terça-feira, 6 de novembro de 2012

Guerrilheiro que incendiou o mundo


Jornalista lança biografia sobre o militante político Carlos Marighella, em Porto Alegre, Pelotas, Rio de Janeiro, Fortaleza e Ouro Preto. Foram nove anos de pesquisas para concluir a obra

Mauro de Bias
6/11/2012
Preso político da ditadura militar, militante do PCB, deputado constituinte, torturado, guerrilheiro. Carlos Marighella (1911-1969) tem um longo histórico na luta política no Brasil. Já teve a vida retratada duas vezes no cinema e, agora, contada no livro Marighella - O guerrilheiro que incendiou o mundo (Companhia das Letras, 2012), de Mario Magalhães. A obra foi apresentada ao público na última semana, em São Paulo, e nesta terça-feira (6) ganha cerimônia de lançamento em Porto Alegre. O evento acontece na Feira do Livro, às 19h, no Pavilhão de Autógrafos.
Já no dia 8, quinta-feira, a biografia será apresentada na Feira do Livro de Pelotas, às 18h. No dia 13, outra terça, o autor estará na Livraria da Travessa de Ipanema às 19h para o lançamento. Outros eventos vão acontecer também em Fortaleza, no dia 22, e em Ouro Preto, dia 25, no Fórum de Letras. Ainda não há detalhes sobre horários dos dois últimos lançamentos.
Após o evento em São Paulo, Magalhães se mostrou muito animado com a receptividade do público e contou sobre o trabalho para a produção da biografia. “Eu sou um repórter, estava com 39 anos e queria mergulhar em um projeto sem as amarras próprias de tempo e espaço de uma redação”. Ele começou o trabalho em 2003 e só terminou em 2012. Dos nove anos de trabalho, cinco foram em dedicação exclusiva à obra. “Entrevistei 256 pessoas, trabalhei com documentos da Rússia, da República Tcheca, dos Estados Unidos, do Paraguai e do Brasil. No fim do livro há 2580 notas sobre fontes. Assim, o leitor sabe qual foi a fonte de cada informação relevante sobre Marighella”, explicou o autor.

Guerrilha urbana no cinema, por Cristina Romanelli
“Para mim, ele era o tio Carlos, brincalhão, que fazia paródias das músicas de Roberto Carlos com os nomes dos nossos colegas. Ele sempre se escondia lá em casa. Uma vez, para explicar as ausências, inventou que tinha ido à África e trazido várias cobras dentro de caixas de sapato, para o Butantan, em São Paulo”, lembra a cineasta Isa Grinspum Ferraz. O tio de Isa era Carlos Marighella, um dos principais líderes da luta armada contra a ditadura militar no Brasil. Em agosto, estreou um filme sobre ele, dirigido pela sobrinha.
A produção de “Marighella” enfrentou alguns desafios logo de cara. A equipe pesquisou em Cuba, Moscou, Pequim e em vários arquivos do Brasil, mas não achou nenhuma imagem em movimento do militante. E as fotos – pouco mais de 20 – são todas do acervo da família. “Ele não podia deixar rastro. Queimavam coisas dele depois que ele saía lá de casa. Muitas pessoas que o conheceram mantiveram segredo sobre isso e só agora estão falando. Talvez por eu ser sobrinha, consegui que se abrissem comigo”, conta a diretora, que entrevistou ex-guerrilheiros e alguns parentes, como a viúva do ativista, Clara Charf, e o filho, Carlinhos Marighella.
A pesquisa, que incluiu documentos da Agência Central de Inteligência dos Estados Unidos (CIA) e gravações feitas em Cuba nos anos 1960, rendeu descobertas interessantes. “Os documentos da CIA confirmam como a agência estava envolvida na formação de torturadores na época. Mas em outros arquivos descobrimos coisas que não conhecíamos, como um movimento de apoio na Europa. Artistas como Joan Miró e Jean-Luc Godard enviaram dinheiro para Marighella”, revela Isa.
Segundo Daniel Aarão Reis Filho, historiador da Universidade Federal Fluminense, Marighella ganhou respeito mundo afora, em grande parte pela militância na clandestinidade e pela experiência no Partido Comunista Brasileiro. “Ele representava uma espécie de síntese das virtudes então mais consideradas entre as esquerdas radicais. Tinha audácia, decisão de partir para o enfrentamento, capacidade de trabalho prático e comunicação fácil e fluente, inclusive com os jovens. Tudo isso misturado a muita irreverência, um bom humor permanente e uma ironia cortante na crítica às velhas tendências hegemônicas. Tais virtudes fizeram com que Marighella fosse ao mesmo tempo respeitado, admirado e querido”, explica.
Esse documentário não é o primeiro sobre o militante. Silvio Tendler já havia lançado na televisão, em 2010, “Marighella – Retrato falado do guerrilheiro”. Mas Isa quis mostrar um recorte diferente: “Perguntaram se eu não ia ouvir o outro lado dessa história, a direita política. Eu não vou gastar tempo do meu filme para falar do ponto de vista que todo mundo sabe. Estou mostrando o ponto de vista de quem conviveu com ele”.

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