sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Brasil ajudou a negociar crise dos mísseis em 1962, mostram documentos secretos dos EUA


Reprodução/ National Security Archive
Documento secreto do Departamento de Estado dos EUA mostra estratégia de pedir ajuda ao governo brasileiro na negociação com Cuba

Organizações norte-americanas divulgaram documentos, até então secretos, relacionados à atuação da Casa Branca e de outros governos, incluindo o brasileiro, durante a Crise dos Mísseis em 1962 em plena Guerra Fria.

A crise política entre Estados Unidos, União Soviética e Cuba teve início no dia 14 de outubro quando uma aeronave espiã norte-americana descobriu a presença de mísseis atômicos soviéticos na ilha, a quase 300 quilômetros de Miami. A Casa Branca queria evitar a todo custo esta situação e por alguns dias, as superpotências ficaram na iminência da guerra nuclear.

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Entre as 3 mil páginas publicadas pelo Arquivo de Segurança Nacional nesta sexta-feira (13/10), constam informações sobre a participação do Brasil em um esforço diplomático secreto para intermediar a solução do impasse. O governo de João Goulart, próximo e solidário a Cuba, enviou uma mensagem do então presidente dos EUA, John F. Kennedy, para Fidel Castro.

Segundo o documento do dia 25 de outubro, os EUA davam duas opções ao revolucionário cubano: “a queda de seu governo e no pior dos casos, a destruição física de Cuba” ou “garantias de que não vamos tentar derrubar o seu regime”.

(Fotografias tiradas de aeronave norte-americana mostram os projéteis nucleares soviéticos em Cuba)

Para essa segunda opção, Kennedy exigia que Castro expulsasse tanto os mísseis quanto os soviéticos de seu país. De acordo com o texto, “muitas mudanças nas relações entre Cuba e a OEA (Organização dos Estados Americanos), incluindo os Estados Unidos, iriam acontecer”.

O Departamento de Estado dos EUA ainda instruía os brasileiros para levar o recado de forma secreta, sem mencionar que vinha diretamente das autoridades norte-americanas. A opção de recorrer ao Brasil aparece como uma das tentativas de negociação antes da possível (e iminente) guerra nuclear.

Os documentos revelados reiteram a versão dos arquivos brasileiros sobre a participação do governo de Jango na Crise dos Mísseis, que foram divulgados pelo governo em 2004 e se encontram em acervo em Brasília. Os textos foram utilizados na pesquisa do historiador James Hershberg, da Universidade George Washington.  

Segundo apuração de reportagem especial do Estado de São Paulo dos 50 anos do episódio, o portador da mensagem não foi o embaixador brasileiro em Cuba (como previa o documento), mas o chefe da Casa Militar de Jango, o general Albino.

O militar brasileiro – conhecido pela sua simpatia ao governo socialista cubano – tentou negociar com Castro, mas o revolucionário colocou como condição para um acordo com os EUA a devolução da base de Guantánamo. Enquanto isso, a Casa Branca e a União Soviética, liderada por Nikita Khruchev, entraram em acordo “à revelia de Fidel”, informou o Estado de São Paulo.

A União Soviética concordou em retirar os mísseis de Cuba em troca de garantias de que os EUA não invadiriam a ilha e também moveriam os seus projeteis nucleares da Turquia e do sul da Itália.

"Uma palavra explica a decisão de Kennedy de recorrer ao Brasil: desespero. Os EUA discutiam várias opções e uma delas era essa mensagem via governo brasileiro", explicou Hershberg ao Estado de São Paulo.

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Fonte: Opera Mundi

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