Arp (picture alliance/dpa/Marek)
Hans Arp
O Dadaísmo havia começado em fevereiro de 1916, em Zurique, com a inauguração do ponto de encontro para artistas Cabaret Voltaire. Era uma tendência artística antiburguesa, baseada no irracional, e que trabalhou muito com colagens de imagens, sons e textos.
Humor e nonsense tinham um pano de fundo sério. A Primeira Guerra Mundial grassava. Pintores, poetas, pacifistas, filósofos e músicos de todas as nacionalidades se reuniam no Cabaret Voltaire, no solo neutro da Suíça.
"Eles eram contra a sociedade pequeno-burguesa decadente, contra autoridades na política e na Igreja e, de maneira não pouco significativa, contra o aparato da arte estabelecida", explica Raimund Meyer, responsável pela exposição Dada Global, de 1994, em Zurique:
"Dada é espatifar aquilo que até então era válido, quer dizer, não mais utilizar a tinta a óleo para pintar, nem empregar a língua do modo como era usada na literatura. A arte deveria ficar ao acaso da natureza. Como por acidente, combinavam-se palavras achadas, letras, sílabas, produziam-se colagens de cores, materiais, palavras, movimentos e sons. Como que acidentalmente, nasceu o nome Dada, ao folhear um dicionário."
Tendência sem escola definida
Não havia uma orientação estilística determinada, nem uma escola definida, pois justamente isso levou à briga com os surrealistas, que podiam até flertar com os dadaístas, mas exigiam diretrizes claras. Em 9 de abril de 1919, o movimento encontrou seu apogeu e declínio numa gigantesca exposição de arte total, com poemas simultâneos e danças de máscaras ao som de música atonal.
Enquanto os dadaístas de Zurique preferiram ficar entre si, os de Colônia, liderados pelo artista plástico alemão Max Ernst, resolveram divulgar seu movimento ao público. Como não conseguissem os salões de um museu famoso para sua exposição, alugaram uma sala de cervejaria, cujo acesso era pelo banheiro masculino. O destaque da mostra foi Ernst, com 21 obras.
O jornal da cidade reportou a visita da seguinte maneira: "No começo, a falta de luz exige muito esforço para decifrar o catálogo, de letras pretas em fundo vermelho. Onde começa a ficar mais claro, o problema são as goteiras, de modo que exige certo heroísmo ver toda a exposição!"
Alegando pornografia e atentado à moral, entre outras coisas, a polícia fechou a exposição no dia 20 de abril de 1920, mas permitiu sua reabertura pouco tempo depois.
  • Autoria Otto Busch (rw)
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quarta-feira, 19 de abril de 2017

