quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Viva o Rio Grande do Sul, tchê! (especial DM)

Alessandra Pasinato
(Redação Passo Fundo / DM)

Jornalista - ale_pasinato@hotmail.com



Quando a alegria da chama crioula acende no coração dos gaúchos, é um aviso para a querência toda de que uma data especial está por vir e gaúchos, prendas, prendinhas e peões se arrumam, bota, bombacha e vestido de chita para comemorar com festança o dia 20 de setembro, “o precursor da liberdade”. E durante todo o nono mês do ano, até que os vinte dias cheguem, a gauchada se encontra em acampamentos farroupilha, em mateadas e rodas de chimarrão, onde o fogo de chão esquenta a chaleira e o orgulho de ser gaúcho aquece o coração dessa gente que mais do que nunca expressa a cultura que desde a batalha de Farrapos mostra a garra e coragem de um povo aguerrido. Como dizia Teixeirinha e cantava Rio Grande afora: “quem quiser saber quem sou, olha para o céu azul e grita junto comigo viva o Rio Grande do Sul”. É dia de comemorar.

TRADICIONALISMO
Tradições gaúchas
Para a coordenadora da 7ª Região Tradicionalista do Rio Grande do Sul, Gilda Galeazzi, o Movimento de Tradições Gaúchas representa um segmento da sociedade civil organizada de manifestação cultural referente a cultura gaúcha. Ele se organiza através das entidades tradicionalistas que tem um quadro social regulamentado por um estatuto de fundação das entidades. “Entendemos que o nosso movimento é organizado, que forma cidadãos em virtude de que todo o segmento da sociedade civil organizada tem suas regras. Só participa quem sente prazer de estar no ambiente e todos tem regramento”, esclarece ela.

Em Passo Fundo são 16 entidades, entre Centros de Tradições Gaúchas (CTG), Departamentos Tradicionalistas e Grupos Folclóricos. “Muda apenas a nomenclatura, porque a identidade é a mesma. Todos tem atividades plenas que são culturais, artísticas, sociais e campeiras”, afirma ela.

As atividades culturais, segundo Gilda, além de divulgar a cultura gaúcha a qual estão inseridas, tem como obrigatoriedade atrair associados para continuar a preservar a manifestação cultural, divulgando concursos de prendas e peões. A atividade campeira exercita o tiro de laço, vaca parada, provas de gineteada, e todas as atividades relacionadas a lida campeira. Já a parte artística inclui a dança, o canto, a chula, a poesia e os instrumentos.
Vestimenta
Em Passo Fundo, entre praticante se simpatizantes que estão inseridos na comunidade, de 20% a 30% da população é ligado ao tradicionalismo. De acordo com Gilda, “a caracterização do gaúcho se dá através de sua forma de expressão nos usos e costumes, valores éticos e morais, respeito às pessoas, que caracteriza uma identidade própria, principalmente através da palavra empenhada”, afirma.

Na opinião de Gilda, a vestimenta como em todos os Estados, através de suas manifestações culturais tem indumentária específica, assim é também no Rio Grande do Sul. “Como temos manifestação gaúcha, temos nossa indumentária regulamentada por lei estadual, a única que é reconhecida por lei”, afirma ela. A pilcha gaúcha é determinada pela Lei Nº 8.813 de 10 de janeiro de 1989.
Gastronomia
Segundo Gilda, as comidas típicas estão enquadradas no contexto das entidades tradicionalistas pelos usos e costumes das gerações passadas, que tinham o hábito de se alimentar fartamente para conseguir trabalhar durante o dia nas tropeadas. “Tinha que ser uma alimentação farta e reforçada porque não tinham hábito de se alimentar três vezes ao dia, então faziam uma alimentação reforçada até encontrarem uma pousada para sua tropa”, frisa ela. A coordenadora também conta que os tropeiros não paravam, não havia um acampamento certo, era demarcado conforme o cansaço da tropa.

A gastronomia gaúcha é uma das mais ricas do país e o prato que mais caracteriza o Estado é o churrasco, além claro, do carreteiro. De acordo com Gilda o churrasco era a forma mais comum e corriqueira de alimentação, isso porque os tropeiros quando faziam suas paradas, às vezes até carneavam o próprio animal para se alimentar. “O MTG nasceu na zona rural, através de uma identificação de estância e na estância o animal mais comum era o gado”, esclarece. Ela explica que o carreteiro e o churrasco são os mais conhecidos e mais difundidos, porque na época que se originou o próprio charque, que era feito da carne. “Quando matavam os animais, era tirava a carne fresca para o churrasco e o que sobrava salgavam para poder conservar porque não tinha outro meio de conservação da carne crua a não ser através do sal”, pontua.



