quinta-feira, 21 de março de 2013

Pela ditadura do proletariado


Economista com passagem por partido trotskista defende que esquerda revolucionária não lutava pela restauração da democracia durante regime militar, mas apenas assumir o poder

Ronaldo Pelli
15/3/2013
Especial Guerrilheiros -- O economista Sérgio Buarque já foi trotskista. Em sua militância política, participou do Port, o Partido Operário Revolucionário Trotskista, e depois de uma facção que rompeu com a liderança do argentino J. Posadas que, segundo Buarque, “pelo final dos anos 60 entrou num grande delírio”. Hoje em dia, após um mestrado em sociologia, ele trabalha como consultor para grandes empresas em planejamento estratégico, além de ser professor da Universidade de Pernambuco.
Essa mudança na vida também se reflete na maneira como ele enxerga o seu passado de militante em época de ditadura civil-militar. Mesmo pela via pacífica, ele admite que jamais lutou pela democracia, mas pela substituição da ditadura vigente por outra, essa do proletariado. Confira sua entrevista:
Revista de História - Por que o senhor optou por essa via de luta contra a ditadura?
Sérgio Buarque - Na verdade, como era marxista e trotskista, eu não lutava contra a ditadura; como toda a chamada esquerda revolucionária, eu lutava pelo socialismo e, no entendimento da época, pela ditadura do proletariado. Claro que taticamente utilizamos bandeiras contra a ditadura, mas no fundo era uma luta pelo socialismo que passava por outra ditadura e contra a chamada “democracia burguesa”; em certa medida era um combate à ditadura, mas não exatamente para a restauração da democracia.
Minha adesão ao trotskismo tem duas razões: a rejeição da União Soviética montada sobre uma violenta ditadura personalista e uma burocracia privilegiada; e a visão internacionalista que nos levava a considerar que o socialismo teria que ser construído em escala global ou não se sustentava como, de fato, ocorreu no chamado bloco soviético que, de socialismo não tinha nada. O trotskismo tinha também um componente emocional que era o fascínio pela figura heroica e brilhante intelectual de Trotski.
Claro que não me arrependo e tenho orgulho sim do meu passado político, mas entendo que foi tudo um grande equívoco da juventude, um delírio de jovens idealistas e sonhadores fascinados com a ideia de que estavam construindo a história e o futuro da humanidade.
Revista de História - Quais são as melhores e as piores lembranças da época?
SB - Melhores lembranças estão ligadas à intensa vida coletiva com grupo de jovens em condições semelhantes embora com tendências diferentes e mesmo concorrentes; felizmente, nesta altura os trotskistas já não eram hostilizados pelas tendências stalinistas e maoístas da esquerda brasileira. E os grandes momentos foram as partidas de futsal que jogamos na Casa de Detenção (a essa altura, os piores momentos tinham passado) quase todas as tardes; dá pra imaginar isso no auge da ditadura?
Não fui torturado, de modo que os piores momentos estão ligados ao temor psicológico, tortura psicológica, e a ameaça persistente de vir a enfrentar tortura, que dominava a prisão política na ditadura, principalmente nos primeiros meses de interrogatório.
Revista de História - O que o senhor acha que participar do movimento lhe ensinou?
SB - O aprendizado humano tem três momentos: a visão crítica do mundo através dos estudos do marxismo e do trotskismo me deu uma grande bagagem intelectual que, mesmo mudando totalmente minha postura hoje, me ajudou a pensar criticamente; na prisão, o aprendizado fundamental de viver em condições tão adversas e administrar o medo, a tristeza a angustia, digamos um aprendizado do que se chamaria hoje “inteligência emocional”; terceiro, no exílio, a formação de uma estrutura humana que decorre da convivência com outro universo cultural e em condições também de forte melancolia (como dizia o poeta, fomos “curtidos de soledad”).
Revista de História - Como foi ver companheiros que combateram o poder, subirem ao poder?
SB - Curioso ver os antigos militantes de esquerda numa esquizofrenia: continuam com um discurso ultrapassado de esquerda – estatista, nacionalista e voluntarista – mas uma prática, no geral, bem oportunista de poder pelo poder, quando não o poder pelos interesses pessoais.
Revista de História - O senhor recebe ou recebeu as indenizações dadas pelo Estado para os perseguidos pela ditadura?
SB - Não pedi indenização porque sou contra. Entendo que éramos militantes e não somos vítimas, sabendo das consequências e riscos da nossa prática política e que, portanto, é uma hipocrisia e uma renúncia à história receber indenização. Por outro lado, acho um absurdo que a sociedade brasileira pague aos antigos militantes – a maioria dos quais lutava por outra ditadura – pelos erros da ditadura; se houve vítima da ditadura foi o povo brasileiro e não um grupo de militantes políticos de esquerda.

Esta entrevista integra o Especial Guerrilheiros. Leia mais sobre o assunto aqui.

Nenhum comentário: