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terça-feira, 15 de março de 2011

Mulheres na Palestina

Situação das mulheres nos territórios ocupados por Israel é insustentável, afirma ativista palestina
Daniella Cambaúva | São Paulo

Todo palestino que tenha necessidade de entrar em território israelense ou até mesmo viajar da cidade de Ramallah ao setor oriental de Jerusalém precisa enfrentar uma longa e imprevisível fila, que pode durar horas ou até dias. Elas são o maior drama dos checkpoints, os postos de controle de passagem realizados pelo exército israelense. Lá, uma equipe militar é encarregada de observar os portões de acesso para fiscalizar o tráfego de pessoas. A revista física e nos carros são procedimento padrão. Veículos médicos podem ser parados em caso de busca a milicianos, fato que ajuda a explicar a razão de, entre 2000 e 2009, 72 palestinos terem morrido na espera por atendimento médico nos postos de controle, de acordo com dados da organização de direitos humanos israelense B'Tselem.

Nos checkpoints, a cena de uma mulher grávida dando à luz ou sendo recebidas aos berros pelos solados é uma cena trágica, porém comum para quem visita a região, contou a palestina Soraya Misleh. A jornalista, figura da luta para os direitos humanos e ativista da organização Mopat (Movimento Palestina para Todos), recebe a reportagem de Opera Mundi em seu escritório em São Paulo, entre livros e fotos de mulheres palestinas, e fala sobre a dificuldade que elas enfrentam por conta do bloqueio, vigente desde 2007.

Segundo a OMS (Organização Mundial da Saúde), muitos tratamentos especializados não estão disponíveis e os palestinos precisam ser levados para fora. Muitos, porém, têm sua saída negada pelos israelenses. Há falta de profissionais de saúde, aparelhos médicos estão em condições precárias e a importação de medicamentos é insuficiente. Para Soraya, este cenário é desastroso tanto para as mulheres quanto para os rumos da paz na região.

O conflito entre palestinos e israelenses e o bloqueio aos territórios palestinos provocam um sofrimento generalizado, isto é, homens, mulheres, idosos, crianças... Por que existe esse trabalho com foco nas dificuldades enfrentadas exclusivamente pelas mulheres?
As mulheres historicamente são as que mais sofrem em situações de conflito armado. Em uma situação como essa, que é uma ocupação militar de fato nos territórios palestinos, as mulheres sofrem toda a opressão nos checkpoints (postos de controle), nos muros, assim como os homens. Mas a questão é que elas também acabam tendo de enfrentar situações complicadas que são colocadas na ocupação. Há situações, por exemplo, em que as mulheres têm de se tornar chefe de família durante uma guerra, durante a ocupação, porque os maridos foram presos. Na Palestina, 10% das mulheres são chefes de família. Elas têm que trabalhar e ao mesmo tempo enfrentar a opressão.

Para além disso, por serem mulheres, elas são vistas nos checkpoints como mais vulneráveis e sofrem uma humilhação maior ainda. Recentemente, eu estive na Palestina, em outubro, e as histórias que elas contavam é “quando a gente passa pelos colonos, eles fazem sinais pra nós, fazendo assim no pescoço [Soraya sinaliza com as mãos como se fossem lhe cortar a cabeça]”, elas usavam a expressão “diziam que ia fazer 'coisas feias'” com as mulheres.

As mulheres continuam tendo seus filhos nos checkpoints. Um dado recente é de que cerca de 70 mulheres tiveram os filhos nesses locais, impedidas de passar para poder dar à luz com dignidade, em maternidades. Elas acabam parindo em postos de controle. Esse é um dado da ONU, de 2007 [último dado disponível]: Dessas 70 gestações, 35 bebês e cinco mulheres morreram.

É uma situação infelizmente bastante comum, as pessoas não podem transitar livremente com dignidade. O que as mulheres querem de fato é poder estudar, trabalhar. Como em qualquer lugar do mundo elas querem ter seus direitos respeitados, de ir e vir.

