segunda-feira, 1 de abril de 2013

Dez notas sobre “O dia que durou 21 anos”


1. O filme de Camilo Tavares O dia que durou 21 anos põe fim à dúvida sobre a participação da CIA e do governo americano no golpe de 1964. A documentação, em texto e em áudio, é farta, e não permite mais contestação. O golpe foi planejado e articulado na Embaixada norte-americana, com bênção do católico democrata John Kennedy. E executado sob o governo Lyndon Johnson de acordo com o previsto.


2. Reforço o catolicismo de Kennedy porque a adesão de Castelo Branco à religião parece ter sido um forte argumento usado pelo embaixador Lincoln Gordon para convencer o governo dos Estados Unidos de que o chefe militar do Segundo Exército (São Paulo) era a pessoa certa para dirigir o país após a deposição de João Goulart.

3. O filme não fala, mas a movimentação de Olímpio Mourão Filho na noite do dia 31 de março, contrariando a vontade de Castelo Branco, no dia em que os EUA decidem mandar sua frota para a costa brasileira, mas antes de ela chegar, indicam já em 1964 uma divisão entre a direita e a extrema-direita, cujo líder era Costa e Silva, chefe do Primeiro Exército, sediado no Rio. Mourão parece tentar, ao liderar o golpe, reforçar a posição de Costa e Silva, que chegaria à Presidência em 1967.

4. Essa precipitação de Mourão é a única linha não traçada no plano de contingência dos EUA para o país. Mas a rapidez com que os norte-americanos reconhecem o novo governo, antes que Jango conseguisse cruzar a fronteira do Uruguai, é suficiente para dizer que os Estados Unidos sabiam de tudo o que estava acontecendo – até mais do que Costa e Silva, que recebeu Mourão Filho no Rio de cuecas, segundo a filha do general que comandou as tropas a partir de Minas Gerais.

5. Não havia no Exército forças leais o suficiente para João Goulart tentar resistir, embora na Força Aérea a situação não fosse tão precária, sugere o filme. Jango erra não só antes, ao não articular a defesa militar de seu mandato, quanto depois, ao fazer um périplo de avião pelo país sem tentar ao menos levantar a população que o apoiava.

6. O filme aceita a tese proposta por um dos entrevistados (o historiador James Green) de que a repressão ultrapassou o previsto por Lincoln Gordon (o embaixador golpista) e Lyndon Johnson (o presidente que decide fazer os tanques brasileiros se movimentarem), ganhando um sentido não planejado e não desejado pelo governo dos Estados Unidos. Por que acho a interpretação equivocada? Por que todos os documentos já abertos indicam que os Estados Unidos continuaram organizando golpes na América do Sul (Bolívia em 1964, 1967, 1971, 1978 e 1980; Peru em 1968; Uruguai e Chile em 1973; Argentina em 1977) sem que a repressão deixasse de ser violenta, pelo contrário.

7. O dia que durou 21 anos trata muito pouco da relação da primeira ditadura (1964 até o fim do governo Médici, 1974) com a segunda (Geisel e Figueiredo, de 1974 a 1985). No primeiro período, governaram os generais da linha de frente golpista; na segunda, os “administradores” da ditadura. De Geisel, praticamente só restam imagens.

8. Ao recuperar o papel do Ibad (Instituto Brasileiro de Ação de Democrática) e do Ipes (Instituto de Pesquisa em Estudos Sociais), O dia que durou 21 anos mostra como a atuação da CIA é mediada por instituições locais, revestidas de “ação democrática”, por meio de veículos de grande circulação (Manchete, Cruzeiro, por exemplo).


9. As cenas mais evidentes da pressão norte-americana contra Jango são as que mostram o presidente brasileiro visitando a base militar de Nebraska, sugestão do embaixador golpista Lincoln Gordon – originalmente, um brasilianista selecionado por Kennedy para comandar a imensa máquina burocrática do governo norte-americano no Brasil.

10. A visita tinha o objetivo de exibir a musculatura militar dos EUA ao presidente brasileiro, uma espécie de aviso sobre o que ele teria de enfrentar caso continuasse a contrariar a política de Washington. Jango sente o golpe e os closes em seu rosto, nas imagens de arquivo, são suficientes para perceber que ele entendeu o recado e que não tinha um plano alternativo ou jogo de cintura suficiente para enfrentá-lo.

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