domingo, 30 de setembro de 2012

1992: EUA retiram-se das Filipinas


No dia 30 de setembro de 1992, os Estados Unidos devolveram sua base naval nas Filipinas, depois de 94 anos no país. Pela primeira vez em mais de quatro séculos, filipinos estavam livre de militares estrangeiros.
Foi com uma cerimônia simples que se encerrou a presença militar dos EUA nas Filipinas. Quando a bandeira americana foi recolhida pela última vez na base naval de Subic Bay, o ato contou com a presença dos poucos fuzileiros navais que ainda restavam de um antigo contingente de aproximadamente 6 mil homens, assim como cerca de 3 mil moradores da cidade vizinha de Olongapo. Com um pouco de desconsolo, eles acompanharam o discurso do presidente filipino Fidel Ramos.
Na sua reportagem sobre o evento, o então correspondente da televisão alemã, Hartmut Idzko, afirmou: "Segundo o presidente Ramos, a cerimônia de hoje encerra um longo período da história americano-filipina. Os norte-americanos marcaram a vida da região, deram emprego a 30 mil pessoas somente em Subic Bay. Agora, a taxa de desemprego subiu para 70% na região da antiga base naval. O fim da hegemonia americana no Sudeste Asiático é o começo da miséria econômica para dezenas de milhares de filipinos".
Desejo de soberania
Mas não foram as razões econômicas que levaram as Filipinas a cancelar, a partir de 30 de setembro de 1992, o acordo com os EUA para a manutenção da base militar norte-americana em território filipino. No final do século 20, conforme a opinião predominante em Manila, tinha chegado o momento de demonstrar finalmente a soberania das Filipinas, fazendo com que nenhum soldado estrangeiro estivesse mais estacionado no arquipélago – pela primeira vez há mais de 400 anos.
Durante 381 anos, as Filipinas estiveram sob o jugo estrangeiro. Inicialmente, tinham sido colônia espanhola; depois, foram colônia dos Estados Unidos da América, durante 48 anos. Mas quando lograram a sua independência, em 1946, a influência norte-americana permaneceu praticamente a mesma de antes. Não apenas a influência econômica, mas também militar. Em março de 1947, os dois países assinaram o acordo de manutenção de bases militares, que permitia aos Estados Unidos continuarem estacionando os seus soldados no arquipélago filipino.
A base aérea de Clark, nas Filipinas, era a maior base aérea norte-americana fora dos Estados Unidos. E a base naval de Subic Bay gozava de excelente fama entre os fuzileiros navais americanos. Localizada nas proximidades da cidade de Olongapo, Subic Bay oferecia todo o conforto imaginável aos militares ali estacionados.
 Ao lado do clima excelente, com um bom tempo quase constante, numa das baías mais bonitas das Filipinas, os fuzileiros navais estavam aquartelados com grande conforto, em prédios de apartamentos de dois ou três andares. Pelo menos na aparência externa, Subic Bay não tinha nada daquilo que se conhece geralmente como vida castrense.
A população de Olongapo também adaptara-se perfeitamente aos soldados dos EUA. Ali podia-se comprar tudo o que faz parte do chamado american way of life. E havia também um florescente mercado de prostituição, voltado para os soldados, quase todos do sexo masculino.
Estado também lucrava
Mas o estacionamento das tropas norte-americanas trazia lucros também para o Estado filipino e não apenas para as cerca de 30 mil pessoas que viviam direta ou indiretamente dos serviços e negócios com os americanos em Olongapo. Até 1992, Washington pagou anualmente cerca de 200 milhões de dólares pelo direito de estacionar seus soldados nas Filipinas.
Para os norte-americanos, tais somas já tinham sido amortizadas há muito tempo. Pois o abastecimento e o apoio logístico das tropas combatentes, primeiro na Coréia, depois no Vietnã e, finalmente, também na Guerra do Golfo, teriam sido muito mais difíceis e muito mais caros sem as bases de Clark e de Subic Bay.
Para os Estados Unidos, não surgiu nenhum problema estratégico ou logístico em consequência do cancelamento do acordo das bases militares pelas Filipinas. A retirada dos soldados norte-americanos gerou problemas apenas do lado filipino: a perda de dezenas de milhares de empregos, um retrocesso dramático principalmente no consumo e a perda dos pagamentos anuais feitos por Washington.
Perdas no âmibto humano
E surgiu ainda um outro problema, de caráter humano. Os Estados Unidos estiveram presentes nas Filipinas durante quase um século. Os soldados norte-americanos também deixaram os seus rastros pessoais. O problema foi narrado da seguinte maneira pelo jornalista alemão Hartmut Idzko, durante a cerimônia de despedida em Subic Bay:
"As recordações das tropas norte-americanas ainda estarão presentes nas ilhas filipinas durante gerações. Cerca de 50 mil americano-asiáticos são deixados aqui, filhos de soldados americanos e mulheres filipinas. Os pais deixam agora o país, os filhos e as suas mães têm de permanecer aqui, sem qualquer amparo. As leis dos Estados Unidos permitem que os filhos de pais americanos no Vietnã, na Tailândia, na Coréia do Sul e no Camboja obtenham a cidadania norte-americana. Mas exatamente os filhos de americanos nas Filipinas, ex-colônia dos EUA, foram excluídos desse direito legal. De qualquer maneira, na cerimônia de hoje, o presidente Ramos prometeu pelo menos dar apoio aos americano-asiáticos. Só que Ramos tem atualmente muitos compatriotas que dependem urgentemente do seu apoio". 
  • Autor Dirk-Ulrich Kaufmann (am)
  • Fonte: DW-World

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