1943: Levante no Gueto de Varsóvia

Em 19 de abril de 1943 , reunindo comunistas, sionistas e socialistas judeus, começava no Gueto de Varsóvia a primeira revolta armada desencadeada por civis no interior da Europa ocupada pelos nazistas.
Warschau Ghetto Abtransport Transport (gemeinfrei)
Para grande parte dos milhares de judeus acuados pelo regime de Hitler no Gueto de Varsóvia estava claro que não tinha chances de vencer uma rebelião contra as fortes tropas de elite da SS. Mas a falta de perspectiva, ao saber que o gueto seria posto abaixo, não lhes deixou outra alternativa.
Mais de 400 mil pessoas viviam encurraladas numa área de quatro quilômetros quadrados num bairro em Varsóvia. Cercadas por altos muros, sujeitas a inúmeras proibições e controles, recebiam uma ração mínima de comida. Por imposição da SS, um conselho de moradores, responsável pela ordem e limpeza, era também obrigado a listar os nomes dos próximos a serem removidos para o campo de extermínio.
Entre julho e setembro de 1942, mais de 300 mil judeus foram transportados de trem do gueto para a morte certa no campo de Treblinka. A resistência foi formada a partir do desespero. Um dos sobreviventes conta: "A maioria foi a favor da rebelião. As pessoas achavam melhor morrer com uma arma na mão do que sem ela. Pode-se chamar este tipo de resistência de rebelião? Era uma luta para não sermos transportados ao matadouro, uma luta contra a morte."
Trabalhadores formaram a resistência
No final de 1942, houve uma pequena pausa nas deportações. Cerca de 70 mil pessoas ainda viviam no gueto, na maioria mão de obra compulsória para a indústria que fornecia equipagem para o Exército alemão. Esses operários formaram o núcleo da resistência.
Versteck
Judeus viviam em esconderijos para não serem descobertos pelos nazistas
Comunistas, sionistas e socialistas judeus juntaram-se numa frente contra as deportações, dispostos ao combate armado, se necessário. Em dezembro de 1942, começaram a desenvolver um sistema de esconderijos para os procurados. Quartos eram divididos e suas entradas tapadas com decorações. Muitas vezes, sua existência era revelada pelo choro de crianças.
Numa visita ao gueto em janeiro de 1943, Heinrich Himmler, o comandante da SS, a tropa de elite nazista, ordenou que a população do bairro fosse diminuída com a deportação para os campos de extermínio. Essa ordem despertou a resistência: cerca de 6 mil chegaram a ser retirados, mas paralelamente os trabalhadores haviam conseguido armas do exterior e começaram a enfrentar as tropas de Hitler.
Em fevereiro, Himmler ordenou o fim do Gueto de Varsóvia. O oficial Jürgen Stroop foi encarregado de destruir todo o bairro. Ao invadir o gueto no domingo 19 de abril seu contingente de cerca de 3 mil homens, a maioria da SS, foi confrontado com a resistência dos 1.500 moradores ainda restantes. Apesar de saberem da impossibilidade de uma vitória, eles continuaram lutando com as armas de que dispunham.
Ação durou até 16 de maio
Os sobreviventes relatariam mais tarde sobre o cheiro de cadáveres nas ruas, das bombas incendiárias e mulheres saltando dos andares superiores dos prédios com crianças nos braços. Somente em 8 de maio os soldados alemães conseguiram cercar os rebeldes. Para não serem mortos pelas bombas de gás jogadas pelos alemães, muitos optaram pelo suicídio.
A ação nazista foi encerrada às 20h15 de 16 de maio, com a explosão da sinagoga do gueto, que se encontrava em ruínas. Mais de 56 mil pessoas haviam morrido na rebelião que entrou para a história judaica como a primeira resistência civil contra a crueldade fascista.
Muitos anos mais tarde, em dezembro de 1970, Willy Brandt, o primeiro chanceler federal social-democrata da República Federal da Alemanha, se ajoelharia em Varsóvia diante do monumento aos mortos do levante.
O gesto e o silêncio que se seguiu – cortado apenas pela chuva de flashes fotográficos – repercutiram no mundo como símbolo de contrição, pedido de perdão e tentativa de reconciliação por parte da Alemanha.
  • Autoria Bernd Wegmeyer (rw)
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terça-feira, 18 de abril de 2017

História UPF divulga atividades do projeto de extensão Ensino e Inovação


Nova História Indígena: recuperando o protagonismo dos índios

Desde o final da década de 1970, uma nova compreensão histórica dos povos nativos começou a se consolidar na historiografia. Confira uma introdução a dez obras fundamentais sobre a chamada “Nova História Indígena”.