Esse é um dado muito marcante. E tem histórias terríveis, como a de uma mulher que estava grávida, pronta para dar à luz, e não conseguiu passar. O marido foi morto num posto de controle, eles foram agredidos e o pai da mulher ficou 40 dias em coma. Essas histórias horripilantes acontecem.

Tem várias histórias que a gente conhece, que eu soube quando minha mãe foi pra lá em 2004. O filho de uma mulher foi morto “por engano” na frente dela. Eles acharam que era o outro [filho], que era militante, entraram na casa e mataram. Então as mulheres vivem todo esse trauma também, essa insegurança.

Em que região isso aconteceu?
Dentro da própria Cisjordânia. Há dezenas de postos de controle para você transitar de uma cidade para outra. Demora horas, você precisa de autorização. Lá, tem diferença entre placas de carro, de quem pode transitar de uma cidade para outra, diferenças de identidade, quem tem licença para passar, por exemplo, para ir para Jerusalém. Jerusalém oriental é território palestino e, mesmo assim, as pessoas [os palestinos] não têm o direito de ir para Jerusalém. Tem os postos de controle, então para você ir para um hospital dar à luz, é necessária uma autorização.

>>Fila para inspeção em posto de controle em Erez

Nesta viagem que você fez em outubro, você chegou a passar por algum posto?
Sim, algumas vezes. Eu passei de ônibus, de carro e a pé, das três maneiras. De ônibus, o que a gente notou foi a discriminação com os palestinos. Eles precisam descer do ônibus para ir para Jerusalém, onde tem um checkpoint. Tinham que descer do ônibus, fazer o trajeto a pé no meio dos carros, isso faça sol, faça chuva, ir para um checkpoint onde você passa por dezenas de portões. E você é revistado. Tira cinto, identidade, sapato. E você vai passar e pegar o ônibus só depois junto com as outras pessoas, uma forma muito clara de discriminação.

Para os carros, tem uma placa amarela que indica que pode circular por todo o território, que hoje é Israel. Tem a placa branca, que só permite circular em determinadas partes do território palestino. Azul, permitindo em outros territórios palestinos, tem outras cores também. Então de carro você também para e mostra a identidade e responde uma série de perguntas.

Uma vez, passamos a pé pelo posto de controle. Essa foi a experiência, para mim, mais marcante. Achei bastante chocante a maneira como os palestinos são humilhados e tratados. Uma mulher no guichê, aos gritos, e as pessoas se amontoando para passar, inclusive com crianças, e aquela demora. E muitos, apesar de terem autorização, não podiam passar. Foi impactante.

Como é o acesso aos hospitais, aos médicos? Não em situações de emergência, como essas que deram à luz nos postos de controle. Mas para fazer um acompanhamento, pré-natal, por exemplo?
O acesso é prejudicado pela ocupação, pois há serviço de assistência nos territórios palestinos, com hospitais e toda uma estrutura de atendimento. Mas elas têm o acesso prejudicado por conta dos postos de controle. E o Muro [da Cisjordânia], quando estiver pronto, vai ter mais de 700 metros de comprimento e nove metros de altura, cortando o território. Não separa, como gostam de dizer, Israel da Palestina. Corta cidades ao meio na Palestina, impedindo as pessoas de transitar livremente.

Colocando também um dado, na mais recente ofensiva, de 2009, 40% das mulheres da Faixa de Gaza não conseguiram fazer pré ou pós-natal. Elas foram impedidas. A terceira causa de morte entre as mulheres jovens nos territórios [palestinos] é justamente no período de gestação, por conta dessa dificuldade de ter uma assistência. Não porque não existam maternidades, mas pela dificuldade para chegar.

O Muro da Cisjordânia, também chamado de Cerca de Segurança pelos israelenses, começou a ser construído em 2002, durante o governo do primeiro-ministro Ariel Sharon, com objetivo de “evitar a entrada de terroristas” em Israel. O término de sua construção está previsto para 2012.

