quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Nota dez


Em um bairro da cidade de Iperó, interior de São Paulo, a turma de oitavo ano da Escola Municipal Professora Zilma Thibes Mello passou a entender melhor o cenário da vizinhança a partir das aulas de História. No início de 2012, o professor Ailton Luiz Camargo decidiu ensinar economia colonial de uma maneira diferente, trazendo à tona a relação entre homem e animal naquele período. Baseado na edição ‘Civilização dos Bichos’, da Revista de História, Ailton preparou uma série de atividades para estimular os alunos: levou à sala imagens, textos extraclasses e documentos da época. No final do semestre, os jovens escreveram cartas que foram enviadas à Secretaria de Vigilância Sanitária; e ele recebeu o prêmio Professor Nota 10, da Fundação Victor Civita.
“Achei o dossiê da revista de número 60 muito legal. Porque normalmente não se relaciona os animais à história econômica. Fiz uma síntese de uma página do texto da professora Mary Del Priore e passei pros alunos. Fiz uma sondagem com eles, quis saber se reconheciam a relação entre homens e animais como relação histórica. E comecei para introduzi-los nessas fontes antigas e atuais, como a Declaração de Direito dos Animais”, conta o professor. Ele afirma que conversou muito com a turma sobre pecuária e tropeirismo, utilizou imagens do pintor Debret para ilustrar o período e ajudou os alunos a fazerem uma tabela no caderno. “De um lado, tinha o nome dos animais e, do outro, a visão do colonizador sobre eles, se era boa ou ruim. E, depois, fizeram o mesmo com os animais do bairro”.
No artigo Mil e uma utilidadesescrito pela historiadora Mary Del Priore e publicado na Revista de História, os valores dados aos bichos pelos homens em diferentes épocas são bem trabalhados. Ela observa que, no Brasil, “desde o início da colonização, a percepção sobre a ‘bondade’ ou a ‘maldade’ de determinados animais vem sendo forjada com base na sua utilidade para o homem”.  E que, por exemplo, “os habitantes do Brasil antigo aceitavam os papagaios em casa, mas os periquitos precisavam ser espantados a toda hora”. Ou mesmo que “os urubus, apesar de feiosos, eram bem-vindos porque limpavam o lixo, enquanto os morcegos maltratavam os cavalos dos senhores deengenho”. Em entrevista à Revista de História, Del Priore parabeniza a iniciativa de Ailton e diz que "O importante de estudarmos os animais, sua história e as transformações que sofreram ao longo do tempo é a possibilidade de nos aproximarmos da natureza e a compreendermos. Muitas vezes, a simples observação do comportamento dos animais, ensina mais e melhor do que muitos tratados e ensaios críticos". A historiadora acrescenta ainda que "se não entendermos que o milagre da vida é a somatória de percepções sobre as diferentes espécies e a natureza, estaremos condenados. Assim, como a terra que já assassinamos".

Interpretação de texto
O professor Ailton, com base nessa visão histórica sobre os animais, ajudou os alunos a fazer a mesma coisa com os bichos de seu bairro. Ensinou o passado a partir do presente.E não só isso. Ele quis avaliar a escrita dos alunos, pedindo para que eles fizessem redações sobre a Colônia e sobre a região atual, que foram corrigidas e melhoradas ao longo das aulas. “Depois disso tudo, partimos para o estudo de uma lei municipal de 2005 sobre a questão dos animais. Queríamos saber quais artigos estavam sendo implantados no bairro, quais não.  Fizemos uma discussão, e, depois cada um produziu uma carta para a prefeitura, embasando seus argumentos com o conhecimento da História”.
Procurada pela redação da Revista de História, a Secretaria de Vigilância Sanitária do município afirmou que todas as cartas foram lidas e armazenadas no arquivo. Segundo a diretora da pasta, as portas estão abertas para o contato com os alunos, futuras palestras e conversas para auxiliar na construção de uma consciência ambiental no local.

O prêmio
Regina Scarpa, coordenadora pedagógica da Fundação Victor Civita, relata que o plano de aula de Ailton encantou os avaliadores do prêmio Professor Nota 10, da área de História. Segundo ela, o mais interessante do projeto foi justamente a relação entre o passado e presente, realizado pelo educador. “Ele mostrou ahistória como uma disciplina que não estuda um passado que não existe mais, desconectado do presente. O passado nos ajuda a compreender o presente. Seus alunos informaram a situação atual, fizeram uma análise crítica dos maus tratos ali na comunidade quase rural se baseando no que sabiam também da História. Isso é uma atitude bacana para jovens do Ensino Fundamental”. Ao todo, a Fundação recebeu cerca de 3 mil projetos, para dez prêmios finais das mais diversas áreas de ensino.
Esta não foi a primeira vez que Ailton colocou em prática formas diferentes de aula. No ano passado, quando precisou ensinar epidemias que ocorreram no país no início do século XX, mapeou com os alunos quais eram as principais doenças agravadas por falta de higiene na região. Após o trabalho com os alunos, convidou funcionários da prefeitura para serem entrevistados pelos alunos, para que aprendessem mais sobre a profilaxia das doenças. Ao fim do projeto, realizaram uma campanha de conscientização que se estendeu por toda a região.

Civilização dos bichos
Ao reforçar a importância de se estudar os animais na nossa história, Mary Del Priore faz um retrospecto sobre como os bichos estão presentes na nossa vida de hoje - e de ontem. "Os animais passaram séculos sem aproximar-se dos homens. Mas, estes, desde que estão sobre a face da terra, não vivem sem os animais. Inimigos ou aliados, a dupla prosperou, as relações foram se modificando e encheram tratados de caça, manuais de agricultura, textos sagrados, livros de cozinha, história da arte, publicidade e até nossa linguagem cotidiana, encontra-se cheia de referencias aos animais: 'Fulano é burro', 'bonzinho como um carneirinho', 'ruim como uma cobra'..."
E acrescenta ainda que "sua presença nas mentalidades, no folclores e na mitologia descreve sua domesticação ou o cotidiano em liberdade e encheram de sonhos e terrores as noites de nosso antepassados. Quem não temia o 'lobo mau'? A zoologia é uma das mais antigas ciências e remonta ao tempo de Aristóteles ou de Heródoto, quando o homem já era um observador competente e perspicaz da vida animal. Chineses e indianos também deixaram sumas sobre o tema. Todos sempre preocupados em separar selvagens e domésticos, contando suas histórias respectivas. Rompendo com o método tradicional de descrição dos animais e suas vidas, bem como da preocupação de classificá-los por sua utilidade e função, a zoologia recente se constituiu em algo mais complexo. Trata-se de uma ciência da vida. Fundamentada em amplos conhecimentos de física, química e até matemática e associada a observações e experiências provocadas, os zoólogos passaram a se interessar menos pela história dos animais e mais pelos resultados da convivência entre homens e bichos".


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