sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

Documentos comprovam envolvimento de Mandela com o partido comunista sul-africano

Historiador britânico Stephen Ellis afirma que o Nobel da Paz queria atrair ajuda dos países comunistas para a campanha contra o governo do apartheid

Durante décadas, o mais importante ativista político da África do Sul, Nelson Mandela, negou seu envolvimento com o Partido Comunista Sul-Africano (SACP, na sigla em inglês) alegando que tudo não passava de uma manobra governamental para desacreditá-lo em um mundo guiado pelas tensões da Guerra Fria. Quase cinquenta anos depois de se tornar o prisioneiro político mais famoso da era do apartheid, novos documentos comprovam laços de Mandela com o alto escalão da SACP.

Wikicommons
As informações foram descobertas pelo historiador britânico Stephen Ellis, que encontrou evidências em uma coleção de documentos privados na Universidade da Cidade do Cabo (UCT, a sigla em inglês). Segundo ele, a ata de um encontro secreto do SACP de 1982 fala em Mandela como um ex-membro da “família” (termo usado para se referir ao partido).

[Mandela durante visita ao Brasil, em 1998]

Ao longo dos duros anos do apartheid, diversos membros do Partido Comunista Sul-Africano confirmaram a afiliação de Mandela. Contudo, muitos desses testemunhos não foram levados em consideração já que a maioria foi feito em interrogatórios policiais. Ellis acredita, porém, que as atas descobertas por ele oferecem provas confiáveis do fato, já que o encontro era fechado e somente para membros comunistas. “Não existia uma preocupação em incriminar ninguém e muito menos em impressionar o público”, disse.

Para o pesquisador, Mandela teria se aliado ao SACP com o objetivo de atrair ajuda das superpotências comunistas da época.  Além disso, documentos também encontrados na Universidade da Cidade do Cabo provam que quatro membros do alto escalão do partido realizaram visitas secretas a Moscou e Pequim, onde tiveram reuniões com o próprio Mao Tsé-Tung e foram assegurados de suporte para a luta armada contra o apartheid.

Depois disso, o partido comunista teria se unido com membros-líderes do partido Congresso Nacional Africano (ANC, no poder desde 1994) para montar uma organização militar independente com o nome de Umkhonto we Sizwe ou Lança da Nação, tendo Mandela como comandante. Os ataques do grupo começaram no final de 1961, com atos com bomba e sabotagens que os levaram a ser classificados como um grupo terrorista pelos Estados Unidos.
Mandela negou sua afiliação ao Partido Comunista no depoimento inicial no processo de sua prisão. Ele e outros nove membros do ANC foram julgados por atos de desordem pública e acusados de promoverem ideais do comunismo, então ilegal na África do Sul.

Ellis afirma que a possível afiliação de Mandela ao SACP foi muito mais por motivos de conexões políticas do que por ideais. Apesar disso, o britânico acredita que, se descoberto na época, o fato poderia trazer danos para a imagem do ativista perante os olhos do Ocidente.

Segundo ele, a campanha internacional “Liberte Nelson Mandela” ocorreu principalmente pelo fato de ele não ter ligações políticas ou ideológicas com o Ocidente, nem com o Oriente.

“A revelação de que Mandela foi um membro do Partido Comunista não diminui de forma alguma sua figura pública. Mas contribui para uma avaliação mais verdadeira da história sul-africana e mostra que a versão propagada pelo ANC, que governa a África do Sul desde 1994, apresenta inúmeras falhas”, diz Ellis, que acredita que o partido se encontra no poder há quase vinte anos por se promover com a figura do ex-presidente e Nobel da Paz.

“As novas descobertas provam que, como qualquer político, ele estava preparado para fazer alianças oportunistas", diz.

Mandela e ANC negam

O porta-voz da Fundação Nelson Mandela, Sello Hatang, disse ao Opera Mundi que a organização não acredita haver provas suficientes de que Madiba (o nome clã de Mandela) era um membro do SACP.

"O recrutamento no Partido Comunista era um processo que acontecia periodicamente. É possível que Madiba tenha iniciado o processo, mas ele jamais completou”, afirma Hatang. Para a fundação, pelo fato de Mandela ser do alto escalão da ANC, ele pode ter participado dos congressos do Partido Comunista por motivos políticos. “É provável que, ao comparecer em tais encontros, possa se ter pensado que ele foi um membro", concluiu o porta-voz.

Em declaração oficial, o ANC também afirmou não reconhecer as afirmações como verdadeiras. Apesar de alguns nomes do Partido Comunista já terem citado publicamente o envolvimento de Mandela com o partido, o SACP preferiu se manter em silêncio sobre o caso.
Fonte: Opera Mundi

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