Por Luís Rafael Araújo Corrêa
Durante muito tempo, a historiografia se limitou a encarar as populações indígenas como vítimas passivas ou meros espectadores de situações que os envolviam diretamente. Quando muito, reagiam à interferência e aos agravos da sociedade envolvente, mas nunca dispondo de estratégias de ação conscientes. Os índios, concebidos como uma categoria genérica, sem qualquer consideração às diferenças étnicas e culturais, não eram vistos, portanto, como sujeitos históricos ativos e capazes de incidir sobre a realidade nas quais se inseriam. Esse quadro começou a mudar a partir da emergência de uma nova compreensão histórica a respeito dos povos nativos. A “Nova História Indígena”, como viria a ser chamada, teria como principal objetivo redimensionar o papel dos índios na História, recuperando o protagonismo dos mesmos.
Comunidades indígenas da atual região do Novo México, Estados Unidos Retirado da página 496 da obra “Reisen in die Felsengebirge Nord-Amerikas bis zum Hoch-Plateau von Neu-Mexico, unternommen als Mitglied der im Auftrage der Regierung der Vereinigten Staaten ausgesandten Colorado-Expedition. Mit … Landschaften und Abbildun”, de Balduin Moellhausen, Leipzig, 1861. Fonte: The British Library.
No que se refere ao surgimento deste novo viés, dois pontos fundamentais devem ser considerados. O primeiro está relacionado à aproximação entre a História e a Antropologia: cada vez mais intensa desde fins da década de 1970, o diálogo entre elas incidiu significativamente sobre essa perspectiva, uma vez que a combinação de renovados pressupostos teórico-metodológicos das duas disciplinas expandiria significativamente os horizontes de análise histórica. Nesse sentido, a compreensão tanto da cultura, quanto da identidade étnica como produtos históricos, somada a uma maior atenção da História às vivências e experiências das pessoas comuns, com grande influência da história social inglesa, foram decisivas. Tal confluência possibilitou um olhar sobre os índios que contempla tanto a sua diversidade étnica e cultural, quanto o papel de sujeitos de sua própria história. Além disso, a questão indígena na contemporaneidade também influenciou essa nova reflexão. O crescimento demográfico das populações nativas e a atuação cada vez maior dos movimentos indígenas na segunda metade do século XX contrariavam veementemente o discurso de desaparecimento e extinção. No Brasil, a atuação do movimento a partir da década de 1970 reflete-se nos direitos obtidos através da Constituição de 1988. Dessa maneira, novas observações sobre o passado puderam ser pensadas a partir de questionamentos do presente.
1. CUNHA, Manuela Carneiro da. (Org.). História dos índios no Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1992.
No que diz respeito à emergência de uma nova compreensão histórica dos povos nativos, o livro organizado por Manuela Carneiro da Cunha, “História dos Índios no Brasil”, é de suma importância. Publicado em 1992, o livro contou com artigos de diversos especialistas no assunto, contemplando variados aspectos ao longo do espaço e do tempo. Esse trabalho teve papel fundamental ao apresentar e sistematizar de forma clara e objetiva uma nova postura – que já vinha sendo esboçada nos anos anteriores – em relação aos índios, reconhecendo os mesmos enquanto agentes históricos. Propondo a inclusão dos índios na historiografia e rompendo com uma visão tradicional que enfatizava a passividade dos povos indígenas frente aos processos de Conquista e expansão empreendidos pelos europeus, a coletânea representou um marco quanto ao assunto, tendo inspirado diversos estudos específicos nesta mesma linha e contribuído decisivamente para difundir a referida perspectiva.
2. FARAGE, Nádia. As muralhas dos sertões: os povos indígenas no Rio Branco e a colonização. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1991.
Com o foco no processo de colonização da região amazônica, Farage realiza um excelente trabalho ao situar o Rio Branco nas intensas disputas territoriais que envolveram portugueses, espanhóis, holandeses e ingleses. Contudo, o grande mérito da autora é considerar o papel e a participação dos indígenas entre os diferentes agentes sociais envolvidos na contenda. Em particular, convém destacar que o estudo de Farage foi inovador ao demonstrar que a aplicação do Diretório, legislação que equiparou juridicamente os indígenas aos demais súditos portugueses, foi diretamente influenciada pela ação dos índios. Com a atenção voltada para as comunidades indígenas de fronteira no norte da América portuguesa, a autora ressalta que a transferência destas comunidades para compor núcleos populacionais previstos pela lei, que iriam compor verdadeiras muralhas nesta região de fronteira, dependia da negociação com os grupos locais na figura das lideranças indígenas. Dessa forma, Farage, considerando o protagonismo indígena, revela que a dinâmica de aplicação não se resumiu ao que as autoridades metropolitanas almejavam, mas também aos interesses dos próprios indígenas.
3. MONTEIRO, John Manuel. Negros da terra: índios e bandeirantes nas origens de São Paulo. São Paulo: Companhia das Letras, 1994.
