sábado, 17 de novembro de 2012

Carta aberta a respeito da grande mudança historiográfica brasileira


Não deve escapar a inúmeros colegas o acirrado debate historiográfico que foi sustentado em torno do período colonial brasileiro, como é tradicionalmente denominado o período entre os anos 1500 e 1822 dentro do qual uma larga porção da América esteve sob controle da monarquia lusitana. Foi um dos pontos de discussão ao mesmo tempo mais produtivo, constante e agressivo das últimas duas décadas em nossa Academia. Pois estes tempo parecem superados e uma nova perspectiva se abre para todos nós. Após anos de duras críticas à obra do professor João Fragoso a professora Laura de Mello e Souza demonstrou na reportagem da Revista FAPESP concordar com os diversos pressupostos e conclusões do colega da UFRJ, os quais vieram a público na obra coletiva “Antigo Regime nos Trópicos”, de 2001, organizada por ele e pelas professoras Maria Fernanda Bicalho e Maria de Fátima Gouvêa. Este livro se tornou uma referência na historiografia nacional e hoje nomeia também um grupo de pesquisa que reúne Antônio Carlos Jucá de Sampaio, Roberto Guedes Ferreira e outros tantos pesquisadores, dentre os quais me incluo. As ideias que começaram a ser sistematizadas em “Antigo Regime nos Trópicos” foram e estão sendo ampliadas, revistas e discutidas em inúmeras outras obras e artigos como, por exemplo, “Conquistadores e negociantes” e mais recentemente “Monarquia Pluricontinetal”, do qual tenho a honra de participar com um capítulo. De fato, o livro do professor Fragoso, “Homens de grossa aventura”, e sua obra em parceria com o professor Manolo Florentino, “O arcaísmo como projeto”, já traziam questionamentos sobre a imobilidade mercantilista da economia e sociedade da América portuguesa, retomando por sua vez, ideias que reportam ao trabalho de Ciro Flamarion Cardoso. A professora Laura não deixei de criticar acidamente tais ideias em seu livro “O sol e a sombra”, reafirmando a força e o predomínio explicativo do chamado Antigo Sistema Colonial e repudiando a intenção de mudança esboçada em “Antigo Regime nos Trópicos”. Tudo isso, contudo, são águas passadas em vista das afirmações da historiadora para a Revista FAPESP.

Não posso deixar de manifestar a minha imensa alegria em ler as opiniões da professora Mello e Souza, agora convergentes com as que nosso grupo de pesquisa vem desenvolvendo há anos. Trata-se de um novo tempo em nossa historiografia, quando os encarniçados debates poderão ser superados e esforços comuns poderão avançar sobre as incontáveis questões ainda por responder sobre a América portuguesa. Confesso minha animação incontida ao pensar em todas essas grandes mentes trabalhando em prol de objetivos comuns.

Entretanto, não posso deixar de ressaltar e repreender a desastrada edição da reportagem efetuada pela equipe da Revista FAPESP, pois a mesma oferece uma perspectiva na qual os colegas do grupo Dimensões do Império Português seriam pioneiros em privilegiar a superação das premissas do modelo do Antigo Sistema Colonial, sistematizadas pelo trabalho fundamental de Fernando Novais. Conhecendo a seriedade de Laura de Mello e Souza, Ana Paula Megiani e José Jobson Arruda, mencionados na reportagem, sei que a responsabilidade pela ausência de menção aos trabalhos de João Fragoso, Antônio Carlos Jucá de Sampaio, Maria Fernanda Bicalho, António Manuel Hespanha, Maria de Fátima Gouvêa, Roberto Guedes Ferreira, Ciro Flamarion Cardoso e inúmeros outros que se propuseram a discutir e complexificar as ideias e explicações do Antigo Sistema Colonial deve-se totalmente à revista em questão. Sei igualmente que em breve os colegas do Dimensões se manifestarão para corrigir esse equívoco e consolidar esta que classifico como a grande mudança historiográfica de nosso tempo.

Prof. Adriano Comissoli.

Passo Fundo, 16 de novembro de 2012.

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