segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Misticismo e sangue


No alvorecer da República, eclode a Guerra de Canudos, episódio que demonstrou a fragilidade do novo Estado brasileiro. O conflito entre exército e seguidores de Antônio Conselheiro foi representado algumas vezes no cinema

Alexandre Leitão
Guerra de Canudos
Dir. Sergio Rezende, Brasil, 1997

Aquela campanha [de Canudos] lembra um refluxo para o passado.
E foi, na significação integral da palavra, um crime.
Denunciemo-lo.
Euclides da Cunha, Os Sertões

A Guerra de Canudos marcou com sangue a formação da República do Brasil. Os motivos por trás da eclosão do conflito são complexos e se estendem para além do período imediatamente posterior à Proclamação, em 1889. Sua sombra pesa até hoje sobre as ciências sociais, as artes, a política e certo ethos nordestino progressivamente construído no século XX. Inúmeros pesquisadores e artistas deram suas respectivas visões e interpretações sobre o episódio, numa lista que vai de Euclides da Cunha até Mario Vargas Llosa, passando, no cinema, por Glauber Rocha e Sergio Rezende.
  A guerra, deflagrada por um levante religioso no interior do sertão baiano, liderado pelo pregador popular conhecido como Antônio Conselheiro, marcou a eclosão de profundas tensões sociais na região. Flagelados pela alta concentração fundiária, tenebrosas secas e um sub-reptício discurso místico, proveniente da longínqua tradição sebastianista portuguesa (a crença do século XVII do retorno do rei D. Sebastião), os sertões baianos mostraram-se terreno propício para a mensagem de salvação apocalíptica anunciada por Conselheiro.
  Furioso com a República recém-declarada, que rapidamente anunciava o alvorecer de um Estado laico, o pregador guiou seus seguidores para o Arraial de Canudos, próximo da cidade de Monte Santo, no início da década de 1890. Por ele rebatizado de Belo Monte, Canudos constituiu-se numa pequena cidade independente, onde fiéis de Conselheiro aguardavam pacientemente o advento de um reino místico de justiça e retidão moral. Após um contínuo processo de militarização, o Arraial acabou por despertar apreensões locais e nacionais, que redundariam em quatro expedições militares para conter a revolta, executadas entre fins de 1896 e 1897. 25 mil baixas humanas depois, a Guerra de Canudos deixou uma marca indelével na República recém-nascida. Por meio dela atestaram-se as contradições socioculturais de um país que passava pelo processo de modernização capitalista e, ao mesmo tempo, travava batalhas campais contra sertanejos armados, lutando pelo que acreditavam ser o Reino de Cristo na Terra.

Canudos no Cinema
  Inúmeras versões da Guerra de Canudos foram levadas às telas do cinema brasileiro, sendo a mais célebre Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964), do cineasta Glauber Rocha (1939-1981), em que uma versão fictícia de Antônio Conselheiro é apresentada através do personagem Sebastião, pregador considerado santo no sertão nordestino. Porém, talvez seja a Guerra de Canudos (1997), lançado no centenário do conflito, película de Sergio Rezende, um dos marcos da retomada do cinema brasileiro, aquela que mais próxima chegou de retratar, fidedignamente, a cronologia e o cenário do evento.
Logo em suas primeiras tomadas, somos apresentados à imagem desoladora da caatinga, com seu chão rachado e arenoso. A fotografia, conduzida por Antônio Luís Mendes, baseia-se na estética do deserto, remetendo aos filmes do Cinema Novo, movimento artístico do final da década de 1950 que buscou retratar a realidade social brasileira. Imagens de palhoças feitas de barro, em meio a um ambiente desolado, remetem o espectador a filmes comoVidas Secas e O Pagador de Promessas. O roteiro, escrito pelo próprio diretor e por Paulo Halm, acompanha a trajetória de uma família de sertanejos, separada pela dura existência na caatinga e reunida sob a égide do conflito armado. Em conformidade com o modelo de filmes históricos produzidos na segunda metade da década de 1990, num processo iniciado com Carlota Joaquina - Princesa do Brasil, expõe-se uma visão crítica da história brasileira, mostrada em certa medida como trágica e acidental.
  Mas realizado sob uma perspectiva descolada daquela do Cinema Novo, Guerra de Canudos está longe de idealizar os rebeldes de Belo Monte ou a repressão desencadeada pelo Exército brasileiro. Acompanhamos a trajetória de Luiza, filha mais velha de Zé Lucena e Penha, dois camponeses nordestinos do final do século XIX. Renegada pelos pais após se recusar a segui-los na peregrinação para Canudos, Luiza, interpretada pela atriz Claudia Abreu, torna-se uma prostituta e posteriormente esposa de um dos soldados chamados para combater os insurgentes.
  Longe de uma condenação de suas escolhas, o filme se vale do que seria sua ótica particular para conseguir um contraponto entre os “conselheiristas” e os oficiais republicanos. Com os olhos da jovem, testemunhamos um exército elitista, pouco preocupado em respeitar a população pobre do Nordeste, e crente em sua própria missão civilizadora, mesmo que esta tenha de ser levada à cabo com a ajuda de canhões Withworth calibre 32, apelidados de “matadeiras”. Estes figuram em uma sequência na qual o general Artur Costa, interpretado por José de Abreu, decide perfilar-se diante da arma, acompanhado por seus subordinados imediatos, e gritar em tom ufanista “Viva a República!”, iniciando em seguida o disparo indiscriminado contra o centro de Canudos. Do outro lado do campo de batalha, entretanto, não são isentos e paradoxais revolucionários que vemos, atirando continuamente contra as tropas inimigas, mas homens dotados de uma visão extremamente conservadora, imbuídos de uma crença fanática em sua própria retidão moral. Tamanho é o zelo fundamentalista dos mesmos que, em determinada cena, a camponesa Penha não hesita em atirar nas costas de um amigo de sua família, após esse optar pela deserção de Canudos.
  Com um incrível valor de produção, tendo reconstruído o Arraial para executar as cenas de batalha, Guerra de Canudos, tal qual todo filme histórico, é uma visão de sua época e dos artistas por ele responsável. Não há a adesão ou redefinição da causa em jogo, com tentativas de encarar Canudos como uma pré-sociedade comunista, mas uma interpretação igualmente crítica.
Ao cabo da trama, a pena maior pelo massacre pesa indistintamente sobre o governo brasileiro, deixando claro que isso, por sua vez, não isentaria de responsabilidade o conservadorismo e o fundamentalismo religioso, emanados pelos revoltosos. Quanto à sequência final, acompanhamos Luiza e sua irmã mais nova, caminhando pelos escombros da cidadela e apanhando os rifles abandonados pelos combatentes.
Num lance que pode talvez remeter ao final de Terra em Transe, outra obra de Glauber Rocha, o filme encerra com uma sugestão de guerra contínua, deixando antever a possibilidade de que as mortes e destruição provocadas no Arraial teriam iniciado um longo e traumático ciclo de violência, tendente a se repetir pelo século seguinte. Nada talvez ecoe com tanta precisão as previsões de Euclides da Cunha, que já na nota preliminar de Os Sertões afirma ter Canudos a “significação inegável de um primeiro assalto, em luta talvez longa”.


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