Dentre os trabalhos publicados na década de 1990 que renovaram os estudos a respeito da História Indígena e que a abordaram a partir de recortes específicos, há de se destacar este grande estudo de John Monteiro. Em tal obra, que se tornou rapidamente uma importante referência, o autor atenta de forma pioneira para a articulação entre as bandeiras e a produção agrícola de São Paulo, pontuando que era a mão de obra escrava indígena, adquirida através dos apresamentos, das guerras movidas contra os nativos e também dos descimentos, que viabilizava a agricultura paulista. A contribuição mais importante de seu livro, porém, é o destaque dado ao processo de inserção dos indígenas na sociedade paulista, que variou da escravidão à condição de índios administrados. Ao fazer isso, John Monteiro deixou claro que os índios foram parte fundamental da formação sociocultural de São Paulo.
4. VAINFAS, Ronaldo. A heresia dos índios: catolicismo e rebeldia no Brasil Colonial. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.
Nesta célebre obra de Ronaldo Vainfas, o diálogo com uma perspectiva que prima pelos intercâmbios culturais se faz evidente. Ao analisar o movimento religioso da Santidade de Jaguaripe, ocorrida na Bahia da segunda metade do século XVI, o autor atenta para a clara mistura entre os rituais nativos e os elementos do catolicismo reconstruídos à luz do colonialismo, denotando, então, o hibridismo cultural característico da Santidade, que contava com o apoio de um senhor de engenho local. Indo além, Vainfas chama a atenção para a notável circularidade referente às crenças de tal movimento, que contou com a adesão não apenas de índios, mas igualmente de mamelucos, negros e até de brancos, tendo incidido significativamente sobre a religiosidade popular do Recôncavo baiano quinhentista. Destacando também a fluidez das fronteiras culturais nesse contexto, que coincidia com a fluidez da própria colonização, Vainfas tem ainda o grande mérito de recuperar o caráter de resistência de tal movimento, uma vez que a Santidade de Jaguaripe representava a busca por uma identidade indígena que, paulatinamente, via-se atacada pelo avanço da colonização portuguesa.
5. ALMEIDA, Maria Regina Celestino de. Metamorfoses indígenas: identidade e cultura nas aldeias coloniais do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Arquivo Nacional, 2003.
Em relação ao período colonial, um aspecto que mereceu grande destaque da Nova História Indígena diz respeito aos aldeamentos. Inserida nesta vertente historiográfica, Maria Regina Celestino de Almeida trouxe à tona uma perspectiva que foi um verdadeiro marco na abordagem a respeito dos aldeamentos indígenas. Reconhecendo os índios enquanto sujeitos históricos, Almeida ressaltou que as aldeias, para além de atender aos interesses e às expectativas da Coroa, dos missionários ou dos colonos, também tiveram um relevante significado para os índios. Recorrendo ao conceito de territorialização, inicialmente utilizado por João Pacheco de Oliveira e que é crucial em “Metamorfoses Indígenas”, Almeida destaca que os aldeamentos foram apropriados pelos índios como um espaço de proteção e de sobrevivência, evidenciando a participação ativa dos mesmos. Indo além, a autora reflete sobre a importância que os aldeamentos assumiram para os índios no contexto da colonização, concluindo que, diante de um mundo colonial que se construía de forma cada vez mais hostil em relação aos indígenas que não eram aliados dos portugueses, tais espaços representavam um “mal menor”, já que na condição de aldeados eles ao menos estariam livres da escravidão e garantiam acesso a alguns direitos, como o da terra coletiva. Assim sendo, mais do que um local de imposição e de aculturação, os aldeamentos constituíram importantes espaços de socialização, de modo que, ao reunir diferentes indivíduos e etnias que se misturaram no seu interior, elas propiciaram a rearticulação étnica, cultural e social dos índios aldeados. Partindo desta linha de raciocínio, a autora pondera que, em longo prazo, a vivência compartilhada no interior desses aldeamentos conduziu a um sentimento de pertença comum e de solidariedade entre os índios que lá viviam.
6. POMPA, Cristina. Religião como Tradução: missionários, Tupi e Tapuia no Brasil Colonial. Bauru: Edusc, 2003.
Criticando a dicotomia que opõe de um lado a imposição dos missionários e de outro, os índios, vistos como um conjunto homogêneo e passivo, Cristina Pompa defende a perspectiva de que o processo de evangelização na América portuguesa levado a cabo nos aldeamentos foi, antes de tudo, fruto da mediação constante entre os religiosos e os próprios indígenas. Isso resultou, segundo Pompa, em traduções mútuas, influindo diretamente tanto sobre a ação missionária – que passou a se preocupar em adaptar e traduzir o cristianismo para a linguagem nativa, convertendo os ensinamentos e símbolos cristãos de acordo com as concepções e os mitos indígenas – quanto sobre a recepção dos nativos a essa evangelização, que em muitos casos aceitaram essas traduções, mas apreendiam as mesmas à sua maneira e dentro de seus próprios termos. Com este ponto de vista, a autora permite perceber as interações religiosas como um processo dinâmico no qual o indivíduo, mais do que simplesmente assimilar uma dada cultura ou crença, a interpreta e a reconstrói mediante os seus próprios valores e referenciais. Assim, ao considerar as múltiplas e diferentes traduções propiciadas a partir dos intercâmbios culturais e religiosos, Cristina Pompa recuperou o protagonismo indígena neste processo, evidenciando a existência de uma interação dialógica e passível de adaptações no interior dos aldeamentos.
7. DOMINGUES, Ângela. Quando os índios eram vassalos: colonização e relações de poder no Norte do Brasil na segunda metade do séc. XVIII. Lisboa: CNCDP, 2000.
Nesta obra, Domingues analisa a sociedade resultante na região amazônica a partir da aplicação do Diretório dos Índios. A legislação, de claro cunho assimilacionista e que visava integrar os índios como súditos indistintos aos demais, era parte do projeto que a administração pombalina tinha em relação à Amazônia. Analisando os desdobramentos da mesma, a autora teve um papel importante ao destacar que as pretensões metropolitanas e a realidade nem sempre caminharam juntas. E este descompasso devia-se em grande parte à atuação dos próprios indígenas, que ao invés de meros objetos da dita política, incidiram diretamente sobre os seus rumos ao participarem da administração das vilas de índios criadas para civilizar os nativos ou por resistirem aos pressupostos assimilacionistas.
8. SPOSITO, Fernanda. Nem cidadãos, nem brasileiros: indígenas na formação do Estado nacional brasileiro e conflitos na província de São Paulo (1822-1845). São Paulo: Alameda, 2012.
O livro de Fernanda Sposito tem o grande mérito de refletir sobre um período que só recentemente vem recebendo maior atenção da Nova História Indígena: o Brasil Império. Ao analisar a política indigenista imperial, a autora relaciona com argúcia como ela foi construída dentro de um contexto no qual o próprio Estado e a nação brasileira estavam em formação. Ainda do ponto de vista político, Sposito contribui para a discussão em torno da cidadania no período imperial, atentando para o fato de que a Constituição de 1824 não fez menção aos índios em momento algum do texto, negando qualquer direito aos mesmos. Se por um lado os índios foram excluídos de participar dos rumos do país recém-independente, fazendo justiça ao título do livro, por outro não puderam ser apagados da História: tomando como exemplo os conflitos motivados pelo avanço das fronteiras da província de São Paulo em direção aos territórios indígenas do interior, a autora demonstra a ação e resistência dos índios neste contexto, deixando claro então que eles eram agentes sociais relevantes.
9. MATTOS, Izabel Missagia de. Civilização e Revolta: os Botocudos e a catequese na Província de Minas. Bauru, SP: EDUSC, 2004.
Amparada em uma farta e rica documentação, a autora realiza um excelente trabalho ao recuperar a história dos diferentes grupos indígenas que foram genericamente denominados botocudos pelos colonizadores. Concentrados principalmente em Minas Gerais, estas populações foram atingidas pela marcha civilizadora imposta tanto pela política colonial, quanto pela imperial, tendo sido a última ainda mais intensa. Interessada particularmente pela realidade vivida por estas populações no século XIX, a autora demonstra habilmente como as intervenções promovidas pelos governos provincial e imperial resultaram na sujeição e na desterritorialização dos índios. Diretamente atingidos pelo Regulamento das Missões (1845), pela Lei de Terras (1850) e pela Companhia do Mucuri, órgão provincial responsável pelas ações empreendidas em relação aos índios, Mattos demonstra os múltiplos processos de mestiçagem vivenciados pelos botocudos no interior dos aldeamentos dirigidos pelos missionários capuchinhos. No entanto, ao trazer à tona a revolta indígena ocorrida no aldeamento de Itambacuri em 1893, a autora denota de forma acurada que este processo complexo e violento não anulou a atuação dos índios em prol de seus interesses.
10. WITTMANN, Luísa Tombini. O vapor e o botoque: imigrantes alemães e índios Xokleng no Vale do Itajaí/SC (1850-1926). Florianópolis: Letras Contemporâneas, 2007.
A partir do século XIX, o avanço da propriedade privada sobre as terras indígenas ganha contornos cada vez mais dramáticos e violentos no Brasil. E no Vale do Itajaí, em Santa Catarina, esta situação foi particularmente intensa. Focando sua análise nos índios Xokleng que viviam em tal região, Wittmann realiza um trabalho muito competente ao trazer à tona os conflitos que se deram entre os indígenas e os imigrantes alemães, que chegaram ao local com o apoio do governo imperial. Consideradas devolutas apesar da ocupação indígena ancestral, as terras do Vale do Itajaí foram palco de forte perseguição aos Xokleng, considerados pelo governo da província catarinense e pela imprensa local como selvagens ou um entrave para a modernidade. Para além do conflito, a autora contribuiu de forma decisiva ao recuperar a trajetória de indígenas que viveram nesta realidade e tiveram suas vidas reviradas. Transcendendo os marcos do período imperial, Wittmann analisa ainda a atuação do Serviço de Proteção ao Índio (SPI), já na Primeira República, em relação aos Xokleng, contemplando uma época ainda pouco estudada pela historiografia. Por fim, a obra tem grande valor ao retirar da invisibilidade os índios Xokleng, dando o devido lugar que possuem na História.