(FOTO ALESSANDRA PASINATO / FOTO ALESSANDRA PASINATO)

CTG
Um dos CTGs mais tradicionais de Passo Fundo é o Lalau Miranda, o primeiro a ser fundado na cidade em março de 1952. Segundo o 1º capataz, José Henrique Fonseca, o Lalau Miranda tem seu embrião na Academia Passo-fundense de Letras, quando em 1952 Antonio Donin e outros acadêmicos vinham da metade sul do Estado onde já havia uma movimentação tradicionalista. “Ele vinha de Porto Alegre, chegou em Passo Fundo e mobilizou acadêmicos, explicando que havia uma movimentação para resgatar a história do Rio Grande do Sul, que se perdeu a partir da ditadura de Getúlio Vargas”, explica.

Foi em 1948 que começou essa movimentação de resgate e o Lalau Miranda surgiu nesse meio, formado por escritores, jornalistas e profissionais liberais, que utilizaram as dependências dos clubes Comercial e Juvenil, além do Círculo Operário. “Lalau Miranda era um estancieiro que tinha vivido em Passo Fundo, Estanislau de Barros Miranda, e em homenagem a ele foi colocando seu apelido”, informa Fonseca.

Lalau Miranda
O CTG foi uma das 10 primeiras entidades no Estado a ser fundada e foi o primeiro centro da região Norte do Rio Grande do Sul. “Em 1954, já viajava ao Rio de Janeiro para participar do programa da Radio Nacional, com abrangência nacional com a invernada artística. Foi a primeira vez que um grupo artístico representando a cultura gaúcha se apresentou no Rio de Janeiro num programa ao vivo num domingo a noite”, conta o capataz.

A partir do Lalau Miranda vieram os ensaios para formação dos cavaleiros, que se transformou na invernada campeira, nas rondas gaúchas e nos festejos da semana farroupilha. “As rondas que temos iniciaram em 1952 e a primeira vez foi realizada nas dependências do clube Caixeral”, relembra ele. Conforme Fonseca, como os dançarinos usavam esporas e riscava o piso dos clubes, aos poucos tiverma que se mobilizar para a construção de uma sede própria que contou com a participação de muitos associados.

A entidade chegou a ter mais de 5 mil associados, que construíram a sede própria, o rancho que hoje reúne os mais de 300 associados ativos, envolvendo dançarinos, famílias de dançarinos, invernadas campeiras, grupos associados e invernadas artísticas. “Uma das únicas entidades que mantém o compromisso com o regate e a continuidade da cultura gaúcha através das invernadas de dança e campeiras”, finaliza o capataz.

HISTÓRIA
Guerra de Farrapos
Professor do curso de Pós-graduação em História da UPF, Adriano Camassoli, explica que a Guerra dos Farrapos foi uma das revoltas do período regencial brasileiro, que foi de 1831-1840, e resultado das tensões entre uma parte da elite terratenente sul rio-grandense e o Estado imperial. Conhecida como Revolução Farroupilha, o professor afirma que não foi um movimento isolado, visto que outros levantes aconteceram, no mesmo período, na Bahia, Pernambuco, Maranhão e Pará. “Como os demais a Farroupilha deve ser entendida como parte do processo de formação do Estado nacional brasileiro”, afirma o professor que acredita que o termo revolução não é o mais correto para esse acontecimento.

Ele explica que no contexto histórico, a Guerra de Farrapos ocorreu por uma série de razões. “Uma parte da elite estancieira estava insatisfeita com o governo central devido à falta de autonomia da província, falta de participação política, excesso de impostos sobre o sal e sobre o charque e a perda da província Cisplatina em 1828”, comenta, pontuando que esses descontentes promoveram uma guerra civil reivindicando mudanças que lhes permitissem governar a província do Rio Grande do Sul segundo seus interesses. “Não foram, entretanto, todos os líderes políticos que aderiram ao movimento, uma grande parte da elite sulista manteve-se fiel ao Império, visto que tinha sólidos interesses na manutenção da unidade nacional e na ligação com a Corte do Rio de Janeiro”, pontua.

