quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Diário de Atenas: nove dias no epicentro da crise europeia


Clique no banner para acessar o especial completo


Opera Mundi passou nove dias em Atenas, capital grega, para verificar os efeitos da crise sem precedentes que assola o país. De acordo com números oficiais, um quarto da população do país está desempregada. Entre os jovens, o número supera os 50%. Nas ruas, são claros os indícios de que uma convulsão social está prestes a acontecer.

Sábado, 3 de Novembro
Chegada, pessimismo e neonazismo

O voo de Londres a Atenas pela Aegean Airlines, companhia grega, vai com menos de um terço da ocupação, apesar das promoções e do tempo bom na Grécia. Atenas seria um destino comum para aposentados europeus nessa época do ano, em busca de praia e calor. Ao que tudo indica, o noticiário da crise espantou os turistas.

Depois de três horas desembarco no elegante Aeroporto Eleftherios Venizelos, construído para a Olimpíada de 2004. Ele, resplandecente, está às moscas. Vou comprar o bilhete para o metrô e apenas um caixa está funcionando - atrás de um aviso de greve.
Roberto Almeida/Opera Mundi

O transporte em Atenas vai parar dias 6 e 7 de novembro, quando o Parlamento vota mais um pacote de austeridade proposto pela Troika (Comissão Europeia, Banco Central Europeu, Fundo Monetário Internacional). Ao lado da parada do trem vejo um anúncio (irônico?) do uísque Johnnie Walker: “Keep Walking Greece.”

São oito euros (cerca de R$ 20) pelo bilhete até o centro. Desço na estação Syntagma, no centro, e troco para Metaxourgio, no noroeste da cidade. As estações são bastante amplas e lembram muito as de São Paulo. A cidade, não demoro a perceber, também lembra São Paulo no jeito despachado das pessoas em meio ao caos.

Já é noite, deixo minha mochila no quarto que aluguei, na casa de uma romena e um grego. Ele trabalha na Força Aérea da Grécia. Sorridente mas desgostoso, resumiu a crise assim, com um ditado grego: Κάθε πέρσυ και καλύτερα. (Algo como: “Cada ano que passou foi melhor que o seguinte”. Para simplificar, seria a versão grega para “Nada está tão ruim que não possa piorar”.)

Saio para caminhar pelas ruas escuras. Pichos, muitos pichos nas paredes e trânsito pesado. Atenas grita nos olhos. Em redutos de relativo silêncio com cheiro de kebab, aposentados assistem ao futebol na TV, jogo do Olimpiacos.

A Acrópole que brilha no alto, imponente, indica o caminho para Plaka, centro turístico abarrotado de vida pulsante. Ao pé do Partenon, imigrantes africanos vendem bolsas, cigarros e helicópteros fluorescentes. Os gregos dizem não enquanto desfilam em família, driblando o cachorro de rua, branco e gordo, que espera um resto de comida. Mais embaixo, o trem suburbano rasga a paisagem todo colorido, grafitado.

Em 10 minutos de passos lentos chego à Praça Syntagma, estranhamente calma para quem já assistiu aos confrontos entre manifestantes e polícia. E em outros cinco estou na Estação Panepistimiou (Universidade) do metrô, que desemboca na Academia de Atenas, bastante pichada com dizeres antifascistas.

Em uma barraquinha fumegante de comida árabe, Nermeen, uma garota síria que escapou da guerra civil, e que agora teme os neonazistas gregos do partido Aurora Dourada, doava falafels para dizer que os imigrantes são, sim, pessoas de bom coração. Seu amigo, Ahmed, com filho no carrinho de bebê, é só sorrisos. Eles me oferecem, empolgados, mostrar Atenas pelo ponto de vista de um imigrante.

Na volta para casa vejo, pela primeira vez, um grande picho do meandros, o símbolo do partido neonazista Aurora Dourada.

