sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Sonho e trauma


Concebido para ser um documentário, ‘O triunfo da vontade’ passou a ser visto como propaganda nazista no pós-guerra. A diretora do filme tentou até o fim da vida se dissociar da imagem negativa cultivada em torno dele

Bruno Garcia
3/1/2013
O Triunfo da vontade
Dir.Leni Riefenstahl Alemanha, 1934.

Hitler e Riefenstahl
Hitler e Riefenstahl
Ninguém conquistou tanta glória e infâmia, simultaneamente, como Leni Riefenstahl com O Triunfo da vontade (1934). O filme, que registra o 4º Congresso do Partido Nacional Socialista em Nüremberg, lançou imediatamente o nome da diretora no hall dos grandes cineastas pela qualidade estética e enorme domínio técnico, mas também o associou para sempre ao nazismo.
A filiação ou simpatia com o regime nazista sempre custou muito caro para qualquer figura pública na Alemanha do pós-guerra. O filósofo Martin Heidegger e, mais recentemente, o escritor Günter Grass são apenas alguns dos que não saíram ilesos desse (digamos) “equívoco”. Porém, o reconhecimento inconteste do seu talento não livrou Riefenstahl de um ostracismo monumental após o fim da Segunda Guerra Mundial. Depois de 1945, incapaz de encontrar qualquer trabalho no cinema, dedicou o resto de sua vida à fotografia.
No entanto, a perturbadora admiração que seu talento causara no filme de 1934 nunca seria esquecida. Não há curso de cinema no mundo que ignore Riefenstahl, nem críticos que discutam o rigor estético e o domínio técnico apresentados no filme. Quem hoje quiser uma cópia, não terá grande dificuldade em encontrar. Até nas Lojas Americanas a obra está disponível, fato raro para uma produção da década de 30.  Resultado, certamente, do talento da diretora e, claro, do fascínio mercadológico que o nazismo tem.

Além da banalidade do mal
Acusada seguidas vezes de glorificar o regime nazista, Leni sempre contestou o título de propagandista. Aos 96 anos, em uma entrevista para televisão britânica, fez questão de afirmar: “Antes de 1945, nenhum jornal em todo mundo escreveu que O triunfo da vontade era um filme de propaganda. Depois da guerra, todos disseram.” 
Cena de 'O triunfo da vontade'
Cena de 'O triunfo da vontade'
É evidente que, a primeira vista, o argumento soa oportuno. Mas, para além da autarquia moralista, há um dado histórico que é digno de atenção, algo que serve de ponto de apoio para abertura a um entendimento sobre o nazismo anterior à monumentalizacão absoluta do mal. Um momento no qual o nacional socialismo alemão não foi visto algo tão diferente do resto do mundo.
Em outras palavras, o que Riefenstahl está lembrando é que, ao contrário do que nossa memória coletiva sugere hoje, houve um tempo em que a Alemanha Nazista não só era parte aceitável do jogo internacional, como uma boa parte de sua ideologia era razoavelmente partilhada por uma quantidade considerável de estados no mundo. Um momento em que não só as grandes potências europeias consideravam Hitler interlocutor coerente como boa parte de suas ideias eram frequentemente encontradas em regimes autoritários análogos.
É claro que lembrar isso nunca foi muito agradável. Destacar a singularidade do nazismo sempre foi infinitamente menos perturbador do que reconsiderar seus paralelos. O que dizer, por exemplo, de países que somente conseguiram a independência no período pela afinidade com Hitler, como Croácia e Eslováquia?
Para Riefenstahl, essa lembrança provavelmente estava atrelada a uma tentativa de redimir sua figura pública atestando a normalidade de sua proximidade com o regime. Para os historiadores, no entanto, trata-se de recolocar os ‘pingos nos is’ e procurar dar conta de um contexto nos seus próprios termos.
           