Entre os rebeldes farroupilhas havia uma grande diversidade, conforme o historiador. “Nem todos eram favoráveis ao separatismo ou mesmo à república e a grande maioria era favorável à manutenção da escravidão”, justifica, contando que a guerra durou de 1835 a 1845, terminando com um tratado de paz entre os rebeldes e o Império e como consequência teve a reinserção dos rebeldes à máquina administrativa e militar brasileira.

Identidade regional
Conforme Camassoli, a diferença entre a Guerra dos Farrapos e as demais revoltas do período provincial é que estas não são celebradas como manifestações de identidade regional. A celebração de 20 de setembro é bastante recente, tendo iniciado em torno dos anos 1950, sendo que o feriado de 20 de setembro foi estabelecido por lei em 1996. “O contexto de seu surgimento é o de uma reação à política de Getúlio Vargas de extinguir os símbolos estaduais como bandeiras e hinos. Portanto, é uma forma de afirmação da identidade regional do Rio Grande do Sul”, salienta, considerando que essa celebração, contudo, faz parte mais da memória sobre a guerra do que da história. “Significa que alguns elementos são supervalorizados e outros esquecidos, silenciados, enquanto um terceiro grupo é inserido de forma equivocada. Por exemplo, não se chamavam os habitantes do Rio Grande do Sul de gaúchos, mas de sul rio-grandenses”, explica.

De acordo com o historiador, gaúcho era um termo negativo que significava homens não totalmente ajustados à ordem social, “homens soltos” ligados à atividade pecuária. “Homens como Bento Gonçalves da Silva ou Antônio de Souza Netto não admitiriam ser chamados de gaúchos, já que eram bem assentados estancieiros”, pontua ele.
20 de setembro
Sobre o uso das bombachas, Camassoli aponta que elas ainda não existiam na América ao tempo da Revolução Farroupilha. “Elas foram inseridas somente uma ou duas décadas mais tarde. Os cavaleiros farrapos utilizavam-se mais do chiripá e certamente vestiam ponchos, indumentárias que deitam raízes no século XVII”, conclui, observando que “o próprio termo ‘farroupilha’ e menos específico do contexto de guerra do que se imagina, surge já alguns anos antes e é utilizado em contexto nacional”, constata, comentando que farroupilha significa exaltado na política, aqueles que apoiavam a reforma constitucional de 1834 e não tem ligação com vestir farrapos.

Para o professor, as festividades do 20 de setembro mostram a tensão que existe entre memória e história, onde aponta que a primeira é mais afetiva e a segunda mais científica. “A celebração do 20 de setembro hoje cumpre importante papel na definição e afirmação da identidade do gaúcho – termo que se estende a todos os nascidos no Rio Grande do Sul hoje. Essa identidade cria seu mito de origem, que é a ‘Revolução’ Farroupilha”, declara, explicando que não há nada de errado nos mitos. “Basta entender que eles nos contam muito mais sobre os tempos em que vivemos do que sobre os tempos aos quais se referem. Ou seja, quando falamos da celebração atual do que é ser gaúcho estamos falando mais de nós mesmos do que de nossos antepassados”, acredita.

Cultura gaúcha
O historiador aponta que a cultura gaúcha se construiu fazendo muitas referências ao episódio da Guerra dos Farrapos, espécie de momento fundador da identidade gaúcha, que teria, entre outros traços, a característica de “lutar pela liberdade” e “ser contra a tirania” e ao mesmo tempo de destacar da identidade geral do brasileiro. “Essa identidade é construída com doses de verdades históricas e de reinterpretações, pois trabalhando como memória ela é seletiva, escolhe episódios de forma consciente ou não”, diz ele.
Camassoli aponta que muito do que a cultura gaúcha carrega como autêntico pode ser questionado. “Se autêntico significa algo surgido em um passado distante ou diretamente ligado à epopeia farroupilha elementos como o uso da bombacha não são autênticos. Mas são autênticos como expressão atual da identidade gaúcha, que está fortemente ligada a essa vestimenta”, considera ele.

