sábado, 8 de dezembro de 2012

1554 - Precursor da Cruz Vermelha recebe título de doutor em cirurgia


Em 8 de dezembro de 1554, sob às ordens do rei Henri II, a Faculdade de Medicina de Paris se resigna em cobrir a cabeça de Ambroise Paré com o título de doutor em cirurgia.

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Aos 44 anos, esse autodidata não conhecia nem o latim nem o grego. Contentava-se  em praticar o ofício de cirurgião-barbeiro numa pequena loja em Paris. Contudo, possuía uma grande experiência em cirurgia, adquirida durante as guerras da Itália e em diversos campos de batalha.

Até o fim da Idade Média, aos médicos, em geral clérigos da Igreja e pessoas cultas, repugnava ver correr o sangue. Deixavam as operações cirúrgicas e as sangrias aos barbeiros, hábeis no manejo da lâmina.

Foi preciso esperar as guerras da Itália para que os combatentes, em particular os grandes senhores, pudessem enfim apreciar o ‘savoir-faire’ dos cirurgiões-berbeiros, tirando-os do menosprezo geral a que estavam confinados.

Ambroise Paré nasceu em 1510 em Bourg-Hersent, perto de Laval, da união de um modesto fabricante de baús e de uma prostituta. Depois de se formar em dissecações no Hôtel-Dieu de Paris, inicia em 1537 uma carreira de cirurgião militar. Serve ao duque de Montejean, depois ao conde de Rohan. Em 1542, por ocasião do cerco de Perpignan, retira habilmente uma bala das costas do  marechal de Brissac, colocando-o em seguida na posição que estava no momento do impacto.

Quando do cerco de Bolonha, em 1545, prodigaliza seus cuidados ao duque François de Guise, vítima de um ferimento na órbita ocular considerado mortal. O duque seria desde então apelidado de “O Baleado” e a reputação do cirurgião definitivamente consolidada.

Ambroise Paré está na origem de importantes avanços da medicina. Em vez de cauterizar as chagas queimando-as, correndo o risco de matar o ferido, imaginou ligar e costurar as bordas com uma mistura à base de gema de ovo e óleo. Quando uma amputação se tornava necessária, ele sabia como executá-la adequadamente.
Dentre seus numerosos tratados, escritos em francês, como o “Método de tratar as feridas feitas por arcabuzes ou outros artefatos de tiro”, Paré se afastava da estrita obediência aos Antigos e recomendava o aprendizado da cirurgia pela prática.

“Se bem que o saber seja uma grande coisa, eu gosto de agir pela experiência”, palavras suas citadas por Lucien Febvre em 1942.

Digno precursor do fundador da Cruz Vermelha, Henri Dunant, não se recusava a cuidar dos feridos de todos os lados combatentes, franceses e alemães, católicos e protestantes.

O cirurgião, de quem se imaginava ter adotado a confissão protestante, transmitia apenas uma piedosa humildade. Diz-se ser dele o mote “eu trato dos feridos, Deus os cura”. Este lema lembra aquele de alguns reis quando tocavam os escrofulosos, segundo um rito consagrado: “O rei te toca, Deus te cura”.

Ambroise Paré ingressa a serviço da corte do rei Henri II como cirurgião ordinário, entretanto não consegue curar o soberano de um ferimento recebido no olho durante um torneio da Idade Média em que os contendores lutavam com lanças montados em cavalos. Nem sequer pode salvar seu filho François II, vítima de insidiosa moléstia, aos 16 anos. Foi poupado no massacre de São Bartolomeu e deu prosseguimento ao seu ofício a serviço do rei Charles IX e depois como conselheiro do rei Henri III.

O pai da cirurgia moderna falece em 20 de dezembro de 1590, em Paris, após uma longa vida a serviço da humanidade, como digno representante da Renascença.
Fonte: Opera Mundi

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