Domingo, 4 de novembro
Discriminação e barbárie

Nermeen já me esperava, animada, na porta da Estação Kato Patissia, no norte de Atenas. A área é de imigrantes e de forte presença do Aurora Dourada. Ahmed deixara a porta do carro aberta para entrarmos. Sol forte no pára-brisas, ele nos levou em 40 minutos a Piraeus, sul de Atenas, na beira do mar. Um pouco de calmaria para rebater a cidade caótica.
Roberto Almeida/Opera Mundi

Entre frapês, os cafés gregos batidos e gelados, Nermeen e Ahmed desabafam. Ela não entende por que a olham atravessado na rua, não entende por que o preconceito com muçulmanos. Ele lamenta que os negócios estejam tão ruins, que existam neonazistas (“são uns bárbaros!”) e que a vida não vá melhorar.

O objetivo é um só: escapar da Grécia a qualquer custo. Ambos se movimentam para fazer isso acontecer o quanto antes.

Decidimos passar pela feira livre de Piraeus, sob um calor de 30 graus, coberta por um tapete de produtos de segunda mão. Os gregos estão vendendo seus bens pessoais a preço de banana para ter alguma renda. Ahmed checa os bolsos por sua carteira de dinheiro e brinca que eu deveria fazer o mesmo. A rua está lotada e, depois de meia hora, insuportável no empurra-empurra sem fim.

Depois de outros 30 minutos de carro, Ahmed nos deixa na Estação Monastiraki, no centro de Atenas. Nermeen, antes muito falante, agora está mais calada. Recebeu uma mensagem do noivo avisando que um amigo sírio havia sido espancado por não ter documentos - sintoma dos tempos de intolerância na Grécia. Desanimada, ela prefere se despedir.

Leia mais sobre Nermeen e Ahmed aqui.

Segunda-feira, 5 de novembro
Estudantes e a greve

Na véspera da greve geral visito a Politécnica de Atenas, epicentro da revolta estudantil no país na década de 1970 e agora. O prédio simboliza a resistência à ditadura militar do coronel Georgios Papadopoulos, que durou sete anos (1967-1974), e hoje abriga movimentos da esquerda antiausteridade. A área é considerada “livre de polícia”, uma bolha anárquica no meio da cidade caótica, mas ainda assim bastante vigiada.

Na entrada, pela Avenida Patission, o queixo cai. Basta olhar para as paredes. A Politécnica também grita. Não há um canto dos prédios que não esteja pichado, com mensagens exaltando a anarquia, o antifascismo e, as mais recentes, detonando a Troika. O descuido fica por conta do mato crescido, do portão quebrado.

Três vendedores de plano de celular, com camisas laranjas, tentam parar os poucos estudantes que passam de lá para cá. Um deles, feliz da vida de encontrar um brasileiro, mostra orgulhoso no celular a foto que tirou com o meio-campista Giovanni, ex-Santos e ex-Olimpiacos, seu time do coração. “É meu ídolo”, diz.

Os prédios da Politécnica abrigam hoje apenas o celebrado curso de arquitetura. Quatro pessoas fazem um cartaz da PAME (Frente Militante de Todos os Trabalhadores), sindicato ligado ao Partido Comunista Grego (KKE). A desconfiança não deixa nem que eu me apresente. Só dizem que a greve começa amanhã e dão de ombros.

Sem que eu veja, Giorgos, um estudante de arquitetura, é parado pelos vendedores de celular, que me chamam. “Esse aqui fala com você”, dizem, sorridentes.
Roberto Almeida/Opera Mundi

Em uma hora, Giorgos declama seu carinho pela Grécia, conta o que acha, o que pensa, a história de seus pais e seu plano para o futuro. “Ir embora do país”. Mais um que não quer ficar. O mercado está péssimo, para arquitetos, então, nem se fala.


Para continuar lendo clique aqui.
Fonte: Opera Mundi

Nenhum comentário: