sábado, 16 de fevereiro de 2013

Um olhar sobre o Brasil


Do Período Regencial à República, livro revela o passado do país por meio de fotografias. Em entrevista, Boris Kossoy fala sobre a obra, que é o sexto volume da coleção ‘Brasil-Nação’

Angélica Barros e Bruno Garcia
15/2/2013
Um olhar sobre o Brasil: a fotografia na construção da imagem da nação (1833-2003)/ Boris Kossoy/ 464 páginas./ R$ 159,00, Editora Objetiva
Um olhar sobre o Brasil: a fotografia na construção da imagem da nação (1833-2003)/ Boris Kossoy/ 464 páginas./ R$ 159,00, Editora Objetiva
Dos índios mais isolados ao homem moderno, Um olhar sobre o Brasil apresenta uma visão da história do Brasil através da fotografia. Coordenado pelo historiador e fotógrafo Boris Kossoy, a obra traz um recorte temporal amplo, que abrange desde o período Regencial no século XIX até o início da primeira década da República do século XXI, dando merecido destaque para a heterogeneidade formadora do povo brasileiro. Mostra-se desafiador nas abordagens e na proposta de reunir uma vasta documentação de 170 anos da História do Brasil. Resultado de uma copiosa pesquisa, o volume é ilustrado com 459 imagens, originárias de diversos arquivos públicos e privados, enriquecidas com referências e legendas pormenorizadas. O ponto de partida foi a experiência precursora da fotografia no país, realizada pelo artista e pesquisador francês Antoine Hercule Romuald Florence, na cidade de Campinas em 1833. Dentro do variado acervo, algumas imagens, pelo teor simbólico adquirido no encaminhamento da história, foram postas em destaque, como a fotografia de Luís Ferreira, que registrou a multidão em torno do Paço Imperial por ocasião da assinatura da Lei Áurea, em 1888. Ou ainda, o dia da inauguração de Brasília, em 1960, quando Thomas Farkas registrou o povo conhecendo o palácio do Congresso Nacional. Para além do factual, a obra traz também uma amostra da diversidade cultural e geográfica nas diferentes regiões do país, assim como das desigualdades sociais que acompanharam toda a nossa trajetória.  Referência para história da fotografia, o livro é um retrato ilustrado do Brasil, com excelente qualidade.
Leia a entrevista exclusiva com o organizador da obra, abaixo.

Revista de História da Biblioteca Nacional: Como Um olhar sobre o Brasil se encaixa no projeto da coleção Brasil-Nação?
Boris Kossoy: O livro Um olhar sobre o Brasil; a fotografia na construção da imagem da nação 1833-2003, sob minha coordenação, poderia ser “encaixado” na coleção de livros “Brasil-Nação” (cinco volumes), dirigida pela Professora Lilia Moritz Schwarz. Pode-se dizer que ele seria o sexto livro da coleção mencionada, porém algumas informações e considerações são necessárias para que melhor se avalie o citado “encaixe”. Entendo que os volumes de Brasil-Naçãoconstituem um conjunto pensado como uma “coleção”. Já o volume Um olhar... foi concebido a partir (ou como complemento) da proposta de uma exposição que me foi solicitada sob o enfoque de uma “história do Brasil através da fotografia”. A exposição seria acompanhada ou complementada por um volume com as características de um catálogo (como foi inicialmente chamado). Na realidade, a ideia de catálogo foi transformada em livro logo após os primeiros meses de pesquisas, isto ainda em 2009; é certo que o volume pode fazer o papel de catálogo, embora englobe e ultrapasse essa função diante de sua autonomia como obra iconográfica, inédita em sua proposição, todavia sem abdicar do signo escrito como meio de conhecimento. Tem-se assim, pois duas atividades culturais paralelas embora interligadas em torno de um objeto, promovidas e encomendadas, à mesma época, pela Fundação MAPFRE; atividades que mantém, portanto, um vínculo institucional entre ambas, porém pensadas segundo concepções diferentes. Um projeto, enfim, que vem sendo realizado nos últimos anos, em diferentes países ibero-americanos.
RHBN: Dentro dessa seleção, há algum trabalho, algum fotógrafo que merece ser destacado?
BK:Não há como destacar um fotógrafo ou uma imagem em particular, isto é fora de questão. É óbvio que algumas se destacam mais pelo apelo estético, outras pela importância do fato histórico que representam. Assim, pretender destacar uma ou outra é, no mínimo, temerário. Todas as obras apresentadas na exposição/livro tem sua importância específica como meios de conhecimento, instrumentos de revelação e reflexão sobre a vida passada e contemporânea, portanto como fontes históricas; além disso, preservam em si valores estéticos inerentes à expressão fotográfica: imagens que podem ser estudadas e utilizadas sob diferentes abordagens. Por fim, os conteúdos fotográficos não sobrevivem apenas no dado factual, sem embargo a sua importância como documento, mas, também, por suas metáforas e ambiguidades, pela edição de sua narrativa, pelos diálogos que se estabelecem entre si, seja no livro, seja na exposição. O leque temático apresentado é amplo e envolvente; as imagens iluminam certos aspectos da vida social que nos revelam práticas e mentalidades de uma época, revelações que nos oferecem caminhos para novas abordagens da história.
RHBN: Qual o lugar dos fotógrafos brasileiros numa historia geral da fotografia?
BK:Primeiramente, eu prefiro falar numa fotografia realizada no Brasil, independentemente da origem nacional ou estrangeira dos fotógrafos ou da época em que atuaram; colocando dessa forma diria que a fotografia brasileira deve ocupar lugar privilegiado no contexto de uma história geral da fotografia. Agora, pretender que essa afirmação se torne verdadeira, é óbvio que isto depende de quem escreve a história.
RHBN: Em entrevista anterior, o senhor mencionou que a fotografia brasileira no século XX tem sido pouco estudada. Quais os principais aspectos e períodos da fotografia no Brasil que precisam de mais estudos e publicações? 
BK:Num primeiro momento, vou me referir à primeira metade do século XX ou, no máximo até 1960. As pesquisas sobre este período, realizadas nas duas últimas décadas, estiveram centradas em fotógrafos que estiveram em atividade nos maiores centros urbanos, tal como ocorreu com os estudos da fotografia do século XIX, como se constata pela produção historiográfica brasileira. Nesse sentido, além da continuidade das investigações voltadas às capitais e maiores cidades é fundamental que pesquisas sejam promovidas e levadas a efeito, paralelamente, nas cidades do interior do país, junto aos pequenos arquivos públicos locais, acervos privados e publicações da região. É preciso que tal interesse seja despertado de forma a resultar em levantamentos sistemáticos. No que tange ao período 1960-2000 a massa documental cresce em progressão geométrica, na medida em que se amplia o horizonte profissional em função da multiplicidade temática, reflexo do crescimento acelerado, embora localizado, da economia;  a presença do fotógrafo passa a ser solicitada pelos diferentes setores da sociedade. É justamente neste intervalo que a fotografia também se vê gradativamente mais valorizada como meio de expressão artística. Trata-se de um período interessante, porém complexo de se abordar, quanto mais se considerarmos a necessidade de um maior afastamento no tempo para uma percepção em macro do fenômeno fotográfico mundial que ganharia corpo na passagem do século XX para o atual.
RHBN: Por que a produção historiográfica sobre fotografia ainda é fraca no Brasil?
BK:Um primeira razão reside no fato que sempre nos impressionamos com a produção bibliográfica nessa área no primeiro mundo; tal referência nos motiva a querer uma produção mais efetiva no Brasil. A existência de fontes fotográficas que sobreviveram a todos os tipos de destruição, tanto nos arquivos públicos como nos privados, deu ensejo à realização de pesquisas e a divulgação de grande número de profissionais do ofício e de suas produções. Deve-se mencionar a curva ascendente da produção historiográfica sobre a fotografia no país, uma produção que tem resultado de um interesse cada vez maior de estudantes de graduação e, principalmente, de pós-graduação que vem pesquisando os múltiplos usos e aplicações da imagem fotográfica. O interesse pela fotografia é um fato, como dissemos antes, o que não significa que reflexões consistentes, teóricas, críticas e históricas sobre o meio tivessem acompanhado este desenvolvimento. Alguns sinais apontam, entretanto, para uma mudança de rumos; de diferentes partes nos chegam notícias sobre iniciativas voltadas à essas questões --  e que  tem reunido uma audiência considerável. Ainda são poucas, porém é de se esperar que estejamos a caminho da consolidação de um pensamento fotográfico no Brasil.

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