O historiador considera que a cultura gaúcha e um fenômeno social em si e que não há paralelo em nosso país. “O fato é que esta identidade, essa memória construída, por ser extremamente positiva é muito bem vista tanto pelos gaúchos quanto pelos demais brasileiros. As grandes imagens de identidade no Brasil são o gaúcho, no sul, e a baiana, não havendo outras que desfrutem de tanto sucesso”, avalia. Para ele, de certa forma não importa, se essas imagens estão de acordo com a figura da baiana e do gaúcho como existiram no século XIX, pois elas não tem como objetivo explicar historicamente, mas importa e muito se elas causam um efeito positivo na sociedade atual. “Esse efeito positivo, contudo, não nos deve cegar para o uso que essas imagens podem ter, que é o de silenciar conflitos sociais ou formas de dominação, estas sim presentes desde tempos longínquos”, finaliza.

História, arte e sentido
Estudante do curso de pós-graduação, o aluno mestrando Henrique Pereira Lima teve em uma das disciplinas a história no sentido da arte, em como ela pode transmitir conhecimento e partindo do princípio que ela possui valor cognitivo, expressão social e transmite as questões que a sociedade vive.

“Colocando isso na perspectiva regionalista identifiquei duas obras de arte que tratam do mesmo tema, mas que vão encontrar graus diferentes de inserção no imaginário do gaúcho no Rio Grande do Sul: O Laçador e El Gaucho Oriental.

Segundo Lima, O Laçador é uma obra modelada no Rio Grande do Sul em 1954 pelo próprio imaginário riograndense e a outra, El Gaucho Oriental, evoca outro jeito de pensar e interpretar o gaúcho, porque foi criada no Uruguai, em 1935, e vai se sustentar numa historiografia diferente de O Laçador.
Identidade cultural
Segundo Lima, a identidade cultural do gaúcho riograndense é diferente do que foi produzida e passada na Argentina e no Uruguai. “Essa identidade vai ser construída e várias mãos, que vão manipular, forjar a história, a historiografia, as perspectivas da sociedade e esses elementos quando vão para a literatura, pintura, poesia, arte monumental vão reproduzir o gaucho riograndense que é uma construção”, explica.

No seu estudo, o mestrando partiu da produção ou do jeito que a história foi feita no Estado desde o século XIX. “Essa história regional vai privilegiar o elemento português como ocupante do espaço riograndense, a formação das estâncias, o caráter fronteiriço do Rio Grande do Sul, que vai colocar o Estado como se fosse uma fronteira sempre em perigo do avanço hispânico”, afirma, frisando que o gaúcho vai ser visto como um elemento que vai ficar na fronteira defendendo o território.
 
Simbólico x real
Segundo ele, no século XIX, um grupo de intelectuais pensar sobre essa visão e com base nas informações procurou dar origem e fortalecer a imagem do gaúcho brasileiro, como nobre, ordeiro. “Foi a sociedade do Partenon Literário, que acaba, mas essa perspectiva não. Ela vai atingir o século XX e novos elementos vão se associar a esse pensamento”, afirma. Os escritores vão criar o gaúcho protetor da fronteira e vai chegar ao que conhecemos hoje que é o Movimento Tradicionalista Gaúcho. “O MTG defende uma perspectiva, que tem uma lista de caracteres que definem o gaúcho que é benemérito, com uma visão positiva, que glorificam. Mas, e o gaúcho histórico?”, indaga Lima.

O gaúcho histórico tem alguns aspectos negativos, conforme ele, que foram exportados para o outro lado do Uruguai, para o Prata, pela historiografia riograndense do século XX que manipulou todo esse processo. “O gaúcho idealizado se manteve. A diferença que existe é entre o simbólico e o real, que não existe mais, somente existe o simbólico, que se torna real quando as pessoas vivem essa perspectiva, isso é identidade cultural”, justifica. Ele conclui dizendo que o gaúcho de hoje tem uma pontinha de história e muito de idealismo.

Desfile Farroupilha
Como já é tradição, no dia 20 de setembro a Avenida Sete de Setembro vai receber o Desfile Farroupilha, que vai encerrar a programação oficial dos festejos que antecedem o Dia do Gaúcho. O desfile inicia às 9h e a avenida vai receber o Grupo Tradicionalista Gaúcho Herança da Tradição e o Núcleo de cavalos Crioulos Ronald Bertagnoli. Após, quatorze piquetes de cavalarianos disputam o concurso de cavalarias. Às 18h, no CTG Fagundes dos Reis, será entregue a premiação às cavalarias, juntamente com a premiação aos vencedores da 20ª Mostra da Cultura Gaúcha. Após as premiações, será oficialmente encerrada a Semana Farroupilha.


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