sábado, 15 de dezembro de 2012

Dança em espírito


Na capa da Revista de História deste mês, uma mulher aparece de braços abertos durante um culto evangélico, na década de 1930. Pesquisador comenta a cena e relaciona a imagem com a religiosidade brasileira

Robson Rodrigues de Paula
imagem da capa da edição de dezembro da Revista de História é bastante expressiva. Pode-se ver uma jovem, emocionada, com os olhos fechados e as mãos levantadas, numa atitude ritual de adoração a Deus, a chamada “dança em espírito”.  A foto, que está na capa da Revista de História deste mês, foi tirada na Convenção Geral da Church of God of Proohecy, nos EUA, em 1930, e o ritual ainda vigora em algumas igrejas evangélicas nos Estados Unidos. É uma cerimônia religiosa que conta com a participação espontânea dos fieis no culto: seja louvando ao Senhor, seja falando em glossolalia - a línguas dos anjos –, ou se colocando como um instrumento do sagrado para a promoção da cura de doenças e expulsão de demônios.
Apesar de ter acontecido no hemisfério norte, a cena poderia ser captada em algumas igrejas evangélicas brasileiras. Afinal, nas últimas décadas, nosso cenário religioso mudou drasticamente: de acordo com o Censo do IBGE 2010, hoje, 22% da população se declara evangélica. Uma transformação sem precedentes em nossa história e que, seguramente, afetou as mais variadas esferas sociais. Se no século XIX, período em que foram criadas as primeiras igrejas por iniciativa de imigrantes europeus, a vertente evangélica era minoritária, quase sectária e sem expressão política, atualmente fica imediatamente atrás do catolicismo que, mesmo estando em declínio, continua sendo a expressão religiosa maioritária. 
É preciso dizer que a formação de nossa identidade nacional foi, em grande medida, influenciada pelo catolicismo. E mesmo aderindo crenças e executando práticas religiosas compartilhadas pelos adeptos de outras religiosidades, como candomblé e umbanda, - a dupla pertença -, tradicionalmente a maior parte dos brasileiros se dizia católica.
De modo geral, seguindo um proselitismo centrado na ideia de “resgate do mundo”, várias denominações evangélicas edificam templos suntuosos para receber multidões; utilizam sistematicamente os meios de comunicação de massa para disseminação de suas crenças; lançam ou indicam os seus próprios candidatos políticos; projetam nacionalmente os seus cantores por meio de suas gravadoras; e se impõem no espaço público, por meio de grandes shows musicais e passeatas, as quais reúnem milhões de fieis. Se projetam na sociedade brasileira ocupando um espaço que pode não ser mais alcançado pelo catolicismo. Aspectos que são discutidos no dossiê da RHBN deste mês.

Robson Rodrigues de Paula é doutor em Ciências Sociais (PPCIS/UERJ), professor do Centro Universitário Augusto Motta e do Centro Universitário UNIABEU e autor da tese "Audiência do Espírito Santo": música evangélica, indústria fonográfica e formação de celebridades no Brasil (UERJ, 2008).

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