sábado, 9 de março de 2013

Disputa pelas Malvinas é mais do que questão patriótica


No fim de semana os residentes irão decidir se o arquipélago continua nas mãos do Reino Unido. A Argentina desdenha o referendo, mas teme pelo resultado e sua influência sobre instâncias internacionais.
Neste domingo e segunda-feira (10-11/03) os habitantes das Ilhas Malvinas irão decidir em votação direta se desejam ou não continuar fazendo parte do Reino Unido. Isso poderá significar o fim do conflito em torno do arquipélago do Atlântico Sul.
A Argentina é um país normalmente cheio de divisões políticas internas, mas o assunto das Malvinas – ou Falklands como são chamadas no Reino Unido – une o país: as ilhas eram e são argentinas e assim devem permanecer, é a opinião unânime.
Trauma argentino
Para contestar a validade do voto popular, juristas internacionais do país afirmam que os "keplers" – como se autodenominam os residentes do arquipélago – não teriam poder de autodeterminação uma vez que não constituem um povo propriamente dito, mas sim uma representação do poder colonial.
"Keplers" votam se Malvinas devem permanecer território britânico
"O referendo é irrelevante dentro da perspectiva do direito internacional, e não pode ser utilizado para perpetuar uma ordem colonial", alega a embaixadora argentina em Londres, Alicia Castro. Além disso, o resultado seria previsível, já que de trata de "um referendo organizado por britânicos para britânicos, com o fim de dizer que o território tem que ser britânico".
Já o historiador argentino Luis Alberto Romero comenta que "a ideia de que as Malvinas são argentinas está incrustada na consciência coletiva do nosso país, e vem sendo acalentada há muito tempo. Trata-se de um nacionalismo intolerante, alimentado pelo nosso trauma em relação às ilhas". Romero faz parte de um grupo de intelectuais argentinos que discordam do sentimento geral em relação às Malvinas, o que lhes traz bastante inimizade em seu país.
Questão de soberania
O arquipélago das Malvinas, a 400 km da costa argentina, está sob possessão inglesa desde 1833. Há 30 anos a Argentina e o Reino Unido se enfrentaram numa curta porém intensa guerra pela posse das ilhas. A derrota argentina acabou por selar o fim da ditadura militar no país.
Ilhas Malvinas estao sob possessão britânica desde 1833.
Nos anos seguintes, os desentendimentos continuaram e vieram a se acentuar durante o governo da presidente Cristina Kirchner. Sempre que pode, ela traz o tema de volta à pauta, preferencialmente na ONU, que em 1965 já convocara em resolução ambas as partes, para que procurassem um acordo bilateral.
Kirchner publicou cartas abertas a Londres, em jornais ingleses, reclamando a soberania argentina nas ilhas, e já reiterou seu convite ao Reino Unido para a realização de um diálogo sobre a soberania das Malvinas. "Acreditamos que a diplomacia é o único caminho para defender a paz. Queremos a soberania, mas a queremos com paz".
"O referendo não é válido, não o reconhecemos", declarou o ministro do Exterior da Argentina, Hector Timerman. "A ONU foi taxativa em considerar as Malvinas uma colônia de habitantes implantada por uma potência colonialista, rechaçando qualquer possibilidade de autodeterminação." A embaixadora Alice Castro foi mais além ao afirmar que "os malvinenses têm direitos civis e políticos, mas não para decidir sobre uma disputa de soberania entre a Argentina e o Reino Unido".
Precauções
Não são apenas interesses patrióticos que estão em jogo: as águas ao redor das Malvinas guardam enormes reservas de petróleo, o que certamente influencia a disputa. Além disso, as ilhas também servem com ponto de referência para a exploração da Antártida.
Presidente Kirchner prega diálogo com os britânicos: "Queremos soberania, mas com paz".
A Argentina oficialmente rechaça o referendo e a legitimidade do voto dos 1.672 eleitores das Malvinas, mas nos bastidores a tensão aumenta. Um alto diplomata argentino, que não quis se identificar, afirmou que "há sim uma preocupação significativa com o referendo, mas nosso país irá tomar as medidas necessárias".
O ministro Timerman enviou mensagens confidenciais às embaixadas argentinas com instruções de como reagir em relação ao referendo. Além disso, o país irá pedir à União das Nações Sul-Americanas (Unasul) que apresente uma rejeição formal à votação.
Detrás de toda essa atividade diplomática existe a preocupação de que o resultado possa vir a ser um "sim" retumbante ao Reino Unido. A Argentina teme que o Comitê de Descolonização da ONU, ao qual o país leva todos os anos a questão da soberania das Malvinas, fique dividido após o referendo.
Autor: Marc Koch / Roberto Crescenti
Revisão: Augusto Valente

DW.DE

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