quinta-feira, 7 de março de 2013

Paris ou Veneza?


Amplas reformas urbanas no Rio de Janeiro e em Buenos Aires não acabaram com um eterno flagelo: as inundações. Revistas cariocas do início do século XX, por exemplo, retratam com inonia os alagamentos na capital fluminense

Andrea Casa Nova Maia e Lise Fernanda Sedrez
1/3/2013
Parece atual, mas estas cenas de alagamento no Rio ocorreram em 1928/ Revista Careta / FBN
Parece atual, mas estas cenas de alagamento no Rio ocorreram em 1928/ Revista Careta / FBN
As chuvas de verão inundaram o Rio de Janeiro em 1906 – mais uma vez. A inundação naquele ano tinha, contudo, um sabor mais amargo. A capital da República vivia as reformas urbanas conduzidas por Pereira Passos (1904-1906). Inspirado pelas reformas parisienses de 1870, o “Bota-abaixo”, como ficou conhecida a reforma, arrasou morros, retificou e canalizou rios, aterrou grandes extensões da Baía de Guanabara e de seus manguezais, abriu avenidas, entre outras medidas que transformariam para sempre a paisagem carioca. Ainda assim, as chuvas mergulharam a cidade no pesadelo das enchentes, como nos anos precedentes.
Jornais e revistas publicavam cartas indignadas de moradores que viam as tentativas de transformação do Rio em uma cidade ordenada e civilizada irem literalmente por água abaixo. De que adiantavam os novos boulevares, diziam os jornais, se quando chegavam as chuvas a população ficava a nado? Na nova Praça da Bandeira, antigo Largo do Matadouro, o coreto recém-inaugurado virou uma ilha. O transporte, a luz elétrica e outros sinais de modernização ficaram comprometidos pelas chuvas. Nas páginas das revistas ilustradas, chargistas ironizavam a impotência do Estado e pediam “bondes submarinos” ou “aéreos”, únicos meios de locomoção possíveis nos dias de enchente.
O Rio de Janeiro se via num “boulevard sem saída.”A chamada reforma Passos, de alto custo social e financeiro, deveria colocar a capital entre as grandes cidades do mundo, e tirar de Buenos Aires o cobiçado título de “Paris da América do Sul”. No entanto, apesar dos progressos no combate à febre amarela, no embelezamento do Centro da cidade, na destruição das “cabeças de porco” (os cortiços que abrigavam a população pobre), as chuvas de verão continuavam a alagar praças e ruas de dezembro a março.
O Rio de Janeiro se via num “boulevard sem saída.”A chamada reforma Passos, de alto custo social e financeiro, deveria colocar a capital entre as grandes cidades do mundo, e tirar de Buenos Aires o cobiçado título de “Paris da América do Sul”. No entanto, apesar dos progressos no combate à febre amarela, no embelezamento do Centro da cidade, na destruição das “cabeças de porco” (os cortiços que abrigavam a população pobre), as chuvas de verão continuavam a alagar praças e ruas de dezembro a março.
O registro de chuvas torrenciais está presente na história do Rio de Janeiro desde a sua fundação. No século XVI, o francês Jean de Léry se divertia com o barulho de micos pretos nas árvores durante “o tempo das chuvas”. Poucos anos depois, na jovem cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, os novos cariocas, cercados por mangues, morros e mar, a duras penas abriam picadas e drenavam pântanos que lhes permitissem, por um lado, criar uma comunidade no alto do Morro do Castelo e, por outro, manter um acesso seguro ao Porto, sua ligação com a metrópole. As chuvas torrenciais, seguidas de fortes ressacas, transformavam a Rua Direita (futura Primeiro de Março) em um rio caudaloso, causando pânico e perdas. Chuva e neblina permitiram até que o corsário francês Duguay Trouin chegasse às portas da cidade em 1711, quase sem ser notado. Quarenta anos depois, três dias de chuva forte e ininterrupta levaram a cidade à beira de total colapso. A população buscou abrigo nas igrejas, rogando aos céus pelo fim do flagelo. Em 1811, uma semana de tormentas causou desabamentos no Morro do Castelo, com perda de casas e vidas, a ponto do príncipe regente D. João exigir um inquérito sobre a enchente. Se o Rio de Janeiro queria ser uma cidade moderna, tinha que dominar a natureza, e não ser por ela dominada. Por isso o processo de modernização – mesmo que diferente do de Pereira Passos – começou ali.
Charge ironiza chuvas no Rio / FBN
Charge ironiza chuvas no Rio / FBN
Já no início do século XX, se Paris era o modelo almejado para o Rio de Janeiro, Buenos Aires era a invejada irmã mais velha. Em 1900, Olavo Bilac (1865-1918), arauto da modernidade carioca, visitou a capital portenha e concluiu que tê-la como vizinha era “uma vergonha para ti, adorada Sebastianópolis”. Era difícil, escrevia o poeta, ver a bela Buenos Aires logo ali, “a quatro dias de viagem”, e “nós, filhos da mesma raça e do mesmo momento histórico, com muito mais vida, com muito mais riqueza, com muito mais proteção da Natureza, ainda temos por capital da República, em 1900, a mesma capital de D. João VI em 1808, – isso é o que dói como uma afronta, isso é o que revolta como uma injustiça”. [Ver RHBN nº89]