Luís Rafael Araújo Corrêa é professor efetivo do Colégio Pedro II e coordenador de História do campus Duque de Caxias. Doutor e mestre em História Social pela Universidade Federal Fluminense, tem experiência na área de História, com ênfase em História Moderna, atuando principalmente nos seguintes temas: Colonização na América Portuguesa, Povos Indígenas, Aldeamentos Indígenas, Companhia de Jesus, Processos de Mestiçagem e Diretório dos Índios.

1922: Primeiro Congresso Internacional de Esperanto

No dia 18 de abril de 1922, representantes de 28 países participaram do Primeiro Congresso Internacional de Esperanto em Praga.
Portrait of L. L. Zamenhof (picture alliance/United Archiv)
Três mil pessoas participaram do Universala Congreso em Praga, demonstrando o grande impulso que o esperanto teve logo depois da Primeira Guerra Mundial. Várias escolas começaram a ensinar a disciplina, milhares de pessoas frequentaram seus cursos. A repentina popularidade da língua, criada em 1887 pelo polonês Ludwig Lazarus Zamenhof, deveu-se à sua mensagem pacifista: a paz entre os povos só seria atingida se a humanidade conseguisse se comunicar sem problemas.
Esperanto seria mais fácil de aprender do que inglês ou francês, por só possuir 16 regras gramaticais e nenhuma exceção. Nada mais oportuno do que introduzi-lo num pós-guerra. Em Genebra, havia sido criada a Liga das Nações, que os esperantistas interpretaram como a grande oportunidade para introduzir um idioma universal num órgão internacional.
Só que, na própria Liga das Nações, a questão era vista com ceticismo. Em setembro de 1920, a assembleia geral debateu o assunto pela primeira vez. A votação para introduzir o esperanto nas escolas de todo o mundo fracassou devido ao veto da França, cujo idioma predominava tanto no mundo diplomático como cultural da época.
Versatilidade oratória
Uma pequena vitória dos esperantistas foi a participação do secretário-geral das Liga das Nações, o japonês Inazo Nitobe, no primeiro congresso internacional, em Praga. Nitobe manifestou-se surpreso com a versatilidade oratória da língua: "Ela parece permitir a manifestação de todos os tipos de sentimentos e pensamentos".
Graças a esta observação do secretário-geral, a Liga das Nações voltou a se ocupar com o esperanto numa segunda assembleia. Dessa vez, para avaliar a experiência com a nova língua nas escolas.
O Congresso de Esperanto em Praga, em 18 abril de 1922, reuniu representantes de escolas e governos de 28 nações. Ele confirmou a importância do idioma na aproximação dos povos, levando à reivindicação de que a Liga das Nações o tornasse a principal língua estrangeira nas escolas. O pedido voltou a ser rejeitado em Genebra, novamente com o veto da França.
Na Alemanha, o apelo chegou a ser seguido por 123 municípios, mas no geral a causa foi praticamente esquecida. Um ano mais tarde, uma comissão que se ocupara do assunto concluiu que seria mais produtivo as escolas lecionarem línguas vivas.
  • Autoria Klaus Dahmann (rw)
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Convite para exposição


segunda-feira, 17 de abril de 2017

V Simpósio do GTHRR/Regional Sul divulga trabalhos aprovados


Para acessar a lista clique aqui.

A inscrição para ouvintes e participantes de oficinas seguem abertas até 23 de maio! Participe!

