quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Para inglês pesquisar


Vasto material sobre o Brasil na British Library inclui documentos inéditos e mostra que o interesse britânico pela nossa História vem de longa data

Ronaldo Pelli

Na gravura inglesa de 1849, navio negreiro brasileiro é interceptado por embarcação inglesa no Atlântico
Na gravura inglesa de 1849, navio negreiro brasileiro é interceptado por embarcação inglesa no Atlântico >>>>

Dois Pedros I. O primeiro está sentido, machucado, confuso. O pedaço de papel ordinário data de 22 de maio de 1828, pouco depois da morte da sua primeira esposa, a imperatriz Leopoldina. A letra é trêmula, nervosa, quase indecifrável – mesmo para paleógrafos. Pede à marquesa de Santos que saia da cidade. Explica que é pelo “bem do meu negócio do casamento”, do novo, em vista. Seu raciocínio, assim como a caligrafia, não é claro. Roga que ela “não ouça conselhos” de quem quer “a perdição”, que “faça o que lhe digo pois lhe falo sério e como quem lhe [tem] amizade e lhe tem [indecifrável] afeição”.
O outro, de cerca de um ano mais tarde, é um Pedro seguro, diplomata, estadista. Mas ainda assim emotivo, destilando uma raiva latente a cada parágrafo. Tenta convencer seu interlocutor por meio de argumentos cordiais, em vez de usar a razão, cartesiana. A letra é claríssima, calma. O tom, quase fraterno. Uma conversa entre amigos – entre “irmão e primo”, como nota o cabeçalho. Desta vez, o papel é oficial, a carta ainda conserva a cera do selo real. É dirigida a “sua magestade el rey da Gram-Bretanha e Irlanda do Norte”. Pedro quer a ajuda de George IV para resolver o imbróglio em Portugal. Ele abdicara do trono em favor de sua filha Maria II, mas, como se sabe, Miguel, irmão de Pedro, achou melhor continuar no poder, recusando-se a “publicar e cumprir o meu real decreto de 3 de março de 1828, pelo qual ordenei que aquele reino fosse governado em nome de minha muito amada e querida filha”.
Ambas as cartas se encontram no arquivo da British Library, a biblioteca nacional britânica, que guarda inúmeros documentos sobre o Brasil. Há papéis e mais papéis sobre diversos momentos de nossa História em que os ingleses tiveram participação direta ou indireta. A vinda da família real portuguesa para o Brasil. A Independência. O tráfico negreiro. A Lei Aberdeen. A questão Christie. E outros menos óbvios, como uma série de documentos chamados de British Guiana Papers, que abordam a Amazônia no início do século XVII.
“Em geral, está havendo um aumento do interesse sobre o Brasil ao redor do mundo recentemente”, explica a curadora da British Library para a América Latina, Elizabeth Cooper, opinião compartilhada pelo professor Mark Sabine, do Departamento de Estudos Portugueses, Espanhóis e América Latina da Universidade de Nottingham. “A coleção brasileira na BL está entre as melhores disponíveis para os pesquisadores na Europa, e é uma fonte de importância global”, opina.
Voltando às duas missivas do nosso primeiro imperador, a BL guarda também uma resposta da marquesa, sem data nem assinatura, escrita numa letra menos bonita, mas bem mais fácil de se entender, talvez demonstrando que a pessoa que a escreveu, apesar de menos educada, estava mais calma no momento de sua elaboração. Ela diz que recebeu “a carta de S. V. M. e não respondi logo como devia por conta de uma grande dor de cabeça que me acompanhava”. Em seguida, aceita se mudar, com uma única condição: que “V. M. que me dê outra propriedade igual em tudo a que deixo”. Logo após essa troca de correspondência, Domitila de Castro iria embora da corte e Pedro I se casaria pela segunda vez.
segunda carta – desconhecida da maioria dos pesquisadores do período – teve destino ainda mais curioso: jamais foi entregue a George IV. Seu portador, D. Thomas Mascarenhas, era camareiro-mor de D. Maria da Glória, filha de Pedro I, aquela que deveria, segundo o pai, estar no trono de Portugal. Mascarenhas é chamado no texto de apresentação do documento de “ministro plenipotenciário não-oficial”, fato que motivou o embarreiramento da correspondência.
Lord Aberdeen, político inglês que deu nome ao ato que proibiu o comércio de escravos na região em 1845
Lord Aberdeen, político inglês que deu nome ao ato que proibiu o comércio de escravos na região em 1845
“Qualquer que sejam meus sentimentos de efeito pessoal, eu acredito, senhor, que você admitirá que seria contrário a toda a questão […] diplomática se eu fosse submetê-la à sua Majestade o conteúdo de tal carta. Considerando ainda que ela foi apresentada por um cavalheiro, a quem em resposta à minha questão, já me informou que ele não foi designado por sua Majestade para este ou outro qualquer propósito”, escreve George Hamilton-Gordon, o quarto conde de Aberdeen, em uma carta para o senhor Mascarenhas, datada de 19 de março de 1830.