Registro Hipnotizante
Quando Hitler convidou a jovem Leni Riefenstahl para documentar o congresso do partido nazista, a jovem recusou, alegando desconhecer o funcionamento de um partido ou mesmo as técnicas para se fazer um documentário. O recém-empossado chanceler alemão respondeu que era exatamente isso que ele queria: um filme que demonstrasse o Congresso por um olhar não especialista. Selecionado apenas por critérios estéticos, a intenção era justamente impressionar um público que não fosse necessariamente interessado em política.
Em 1933, quando Hitler chegou ao poder, Leni não era exatamente uma desconhecida. Durante os anos 20, a jovem bailarina já havia migrado para o cinema, estrelando alguns filmes do diretor Arnold Fanck, que mais tarde descobria seus talentos de Leni por trás das câmeras. Em 1932, além de atuar e produzir, dirigiu Das Blaue Licht (A luz azul). Premiado em Veneza, a (agora) diretora recebeu convites para trabalhar em Hollywood, mas, por um namorado, decidiu permanecer na Alemanha. Foi quando chamou atenção de Hitler, que viu nela a perfeita mulher alemã.
O 6º Congresso do Partido Nacional Socialista, em 1934, foi detalhadamente planejado para ser o mais espetaculoso. Os nazistas, consagrados na eleição do ano anterior, aproveitaram o momento para enfatizar o papel messiânico do seu Führer e afirmar de forma contundente e teatral a simbologia de sucesso, organização e superioridade do povo alemão. Sediado em Nüremberg, onde o partido conseguira enorme apoio, o evento foi de fato grandioso. Mas nunca seria tão lembrado não fosse o precioso registro de Leni Riefenstahl.
O uso de câmeras móveis, lentes de foco longo, fotografias aéreas, perspectivas abertas e o fabuloso uso da música resultaram num trabalho notável.  Em 1993, o crítico Richard Corliss, escrevendo na revista Time afirmou que “há muitas razões [para o sucesso do filme], uma é que Triunfo da Vontade é simplesmente um filme muito bom, muito potente, hipnotizante. Outra é o estilo visual heroico e sensual.”
Mais tarde, em 1936, Leni também faria um filme sobre as Olimpíadas em 1936 em Berlim (Olympia) e permaneceria próxima do alto escalão do partido nazista. Porém, se por um lado ela nunca questionou o fascínio que a imagem de Hitler lhe causou, nem a estranha amizade que mantinha com ele, por outro sempre fez questão de enfatizar seu trabalho como artista. Em suas memórias, afirma que desconhecia campos de concentração e o que acontecia com os judeus. Para ela, seu trabalho estava vinculado à produção de documentários que procuravam registrar o que estava acontecendo.
Pelo resto da vida, Leni Riefenstahl procurou desvincular qualquer ideia de que Triunfo fora um filme de propaganda. Segundo a diretora, o que ela fez foi um documentário e, como tal, procurou registrar a realidade como era na Alemanha em 1934. A favor dela, o fato de que a despeito do registro magistral e das técnicas discursivas dos membros do partido, o imenso público que aplaudia entusiasticamente o Congresso não era composto de atores.
A forma como Hitler e sua turma foram recebidos era absolutamente real. Sem produção nem maquiagem. Na época, de fato, ninguém tratou o trabalho como mero veículo institucional de propaganda. Não à toa, o filme terminou premiado em lugares como França, Suécia e mesmo Estados Unidos, deixando claro que a produção fora tratada, no seu tempo, como documentário.
Em 2003, quando a diretora morreu, aos 101 anos, publicações do mundo inteiro escreveram pequenas biografias, reafirmando seu incrível talento. A revista The Economist afirmou que O triunfo da vontade “selou a reputação de uma das maiores diretoras de cinema da história”. Nada mal para alguém que produziu menos de 10 filmes e que passou grande parte da vida condenada à associação com o nazismo.
Após a guerra, Leni foi presa sob alegação de ser simpatizante nazista. Porém as denúncias foram rapidamente esclarecidas e ela foi solta. Contudo, mais importante do que a discussão sobre o conhecimento ou intenção de Riefenstahl, é perceber que sua trajetória é sintomática das mudanças de entendimento e postura com relação ao nazismo antes e depois da guerra. O talento, proporcional à controvérsia de O triunfo da vontade, faz da diretora uma espécie de paradigma da dificuldade em tratar, discutir ou mesmo lembrar do trauma provocado pelo nazismo.

Nenhum comentário: