segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

Quando o Estado pede perdão


Em janeiro será realizada a 67ª Caravana da Anistia. Iniciativa do Ministério da Justiça vira tema de filme

Cristina Romanelli
Caravana da Anistia na Bahia
Caravana da Anistia na Bahia
“Tenho toda a honra de cumprir com o meu dever de servidor público, de, em nome do Estado e do povo, me dirigir a você, olhando nos teus olhos, e pedir desculpa pelos erros que o Estado cometeu contra você”. Assim Paulo Abrão, presidente da Comissão de Anistia do Ministério da Justiça, se dirigiu à professoraDenise Maria de Moraes Santana Fon, obrigada a deixar o emprego na Paraíba e permanecer dois anos no exílio durante a ditadura. Como Denise, outras centenas de pessoas foram anistiadas e receberam essas desculpas em público, nas Caravanas da Anistia, evento realizado desde 2008em diversas regiões do país. Em janeiro acontece a 67ª edição, em Brasília, com um tema especial: filhos de perseguidos políticos exilados.
Apesar de não aparecer com frequência na mídia, o assunto já virou tema de filme. “Eu me lembro”, documentário dirigido por Luiz Fernando Lôbo, foi financiado pela própria Comissão de Anistia e lançado no Festival do Rio, em outubro. Segundo o produtor Daniel Souza,  o filme foi finalizado recentemente e deve ser exibido nas próximas caravanas, e talvez natelevisão. O próprio Daniel recebeu há pouco tempo as desculpas oficiais – é filho de Herbert de Souza, o Betinho (1935-1997), perseguido e exilado na ditadura. 
O registro das caravanas é recheado de relatos emocionantes. Nos poucos minutos concedidos para seus discursos, os homenageados expõem as mais diversas histórias de angústia, sofrimento e superação. O jornalista Pery de Araújo Cotta, por exemplo, lamentou por sua esposa não estar presente à homenagem. “Pra mim, esse reparo chega tarde demais. Há um ano estou viúvo. Quem sofreu foi ela”, disse durante a primeira caravana, em 2008.
Para Maria Paula Araújo, historiadora da UFRJ, breves discursos diante de representantes do Estado cumprem a principal função das caravanas: dar voz aos anistiados. “Esse ritual, que dá voz às pessoas e reconhece publicamente que o Estado errou, é catártico no bom sentido”, afirma. Maria Paula acredita que o único problema a ser resolvido no momento são as indenizações financeiras, calculadas de acordo com o emprego que as pessoas tinham na época. “Se o cara perdeu o emprego de médico porque foi preso ou exilado, vai receber um dinheirão. Se era camponês, vai ganhar uma merreca. As indenizações às vezes acentuam as diferenças sociais”, critica.
Duas das primeiras indenizações, concedidas aos cartunistas Jaguar e Ziraldo, foram superiores a R$ 1 milhão. Mas, segundo Paulo Abrão, agora os cálculos são reduzidos para valores mais razoáveis. “Não podemos fazer nenhuma mudança radical, pois estamos resolvendo isto dentro dos limites que a lei nos permite. Mas é importante lembrar que, apesar de a Comissão ter sido criada em 2001 com uma dimensão mais econômica, nós agregamos posteriormente as caravanas, audiências públicas, projetos de reparação psicológica e de preservação da memória”, defende.
Entre eles, Abrão destaca o Memorial da Anistia, em Belo Horizonte, onde será arquivado o acervo documental da Comissão, que já tem mais de 70.000 processos e arquivos das vítimas. A inauguração está prevista para 2014

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