>>Em alguns pontos, o muro alcança a altura de oito metros

O bloqueio impede a chegada de medicamentos, equipamentos médicos?
Sim, com certeza. O bloqueio é outra causa de morte entre as mulheres palestinas.

O bloqueio à Faixa de Gaza foi imposto pelos governos do Egito e de Israel em junho de 2007, depois de o grupo islâmico Hamas, vencedor das eleições parlamentares na Palestina, assumir o poder naquele território. A medida permite apenas que carregamentos de suprimentos humanitários cheguem à região, após um controle minucioso de seu conteúdo.

A maioria delas é de muçulmanas?
É, a maioria das mulheres palestinas é muçulmana sunita, mas tem cristãs também. A palestina tem uma diversidade nesse sentido, não é uma coisa homogênea como a mídia gosta de fazer parecer. Você vê fotos da mulher palestina e ela está sempre com véu. Não é assim, você vê mulher com véu, mulher sem véu.

Existe alguma dificuldade para a palestina no mercado de trabalho por conta da religião?
Isso varia muito de família pra família. A opressão às mulheres não se limita geograficamente ou por etnia, ou por território. Acontece aqui [no Brasil], como acontece lá [na Palestina] também. Também é uma sociedade patriarcal. Tem mulheres dirigindo táxi, trabalhando, cuidando dos filhos, como tem aqui. E tem mulheres que o marido aqui diz “você não vai trabalhar”, e lá também. Então essa situação não é por ser de família muçulmana, é porque historicamente a mulher é reprimida. E lá tem o agravante da ocupação.

Como é a participação das mulheres em grupos de resistência palestinos?
Historicamente a mulher palestina participa ativamente da resistência, inclusive as mulheres participaram já no final do século XIX. Quando surgiram os primeiros assentamentos sionistas na Palestina, elas estavam presentes. Depois na década de 1920, começaram algumas revoltas e as mulheres também tiveram participação nisso, organizaram um congresso de mulheres. Dai saiu uma primeira organização e elas tiveram um papel ativo durante toda a trajetória de resistência.

Tem alguns símbolos tanto do ponto de vista cultural como da linha de frente mesmo. Por exemplo, a Leila Khaled, que é da Frente Popular pela Libertação da Palestina, que promoveu ações de direito no final de década de 1960 e 70. Uma palestina que se tornou bastante conhecida por suas ações, defende o direito de resistência.

E outra palestina, Fadua Tucan é uma poeta. As palavras que ela colocava no papel eram mais subversivas que dez atentados. As mulheres tiveram esse papel de resistência através da cultura.

É comum ouvirmos histórias de homens que participavam de movimentos de resistência e que se tornaram presos políticos. Há também mulheres como presas políticas?
Sim. E elas também sofrem torturas sistemáticas, enfrentam muitas vezes abuso sexual. Essas são denúncias que já foram feitas por organizações internacionais.

E existem prisões femininas para as prisioneiras políticas?
Tem, tem duas para onde vão mulheres.

Este não é um sofrimento atual, tem um grande histórico. Mas esse sofrimento das mulheres aumentou com o passar dos anos?
As histórias de terror se perpetuaram. Mas eu digo que se agravaram no sentido de restrição de liberdade. Presas em suas próprias casas, sem poder levar o filho à escola, com dificuldade para trabalhar, checkpoints pipocando, um muro. Por isso se agravou nesse sentido.

A diferença é que, em 1948, as pessoas saíam de seus territórios achando que seria uma questão de tempo. Hoje eles não saem mais. Eu escutei mulheres falando “aqui é minha terra e daqui eu não saio. Se derrubarem minha casa, eu vou montar uma tenda e ficar aqui”. Porque elas já sabem que não é mais uma questão de tempo, é uma questão de paciência, de acreditar que essa situação vai mudar e que, se não for para ela, vai ser para o filho, para o neto, e que nenhuma opressão pode durar para sempre.

Fonte: Opera Mundi

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