quinta-feira, 18 de abril de 2013

Contornos do barão


Organizado pelo Itamaraty, livro reúne charges do início do século XX que retrataram o Barão do Rio Branco. Material integrava coleção pessoal do diplomata

Alice Melo e Janine Justen
15/4/2013
Charge do Barão do Rio Branco veiculada pelo Jornal do Brasil em 1904
Charge do Barão do Rio Branco veiculada pelo Jornal do Brasil em 1904
Poderei consultar uma obra sobre a questão do Acre?”, pergunta um tímido Barão do Rio Branco a um funcionário nos pés da escada de acesso à Biblioteca Nacional, que é... o cérebro de Rui Barbosa! A charge de Alfredo Candido traduz em imagem a colaboração do então ministro das Relações Exteriores com o jurista baiano em ocasião das negociações com a Bolívia pela posse do território contestado. É uma das mais de mil caricaturas que Rio Branco coletou durante os anos em que ocupou a pasta. Se a relação com Rui, na época, não era das melhores, isto não lhe impediu de conservar uma representação elogiosa de seu desafeto. Da coleção inteira, digitalizada e catalogada por uma equipe de pesquisadores do Centro de História e Documentação Diplomática, 200 charges foram selecionadas e reunidas na publicação, que acompanha o percurso de Paranhos Jr. e suas batalhas diplomáticas. Ilusão biográfica? Construção de uma autoimagem? Provavelmente sim, mas junto a isso o interessante testemunho de uma época e de uma sociedade. HH (Marcello Scarrone)

A resenha acima, publicada na edição de março da Revista de História, é precisa com relação ao conteúdo do livro ‘Barão do Rio Branco e a caricatura: coleção e memória’, uma obra comemorativa sem fins lucrativos, que está sendo distribuída em bibliotecas e centros diplomáticos ao longo do ano por conta do centenário da morte do homem que redesenhou as fronteiras do Brasil.  A obra foi organizada pela historiadora Ângela Porto, que se debruçou sobre mais de 1800 charges publicadas em periódicos do início do século XX, que hoje estão armazenadas no Arquivo Histórico do Itamaraty. Entre 1902 e 1912, José Maria da Silva Paranhos Júnior – ou Barão do Rio Branco – alimentou cuidadosamente o acervo. O período corresponde justamente à década em que foi ministro das Relações Exteriores.
A curadora Ângela Porto confessa que o processo de escolha das charges foi bastante trabalhoso – o material final se restringiu à publicação de apenas 200 delas. “Muitas estavam mal conservadas, então escolhemos as mais significativas, aquelas em que o próprio Barão aparecia representado”, conta. Grandes nomes da imprensa ilustrada, como J. Carlos, K. Lixto e Raul Pederneiras, retratam não apenas a figura do Barão, mas também a cultura de um tempo de transformações, em que o país vivia sua própria Belle Époque.
Para o cartunista Carlos Latuff, “a charge condensa e simplifica um contexto político ou social muitas vezes complexo de se descrever em palavras”. O desenho, nesta plataforma, ganharia caráter testemunhal, pois é feito “no calor dos acontecimentos”. “Através da sátira o chargista consegue não só registrar um momento histórico, como também facilitar o entendimento dos leitores sobre questões políticas e sociais. Isso sem falar no impacto que uma caricatura tem sobre uma autoridade”, completa. Latuff observa, ainda, que é importante notar as diferenças entre charges e caricaturas. Para ele, a primeira faz críticas cotidianas e a segunda, críticas sócio-políticas de situações pontuais. “É uma visão simplista de que ambas tenham de ser engraçadas, como se sátira tivesse a ver com riso fácil”.
Imagem publicada no Jornal Tagarela (1904)
Imagem publicada no Jornal Tagarela (1904)
O livro está dividido em três seções: a caricatura em si, o contexto histórico da época e a política externa de Rio Branco. Além disso, apresenta uma cronologia da vida do Barão e uma breve biografia dos artistas envolvidos. A professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Marialva Barbosa, especialista em história do jornalismo, comenta que a imagem era a grande saída dos jornais da época, utilizada para se aproximar de um público que pouco sabia ler. “A partir da virada do século XIX para o XX, os jornais diários passam a se popularizar por produzir um tipo de texto onde a imagem era o principal canal de comunicação com o público. Todos publicavam muitas ilustrações, charges e caricaturas, principalmente de viés satírico”, explica.
Apesar do viés satírico das charges, em geral, o Barão do Rio Branco era representado de maneira positiva, já que era uma figura muito querida pela população. Ângela Porto diz que pôde observar durante a pesquisa que os elogios superavam as críticas. “Claro que havia algumas sátiras, mas em geral o Barão passava uma imagem sempre muito simpática, foi uma pessoa querida, eu diria até popular. No jornal A Larva, por exemplo, em 90% das vezes, a imagem era negativa. Mas isso muda quando o Barão assina o Tratado de Petrópolis”, argumenta.
Mais que um mimo do colecionador, esta relação de identidade com os jornais era recíproca, uma via de mão dupla. Marialva Barbosa explica que Paranhos Jr. era figura garantida nas redações da capital. “O Barão frequentava a redação do Jornal do Commercio todos os dias depois do seu expediente no Itamaraty, por exemplo.” A popularidade do diplomata ficou evidente após a sua morte: consternado com a perda da figura mítica, o povo do Rio de Janeiro suspendeu as atividades laborais na semana que se seguiu ao óbito. E não foi qualquer semana! Paranhos Jr. morreu no sábado de Aleluia e a folia do carnaval foi oficialmente transferida para abril [ver Folia em dose dupla].

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