quinta-feira, 11 de abril de 2013

40 anos da agonia da Revolução Chilena [1]

Quarta-Feira, 03/04/2013, por Mário Maestri*

Há 40 anos, em 11 de setembro de 1973, alguns milhares de soldados iniciavam o golpe que poria fim ao governo constitucional e à chamada via chilena ao socialismo. No palácio presidencial da Moneda, no centro de Santiago, Salvador Allende morria lutando, cercado por alguns poucos fiéis, após conclamar, pateticamente, a população a não resistir. Diante da escassa resistência popular, as tropas do Exército, da Marinha, da Aeronáutica e do Corpo de Carabineiros aderiram ao golpismo, maciçamente.

Apesar de alguns importantes estudos, não temos ainda uma história geral do golpe chileno. Não possuíamos informação precisas da resistência popular armada que ocorreu, a partir do dia 11, por longas semanas, nos bairros populares e industriais de Santiago e no resto do país, em forma atomizada e desorganizada. Não conhecemos ainda em detalhes as deliberações e confrontos no interior das unidades militares, entre oficiais e sub-oficiais golpistas e não golpistas. Mesmo avançando significativamente nosso conhecimento, não existe uma apresentação geral da terrível repressão que se abateu sobre a população. Nas periferias de Santiago, alucinados pela ingestão de anfetaminas, jovens conscritos comportaram-se como tropas de ocupação, com direito ao estupro e ao saque. A legalização da barbárie foi a estratégia da oficialidade para vergar, pelo medo, o movimento popular e transformar sub-oficias e soldados honestos em verdugos do novo regime.

Meio século após 1973, sobretudo dificuldades políticas impedem uma real análise da experiência chilena. Por razões diversas, da esquerda reformista à revolucionária, nenhum grupo político-ideológico envolvido nos fatos encontra-se em condição de apoiar fortemente esforço para lançar luz sobre eles – e sair indene do balanço. Quanto à direita conservadora e fascista, tudo fazem para manter e expandir o desconhecimento sobre aqueles sucessos.

Após o golpe, o Partido Comunista Chileno vergou-se sob o peso da repressão e dos resultados de sua política pacifista que entregou a população de mãos atadas aos golpistas. A posterior crise dos países do Leste, nos anos 1980, contribuiu para aumentar ainda mais a dificuldade de um amplo balanço da experiência chilena. Hoje, o PC chileno sobrevive como uma pequena agremiação política, em relação a sua passada força, sem capacidade e interesse em avançar um balanço real sobre as razões profundas da crise daquele que foi o mais importante partido operário da América do Sul. 

O Partido Socialista constituía uma federação de forças políticas, com setores conservadores, centristas e radicalizados. Foi sobre a sua esquerda, representada por Carlos Altamirano, que convergiu, inutilmente, as esperanças do movimento social, quando se mostrou inevitável o confronto armado contra o golpismo, como única forma de defesa das conquistas alcançadas. O radicalismo verbal do secretário-geral do Partido Socialista em momento algum se transformou em propostas políticas e organizativas concretas. Após o golpe, Altamirano perdeu espaço político para os segmentos socialistas conservadores.

Após consumar-se o golpe, o PS explodiu em múltiplas tendências e, pateticamente, mais tarde, um importante facção socialista participou com destaque do processo de redemocratização autoritária e limitada, de internacionalização da economia e de privatização de bens públicos que concluiria parte essencial do projeto golpista de 11 de setembro de 1973.

Sequer o Movimento de Esquerda Revolucionária — MIR —, que defendia a inevitabilidade da luta armada, saiu politicamente indene dos sucessos anteriores ao golpe e, sobretudo do confronto e da derrota de setembro de 1973. No dia 11, ao entardecer, sua direção máxima ordenou aos militantes miristas que recuassem e não se envolvessem na resistência militar desarticulada então em curso, a fim de melhor participarem da guerra popular que esperavam e propunham que se seguiria ao golpe. Abandonou o campo de batalha real, por um hipotético, que jamais se materializaria.

Uma das mais patéticas páginas da Revolução Chilena foi o massacre que se abateu sobre a militância mirista, ao tentar levar à prática, conseqüente e corajosamente, românticas e totalmente irrealistas propostas de guerrilha urbana e rural, no contexto do profundo refluxo do movimento operário e popular que se seguiu à terrível derrota de 11 de setembro. Crescentemente visíveis à repressão, a direção e mais de trezentos miristas foram presos, torturados e executados. 

Responsáveis por um dos mais bárbaros massacres realizados na América Latina, as forças militares e civis que participaram do golpe, direta ou indiretamente, apoiadas pelo imperialismo, tudo fizeram e tudo fazem para que não se faça plena luz sobre os acontecimentos, temerosos do ônus político e das conseqüências penais devido ao martírio a que submeteram a população chilena, naqueles dias e nos anos seguintes.
* A seguir: 2. “O Caráter e o Sentido Histórico da Revolução Chilena”
*  Mário Maestri, 64 anos, é doutor professor do PPGH da UPF. Como refugiado político, estudou no curso de História da Universidade de Chile, em 1971-73, militando no Movimiento de Izquierda Revolucionária [MIR]. E-mail: maestri@via-rs.net

Fonte: O Nacional

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