quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Além das estantes


Apaixonadas por livros, funcionárias da BN preparam o segundo volume da série Bestiário, de literatura fantástica

Gabriela Nogueira Cunha


Elas vivem entre estantes abarrotadas de livros e mesas de leitura da Biblioteca Nacional. Mas para Ana Lúcia Merege e Ana Cristina Rodrigues não bastava transitar entre nomes consagrados da Literatura: decidiram colocar suas próprias alcunhas nas prateleiras. Lançado em abril de 2012, durante a 1ªOdisseia de Literatura Fantástica, em Porto Alegre, o livro de contos Bestiário (Editora Ornitorrinco) cumpriu este papel. Agora elas se preparam para o lançamento do segundo volume, previsto para abril deste ano.
Bestiários eram livros elaborados na Idade Média para descrever as criaturas que dividiam espaço na Terra com os homens. Idealizado pelas funcionárias da BN – que convidaram mais quatro autores para a empreitada –, esse bestiário da atualidade traz animais mágicos, fantásticos e monstros assustadores: é o resultado do que começou como brincadeira. “Eu estava conversando com a escritora Alicia Azevedo – naquela época, ela trabalhava em histórias de dragões – e comentei que tinha escrito um longo conto sobre um unicórnio. Então, brinquei a respeito de lançar um livro juntando meu unicórnio com os dragões dela”, conta Ana Lúcia.
Encasquetada com a ideia de publicar um livro de contos sobre seres que parecem ter saído das histórias de Harry Potter e O Senhor dos Anéis, mas têm suas origens fincadas no imaginário medieval, a bibliotecária encontrou na colega de trabalho, a historiadora Ana Cristina Rodrigues, o incentivo necessário para embarcar nessa aventura. “A Ana achou a ideia legal e disse que poderia escrever sobre grifos. Além disso, ela sugeriu o título. Durante a conversa, pensamos em mais três criaturas: fênix, mantícora e basilisco. E mais três autores: Daniel Rossi, Leandro Reis e Rober Pinheiro”.
Ana Lúcia ingressou na Divisão de Manuscritos em 1996. Ela é responsável pela divulgação do acervo da BN: escreve textos, descreve documentos nos mínimos detalhes, monta exposições e, de vez em quando, ainda recebe estudantes para uma visita guiada. Em entrevista à Revista de História, ela conta que já lecionou alguns cursos na Casa da Leitura. “Uma vez, escrevendo sobre manuscritos medievais, participei da Jornada de História do Livro. Não sou especialista nem nada, mas falei para o grande público e adorei. Este é mais ou menos o trabalho que fizemos com o Bestiário paralelamente à escrita. Na Casa da Leitura, ministrei alguns cursos que abordavam os contos de fadas e literatura fantástica. Gosto de criar o encantamento inicial, pois é a partir dele que as pessoas buscam saber mais.”
Já Ana Cristina, envolvida diretamente com o Programa Nacional de Incentivo à Leitura (Proler) desde 2010, lamenta não poder concorrer nos concursos da Biblioteca Nacional: “Por estarmos ligadas à BN, muitas vezes ficamos impossibilitadas de participar de uma série de prêmios e editais.” Ana acredita que, assim como ela e sua xará, podem existir outros escritores escondidos entre as estantes da biblioteca.

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