OFICINAS
01 - O uso de fotografias para análise histórica da religiosidade no Sul do Brasil nos séculos XIX e XX
Me. Rodrigo Luis dos Santos (ISEI-Ivoti)
 EMENTA: A fotografia possui uma força representativa de grande impacto, na medida em que captura determinado aspecto e o transforma em algo memoriável. Diante disso, é preciso levar em conta os mecanismos e as intencionalidades que estão por trás de uma produção fotográfica. Para o campo da pesquisa e do ensino histórico, essas dimensões devem ser consideradas amplamente pelos pesquisadores e docentes. Partindo dessa perspectiva, a proposta desta oficina é compreender e analisar a construção imagética produzida sobre as diferentes manifestações religiosas na região Sul do Brasil a partir do século XIX, avaliando as especificidades e a conjuntura deste período e a presença de diferentes grupos religiosos (católicos, evangélico-luteranos e outras formas de protestantismo, religiosidades de matriz afro-brasileiras, entre outras). As fotografias, além de constituir uma materialização de determinado momento e sua utilização para guarda de determinado discurso memorialístico, também é um instrumento de demarcação de espaço e de inserção no tecido social. Compreendendo esse panorama e a complexidade do seu uso, assim como a potencialidade que esta fonte possui, tanto no campo da pesquisa quanto do ensino de História (considerando a necessidade cada vez maior de unir estes dois elementos), esta oficina se propõe a pensar os subsídios conceituais, teóricos e metodológicos para a realização desta análise, assim como refletir sobre a relação existente entre religiosidades e fotografias.


02 - A arte pictórica, a música e o artesanato como fontes de pesquisa em espaços públicos e privados: Entre o sacro e o profano, novas perspectivas de estudo e análise
Dra. Eloisa Capovilla Ramos (UNISINOS)
Dda. Anna Paula Boneberg N. dos Santos (UNISINOS)
 EMENTA: A oficina tem como mote os estudos recentes sobre obras pictóricas, artesanais e/ou obras musicais sacras e profanas desenvolvidas em espaços como igrejas, capelas, museus e festas religiosas e profanas. A partir de conceitos presentes em discussões no âmbito da História Cultural, tais como representação, memória e patrimônio (material e imaterial), queremos compartilhar não somente fontes de pesquisa histórica, mas alguns métodos de leitura iconográfica e musical, bem como estabelecer um diálogo abrangente sobre as possibilidades de articulação destas fontes entre si e com outros possíveis objetos de pesquisa. Serão analisadas pinturas de artistas sacros como Aldo Locatelli e Emilio Sessa, estabelecendo relações entre a doutrina católica vigente entre a década de 1940 e meados de 1960 e os ícones e símbolos de devoção que formam o seu conjunto em algumas das igrejas onde foram produzidas.  Um dos mais populares atos devocionais da Igreja católica, mas estando presente, também, nos terreiros do candomblé do Brasil, a Festa do Divino Espírito Santo será analisada através de obras pictóricas, textos literários e históricos, relatos e manifestações da cultura popular que a representam, ou seja, músicas e imagens que têm o Divino Espírito Santo como tema. Textos, imagens e músicas, entre outras fontes serão dados a ler e seus significados serão compreendidos de acordo com os lugares, os momentos e as funções para os quais foram criados.


03 - A possessão e o descarrego na Igreja Universal e as fronteiras com o candomblé
Ddo. Babalawô Ivanir dos Santos (UFRJ)
Dda. Sandra Regina Marcelino Pinto (PUC-SP)
 EMENTA: A década de 1980 marca, de forma contundente, o alvorecer das religiões cristãs pentecostais no Brasil. Fruto de um intenso processo dos crescimentos religiosos, do seguimento evangélico no país. De modo emblemático esse ‘fenômeno’ religioso marca, também, os processos acirrados de intolerância religiosa no Brasil contra os adeptos e praticantes da religiões afro-brasileiras. Entretanto em seu bojo, além dos intensos processos de estigmatizarão e preconceitos, estão os processos de ‘religiofagia’ e ‘exacerbação’ unidos diretamente às diligências dos cultos pentecostais neopentecostais por meio das possessões, que passa a tomar contornos benéficos ou maléficos de acordo com o ambiente em que elas se manifestam. Portanto, proposta da oficina se concentra na discussão da possessão em seu sentido lato e na possessão como fenômeno religioso no pentecostalismo. A intenção é discutir a proporção comercial que a Igreja Universal do Reino de Deus - IURD explora a “possessão” demoníaca legitimando seu poder de expulsar o demônio. A apropriação e influência de elementos utilizados no Candomblé pela IURD.


