quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Sobre perder tempo


A explosão da comunicação digital afetou a percepção de tempo da chamada ‘geração Z’. Álbum do Arcade Fire reproduz as angústias narrativas dos jovens pré-1990, incompreendidas pelos nascidos após o divisor de águas

Rodrigo Elias


Moi, j’attends; toi, tu pars.
Arcade Fire, “Empty Room”.

Experimente desenhar no papel um número 2. Não como ele aparece neste texto digitado, mas daquele jeito que você provavelmente aprendeu a manuscrever durante a sua alfabetização. Se você conseguiu fazer isso sem se esforçar muito e sem gastar tempo pensando no formato do número, talvez o trabalho da banda Arcade Fire em torno do álbum The Suburbs te cause algum incômodo.
Pessoas que vivem em uma mesma sociedade e em uma mesma época partilham, entre outras coisas, um sistema narrativo. Mais do que isto, estão inseridas em um regime narrativo. Não se trata exatamente de uma “mentalidade”, tal como propôs Jacques Le Goff no início da década de 1970. Sua premissa, largamente apoiada em Lucien Febvre, depois duramente criticada, era a de que pessoas que viviam em uma mesma época tendiam a compartilhar uma visão do mundo, o que desconsiderava as diferenças culturais engendradas, por exemplo, pelas diferenças sociais – lembre-se da famosa afirmação de que César e o último soldado das suas legiões compartilhavam algo.
Se, por um lado, as visões de mundo ou culturas podem variar profundamente de um grupo para o outro dentro de uma mesma sociedade (o que inclui valores, experiências e expectativas de futuro) e, de outro, seja difícil aceitar a operacionalidade da ideia de um “espírito do tempo” exterior às pessoas e às condições concretas de existência, é difícil negar completamente que os indivíduos que existem e se relacionam em um determinado tempo têm entre si algo que as conecta no plano da linguagem. Trata-se, mais do que da língua em si (os signos e os seus campos semânticos), do complexo sistema através do qual ela organiza a experiência do tempo, ou seja, a narrativa.
O filósofo Paul Ricoeur, um dos grandes pensadores que se dedicaram aos problemas da linguagem no século XX, chamou atenção para a identidade narrativa a unir homens de um dado contexto. Lançando mão da noção de imaginário, refletiu sobre as ferramentas que faziam a ligação entre o “tempo vivido” e o “tempo do mundo”. Esta sensibilidade dentro da qual um determinado grupo em uma determinada época se forma é fundamental para a conexão entre a experiência individual e o pertencimento ao mundo.  A percepção da passagem do tempo e a representação do indivíduo ou do seu grupo no mundo só podem ocorrer através da narrativa – e esta é, obviamente, criação humana, estando sujeita, portanto, a variações no tempo e no espaço.
Nos grupos humanos, quem fala algo depende, para a sua aceitação ou compreensão, do que Ricoeur chamou de “pacto de leitura”, um acordo tácito (não dito) entre o narrador e o leitor (ou receptor), o que implica a aceitação, por parte da comunidade, de certos elementos como marcos do discurso no tempo – daí o reconhecimento de que todo discurso histórico (um relato “objetivo” que encadeia fatos em sequência cronológica) tem em si um elemento ficcional. Assim, a sucessão de gerações ao longo do tempo, cada qual com a sua identidade narrativa, seria o que o autor chama de “cadeias de memória”, isto é, de reelaboração narrativa da sua experiência no tempo.
Outro pensador francês, o sociólogo Pierre Bourdieu, chegou a tratar do que qualificou de “contrato de leitura”. Esta ideia reforça a noção de que uma determinada geração partilha necessariamente elementos no plano da linguagem que tornam os seus indivíduos compreensíveis entre si, estabelecendo, através desta identidade narrativa, uma relação peculiar com o tempo. Para Bourdieu, ao se relacionar através do discurso, os participantes de uma cultura lançam mão de “todos os pressupostos do senso comum”.


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