Hoje, a carta e sua resposta negativa constam de um arquivo imenso chamado de Aberdeen Papers, que reúne grande material de Lord Aberdeen, duas vezes secretário do Exterior [Foreign Secretary], um dos postos mais importantes no sistema parlamentar britânico. A primeira foi no governo do duque de Wellington, entre 1828 e 1830, e por isso foi o caminho escolhido para a carta chegar ao rei inglês.
A coleção Aberdeen papers inclui também um grande volume dedicado exclusivamente à questão do tráfico de escravos. Entre os numerosos papéis reunidos, há um memorando do gabinete do Parlamento, de 3 de julho de 1845, referente ao projeto de lei sobre o tráfico de escravos no Brasil que ficou conhecida entre nós como Aberdeen Act. No alto, está escrito “Confidential”.
O projeto de lei começa contextualizando historicamente a questão. Diz que, desde 1810, a Grã-Bretanha tenta, na época com Portugal, abolir o tráfico de seres humanos pelo Atlântico. Mostra que, em 1817, um tratado permitia que navios de uma nação abordassem os da outra e os conduzisse a tribunais mistos, formados por portugueses e britânicos, estabelecidos na colônia inglesa de Serra Leoa, na África, ou no Rio de Janeiro. Também ficou acordado que, após o fim oficial do tráfico, essa legislação valeria por 15 anos. O texto do memorando deixa bem claro que, ao se separar de Portugal, o Brasil continuou seguindo os tratados firmados anteriormente sobre essa questão.
O documento demonstra as jogadas armadas pela nossa diplomacia para evitar que os navios brasileiros que transportavam africanos destinados a se tornarem escravos fossem abordados pelos britânicos e levados ao tal tribunal. São manobras que conseguem postergar a decisão final da abolição, causando crescente insatisfação entre os ingleses.
Em 1830, quando chega a data marcada para o fim do tráfico, o memorando afirma que o Brasil pediu à Grã-Bretanha que acabasse com as comissões de Serra Leoa e do Rio. Como oficialmente o tráfico não existia mais, e como o comércio de escravos no Brasil tinha se tornado ilegal, não havia necessidade daquele tribunal para julgar os eventuais navios negreiros. Os tribunais comuns poderiam tomar conta do caso. A Grã-Bretanha recusou, claro.
A questão explodiu 15 anos mais tarde, quando os britânicos descobriram que, bem, o tráfico de escravos para o Brasil não tinha acabado. Havia variações de ano para ano, mas, segundo os cálculos de um ministro dos Estados Unidos no Rio, citado no memorando, cerca de 30.000 escravos foram importados no ano de 1844.
No último parágrafo, eles informam que era com pesar que notificavam os brasileiros, mas que a convenção assinada quase duas décadas antes deveria vigorar. Caso contrário, que o governo brasileiro sinalizasse com uma convenção calculando quando poderia acabar realmente com a questão. Assim, Sua Majestade britânica poderia reverter o ato em favor do Brasil, em vez de tomar uma decisão unilateral, como ela então se via “forçada”a fazer. Um final totalmente inglês para uma questão que vinha sendo levada de modo bem brasileiro.
Em seguida, na coleção de papéis, vem o famoso “Ato que leva para a execução a convenção entre sua majestade e o imperador do Brasil [D. Pedro II], para a regulação e a abolição final do tráfico de escravos africanos”, de 8 de agosto de 1845, em dois formatos. Ficou mais conhecido como Bill Aberdeen.
Ao vasculhar os documentos, é curioso perceber que nem sempre a diplomacia britânica agiu com “pesar” em prol dos seus interesses. Nos Dropmore Papers, datados de 1805 até antes de 25 de junho de 1806 – que estão entre os preferidos da curadora Elizabeth Cooper – temos contato com o esquema do transporte da família real portuguesa para o Brasil, e o envio de força militar para assistir à emancipação da América do Sul, abrindo a região para o comércio britânico – como explica, sem meias palavras, o resumo da própria biblioteca. Uma das condições para a ajuda no transporte da família real? A abertura dos portos às nações amigas, providência que o príncipe D. João toma antes mesmo de chegar ao Rio de Janeiro, em sua primeira parada brasileira, na Bahia.
Está claro que o interesse dos ingleses pelo Brasil não é fenômeno recente.
Ronaldo Pelli é jornalista e editor do blog Conto no Canto.

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