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segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Arpilleras: bordados como forma de resistência política no Chile

Uma forma de expressão genuinamente feminina sobre fatos cotidianos e sentimentos universais, capaz de narrar a luta contra a ditadura de Augusto Pinochet. Esta é a definição das "arpilleras" feita por Roberta Bacic, curadora da exposição “Arpilleras da resistência política chilena”, que pode ser vista no Memorial da Resistência de São Paulo, na Luz, de 30 julho a 30 de outubro.


Divulgação

Uma das arpilleras chilenas expostas no Memorial de Resistência de São Paulo

"Arpillera" é uma técnica de produção têxtil, feita artesanalmente com pequenos pedaços de retalhos. Roberta explica que, durante a ditadura no Chile, as arpilleristas usaram o seu trabalho para “denunciar o desrepeito aos direitos humanos, a falta de justiça e liberdade, os maltratos, os sequestros e a vida da população marginalizada”.

Para Marcelo Araujo, diretor do Memorial, as arpilleras se tornaram um registro histórico da ditadura chilena. “Na recriação da sua realidade cotidiana, [as mulheres chilenas] mostraram o que se passava naquele país, a partir da instauração da ditadura militar em 1973”. Roberta complementa com a constatação de que as arpilleristas documentaram o que as comissões de justiça e verdade ainda não esclareceram.

A curadora revela que, por causa das críticas e denúncias presentes nas arpilleras, a ditadura chilena passou a perseguir o trabalho destas mulheres, inclusive destruindo oficinas. A simplicidade dos materiais usados na produção e a clandestindade foram alguns dos meios utilizados para driblar a ditadura.

Divulgação


Quem visita a exposição dificilmente não se encanta com a capacidade das obras, que mesclam contestação política, tortura e sequestro com cenas do cotidiano das comunidades, tudo isso com uma grande riqueza de detalhes.

Logo na entrada, o público é recebido pela arpillera “A vida em nossa comunidade”, da Oficina Recoleta (1984). Esta obra exibe crianças pulando cordas, mulheres passeando com bebês, pessoas se casando e diversos outros instantes que ilustram como era a vida nestas comunidades.

A arpillera “Onde estão nossos filhos?” (1979), de autor desconhecida, exibe dois punhos algemados e uma mãe olhando para eles com lágrimas nos olhos. No verso da obra há uma bilhete, escrito à mão: “Isto representa nossos filhos que podem estar assim. Uma mãe angústiada pela dor”

Divulgação


O sequestro, a tortura e o sofrimento com a ausência de seus filhos e maridos são temáticas presentes em diversas arpilleras. “Caim, onde está seu irmão?” (1982), de autor desconhecido, apresenta um grupo de pessoas que seguram um cartaz com a frase biblíca, em uma alusão direta ao desaparecimento daqueles que se opunham a Pinochet.

“Corte de água” e “Juntos na adversidade”, ambas de autoria desconhecida e feitas em 1980, são exemplares da solidariedade existente dentro das comunidades chilenas. A primeira denuncia o corte de água, em regiões mais carentes, para impedir manifestações contra o governo. Como resposta, as mulheres saíam com baldes em direção aos bairros mais ricos, recolhiam água e depois a redistribuiam entre os seus vizinhos.

A segunda exibe diversas mulheres dividindo pequenas tarefas entre si e cozinhando em um mesmo fogão. Esta obra evidencia o espírito de parceria e de ajuda dentro entre as mulheres.

(Paulo Pastor Monteiro)

Fonte: Opera Mundi

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