04 - Processos e decisões judiciais: usos e armadilhas em pesquisas históricas
Dr. Felipe Cittolin Abal (UPF)
 EMENTA: Analisa os processos judiciais e as decisões judicias como fontes para pesquisas históricas através de uma abordagem transdisciplinar que combina Direito e História. Aborda a historicidade das normas, das instituições judiciais e das decisões judiciais. Foca-se, especialmente, na utilização das decisões judiciais em pesquisas históricas analisando o processo decisório do julgador através de uma prática jurídico-histórica.


05 - Fazendo história com relatos de viagem
Ddo. Emannuel Reichert (UPF)
 EMENTA: Introdução ao uso da literatura de viagem como fonte histórica. Desenvolvimento dos relatos de Heródoto à atualidade. Relação entre o sujeito e o objeto da narrativa e o público leitor. Alteridade e poder. Possibilidades de análise e cuidados necessários com esse gênero textual.

II Seminário do GT de História Política divulga apresentações de trabalho


 




terça-feira, 11 de abril de 2017

1991: Armistício da Guerra do Golfo

No dia 11 de abril de 199,1 era assinado o Tratado de Armistício da Guerra do Golfo Pérsico, após vitória militar dos aliados ocidentais. O conflito começara em agosto do ano anterior, quando o Iraque anexara o Kuwait.
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As tropas de Saddam Hussein atravessaram a fronteira leste do Kuwait na madrugada de 2 de agosto de 1990. De um total superior a 1 milhão de combatentes a serviço do ditador, foram mais de 100 mil soldados a invadir o país vizinho.
A guerra contra o Irã, que terminara em 1988, consumira as divisas do Iraque, provenientes da venda de petróleo. Dívidas elevadas foram o resultado de oito anos de massacres e volumosas compras de armamentos. E os esforços de Saddam para aumentar os ganhos com a exportação do ouro negro precipitaram a crise do Golfo Pérsico.
A Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) assegurou a estabilidade do preço do produto, limitando o volume de vendas. O Kuwait aumentou a sua quota em 20%, provocando uma queda de preços no mercado mundial. O Iraque perdeu um terço de seus lucros, e Saddam Hussein ameaçou abertamente o governo kuwaitiano, lembrando que aquele país pertencera ao Iraque até a divisão pelos ingleses, em 1928.
Anexação
Como Washington não dera garantias de segurança explícitas ao Kuwait, Hussein sentiu-se encorajado, na certeza da não intervenção dos Estados Unidos.
O Iraque anexou o país vizinho em 8 de agosto de 1990, declarando-o sua 19ª província. No dia seguinte, o então presidente norte-americano, George Bush, anunciou o envio de tropas para a Arábia Saudita. No final de novembro, o Conselho de Segurança das Nações Unidas autorizou os aliados ocidentais a empregar todos os meios para forçar a retirada de Saddam, caso esta não se efetuasse até 15 de janeiro do ano seguinte.
O prazo se esgotou: 580 mil combatentes aliados estavam frente a frente com os 540 mil soldados de Saddam Hussein. Em 17 de janeiro, acompanhada por um aparato midiático sem precedentes, iniciou-se a operação Desert Storm (Tempestade do deserto), com bombardeios aéreos sobre o Iraque e o Kuwait ocupado.
Embora a propaganda do Estado-Maior norte-americano louvasse a "precisão absoluta" das intervenções, os números desmentem essa pretensão: 88.500 toneladas de bombas foram lançadas sobre o Golfo Pérsico, sete vezes e meia mais do que em Hiroshima. Um massacre cego, que custou entre 150 mil e 200 mil vidas e toda a infraestrutura dos locais atingidos.
Ofensiva decisiva
Porém, o golpe decisivo foi a mobilização das tropas de infantaria aliadas, em 24 de fevereiro. Em apenas três dias, as forças de Saddam Hussein estavam vencidas, dezenas de milhares entregaram-se espontaneamente.
Bush anunciou pela TV: "O Kuwait foi libertado, o Exército iraquiano foi derrotado, alcançamos nossos objetivos militares". Em seguida, foram suspensos os combates até a assinatura do tratado de armistício, em 11 de abril..
  • Autoria Doris Bulau (av)
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