A admiração de Bilac era ainda maior porque via em Buenos Aires uma história não muito diferente daquela de sua “Sebastianópolis”. A cidade argentina iniciara sua modernização urbana 20 anos antes, e a fizera com enorme rapidez. Até 1880, quem chegava à cidade passava do navio para uma canoa, e desta para um carro de boi. Em meio à lama, subia para o platô onde se localizava o Centro. Não raro, os carros atolavam e tinham que ser puxados com cordas e cavalos – uma cena tão comum no cotidiano dos portenhos que aparecia até em letras de tangos.
A história de Buenos Aires, desde sua fundação no século XVI, é de luta contínua contra inundações. Localizada num platô poucos metros acima do rio, unia a bacia do Rio da Prata à planície pampeira. Quando chegavam as chuvas fortes, as águas criavam arroios temporários que virtualmente isolavam a cidade. Eram chamados deterceros, os cobradores de impostos da época colonial “que levavam tudo”. A rigidez do plano quadricular da cidade hispano-americana também não ajudava. As ruas retilíneas avançavam sobre áreas de deságue e sobre pântanos, seguindo antes as ordens de El-Rey que a topografia local. Por vezes, as chuvas interrompiam por completo a comunicação com as zonas de abastecimento da cidade, e os habitantes ficavam confinados em suas casas, se alimentando apenas de carne seca. Até 1850, a região de La Boca, perto do antigo porto de Buenos Aires, se caracterizava pelas palafitas e pelas indispensáveis canoas amarradas em um mourão, prontas para serem usadas quando chegassem as chuvas.
Em 1883, o presidente Júlio Roca indicou Torcuato de Alvear para intendente de Buenos Aires, cargo que ocupou até 1887. Alvear pertencia à chamada “Geração dos Oitenta”, uma elite política que governou a Argentina de 1880 a 1916, e para quem a modernização da capital, do porto e das ferrovias era a chave para o progresso do país. A ciência e a tecnologia modernas resolveriam os dramas urbanos, inclusive as inundações. Como faria Pereira Passos, Alvear se inspirou nas reformas europeias para refazer a paisagem urbana da capital. Eliminou ou canalizou os terceros e também os rios permanentes de maior porte. As áreas de deságue foram drenadas e ocupadas, e a construção do novo Porto Madero se fez com aterros em áreas inundáveis.
Foi um prenúncio da modernização do Rio de Janeiro. Cariocas em visita a Buenos Aires olhavam com interesse os boulevares portenhos, sonhando com mudanças na sua cidade. Por sua vez, jornais argentinos noticiavam os desenvolvimentos do “Bota-Abaixo” carioca.
Praça da Bandeira em 1928 / Imagem: FBN
Praça da Bandeira em 1928 / Imagem: FBN
Terminadas as reformas, porém, as enchentes prosseguiram como parte da paisagem tanto de Buenos Aires como do Rio de Janeiro. As duas capitais eram incontestavelmente cidades modernas – mas não de dezembro a março. Entre 1906 e 1910, o Rio de Janeiro sucumbiu ao menos a duas enchentes de grande porte, em que o transporte da cidade ficou impossível. Em Buenos Aires, as enchentes de 1884 e 1889 levaram à evacuação de parte da cidade, e em 1910 todas as zonas baixas alagaram, sendo a passagem possível só com cavalos ou canoas.
Parecia que não se alcançara ainda o grau de modernidade suficiente para acabar com as enchentes. As soluções sugeridas eram fundamentalmente técnicas: fazer mais aterros, mais drenagens, urbanizar mais áreas, canalizar mais rios. Mas, o que acontece quando os rios estão contidos em canais de concreto e há pouco contato com a terra? Quando o chão em que cai a chuva é asfaltado e a vegetação natural substituída por casas e construções? Quando as encostas perdem sua cobertura verde e a terra fica exposta à erosão das chuvas? A capacidade de absorção diminui e a água se acumula em canais e valas, tomando ruas e casas. As ondas altas das marés não mais se dissipam nos mangues e pântanos, mas se chocam com barreiras de concreto e avenidas à beira-mar. A crescente população urbana tem pouca flexibilidade para conviver com as inundações.
A chuva, por mais intensa que seja, é parte da natureza. Já a enchente é um problema ambiental, histórico e social, e a modernidade urbana acentuava seu impacto. As inundações não eram resultado de uma modernidade incompleta, mas efeito colateral do turbilhão de mudanças que insistia em ignorar as dinâmicas da natureza local.
Aliás, nem Paris estava livre de pagar este preço. Em janeiro de 1910, após uma longa temporada de alta pluviosidade, o rio Sena alagou a capital francesa, com água jorrando de galerias pluviais e túneis subterrâneos. Pelo menos naquele ano, tanto Buenos Aires quanto o Rio de Janeiro foram, de fato, a Paris da América do Sul.

Andrea Casa Nova Maia é pesquisadora visitante da Casa Rui Barbosa e professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro.
Lise Fernanda Sedrez é professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

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