sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

Sob a sombra da morte


Indicado ao Oscar de melhor filme, ‘Amor’ é uma história bonita sobre o inevitável declínio do homem. O tempo esgarçado e o silêncio incômodo trazem ao espectador a realidade da velhice que a sociedade pós-industrial se esforça para esquecer

Alice Melo
22/2/2013
Amour
Dir. Michael Haneke. Áustria , 2012

Indicado ao Oscar de melhor filme e vencedor do prêmio máximo concedido pela Associação dos Críticos de Cinema dos Estados Unidos, “Amor” é uma bela obra sobre angústia, velhice e – como o nome já diz - amor. Os planos arrastados no tempo e os momentos de silêncio cortante traduzem bem a espera do fim compartilhada por aqueles que presenciam os últimos suspiros da trajetória da vida: os velhos.
O longa-metragem de Michael Haneke (premiado porA fita branca) não cria falsas expectativas àquele que se dispôs a assisti-lo. E é preciso estômago para suportá-lo. O filme segue no contrafluxo do isolamento da morte (e daquilo que a representa) característico da sociedade ocidental pós-industrial e traz à tona o sofrimento de um casal que precisa lidar com a fatalidade iminente. Um diante do outro.
Logo na primeira cena, o espectador se depara com Anne, uma professora de piano que sofreu dois derrames seguidos, ficando com um lado do corpo totalmente paralisado durante os últimos dias de vida. Ela jaz sobre a cama que dividiu com o marido por décadas. Cercado de flores, o corpo já em estado de putrefação é encontrado por bombeiros, que invadem o apartamento após o chamado de vizinhos. A interpretação brilhante de Emmanuelle Riva causa desconforto, pânico, mal-estar. O contraste entre a personagem que ainda dispõe de alguma autonomia não só de locomoção, mas de decisão do curso da vida; e a personagem estática sob os cuidados de outrem que vai se tornando ao longo do filme é desolador.
Antes do acidente vascular que a deixou inválida, Anne dividia a rotina lenta, íntima e previsível – com direito a horários para o chá e pausa para a soneca- com o marido Georges (Jean-Louis Trintignant), outro octogenário e apreciador da música erudita. Apesar do casamento de décadas, ela continua se surpreendendo com o companheiro sempre que ele lhe conta causos desconhecidos sobre um passado cada vez mais presente. Georges, de uma maneira encantadora, torna o familiar estranho e o estranho, familiar.
Quando Anne sofre o primeiro derrame, ele se encarrega de ajudar nas tarefas diárias: locomoção, alimentação, higiene. Em respeito à esposa, que tem pavor de médicos e hospitais, ele tenta ao máximo manter a vida de antes. E concede a ela o privilégio da naturalidade diante da doença aparente. Georges dispõe de um cuidado que nenhuma enfermeira é capaz de ter. Cuidado preenchido por amor e sofrimento, vontade de manter viva a luz nos olhos da companheira que, a cada dia, é coberta pela escuridão.
Uma sombra que acompanha o velho na sociedade contemporânea e que deve ser afastada a qualquer custo por aqueles cujo horizonte se desdobra em possíveis; e não em uma via de mão única cujo destino é a morte. No tempo do culto ao corpo, a juventude é desejo máximo de consumo e a velhice é cada vez mais maquiada. Adquiriu sentido pejorativo, precisa ser cifrada em termos como terceira ou – pior - melhor idade.
O tempo do velho não é mais o tempo da memória – como indicou Ecléa Bosi nos idos dos anos 1970 em Memória e sociedade: lembrança de velho. Porque otempo de acessar o passado e recontá-lo às novas gerações não é mais viável. Expropriado de sua função de lembrar (para além da função de trabalhar), o velho só é valorizado quando desempenha funções que não seriam atribuídas primeiramente a ele. É a vovó que pratica esportes radicais ou o vovô  'antenado' com a realidade virtual.
Porque o tempo lento da velhice não cabe no cotidiano acelerado do hoje. E para não permanecer à margem, o velho precisa se incluir no ritmo do presente. Encarar o declínio da vida é apavorante. Não apenas quando se é jovem e vê nas gerações passadas o futuro distante, mas, principalmente, quando o tempo da velhice já chegou e o universo conhecido se esvai com as pessoas que desaparecem sem se despedir. Assim como tudo o que é familiar, como o bairro ou a rua em que cresceu, engolidos pelo crescimento das cidades. A paisagem é estranha, as pessoas vão morrendo e a forma de interagir com o mundo se torna cada vez mais 'moderna'. O velho é obsoleto como a tecnologia.
Sobre a cama, com metade do corpo paralisado, Anne ouve o som do piano tocado pelo marido, na sala. Durante longos minutos, seus dedos trêmulos da mão direita esboçam movimentos ritmados em teclas invisíveis. A música para, a protagonista pergunta por quê. Georges fecha o piano e nunca mais volta a abri-lo. Não consegue lidar com a impotência da mulher amada de transmitir a experiência quando os meios de comunicação com o mundo falham. Não consegue lidar com o fato de que ela é incapaz de ensinar ou reproduzir aquilo que levou a vida inteira para aprender. Conhecimento capaz de construir identidade, num tempo em que o passado é a principal forma de atribuição de sentido ao presente.

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