segunda-feira, 1 de abril de 2013

Documentos do SNI não digitalizados atrapalham Comissão da Verdade



Em evento no Rio, membro da comissão fala sobre dificuldade e pede mais recursos
A falta de digitalização dos arquivos do acervo do Serviço Nacional de Informações (SNI) pertencente ao Arquivo Nacional tem atrapalhado o trabalho na Comissão Nacional da Verdade (CNV). Em evento no Rio nesta quarta-feira, Rosa Cardoso, membro da CNV, disse que o grupo já admite que terá que escrever o relatório final sem ter acesso à totalidade dos documentos.
— Temos muita clareza de que nós vamos poder utilizar somente uma parte da documentação — afirmou Rosa.
Liberados para consulta no ano passado, os documentos proporcionaram algumas descobertas para pesquisadores e jornalistas e estão baseando as investigações e trabalhos dos membros e assessores da CNV. Rosa disse ainda que a comissão solicitou para a presidente Dilma Rousseff e para o Ministério da Justiça novos recursos para ampliar o trabalho de digitalização do acervo do SNI.
— Nós estamos até solicitando e pedimos a presidenta recursos para que seja digitalizado um material muito mais amplo do que o que nós podemos usar — disse Rosa, sem precisar o valor pedido.
Procurado, o Arquivo Nacional não informou, até o momento, sobre o montante requisitado e nem sobre a quantidade de arquivos não digitalizados.
Caso Panair
Rosa Cardoso também apresentou nesta quarta-feira uma nova linha de trabalho do grupo gerada pelo caso Panair, a companhia aérea brasileira que perdeu a licença para voar em 10 de fevereiro de 1965 e foi extinta pelo regime. Ao lado seu lado estava Rodolfo da Rocha Miranda, filho de Celso da Rocha Miranda, sócio na época e já falecido. Além dele, a empresa pertencia ao empresário paulista Mário Wallace Simonsen.
Miranda explicou que a empresa com cinco mil funcionários teve as linhas cassadas sem aviso prévio por um processo administrativo sumário. Em seguida, de acordo com ele, todas as linhas passaram a ser operadas pela Varig. O motivo do boicote, de acordo com ele, seriam as relações de seu pai com o ex-presidente Juscelino Kubitschek . Logo após o golpe militar, o herdeiro disse que a família foi constantemente perseguida.
— A partir de 1964 a minha casa passa a ser vigiada, o telefone passa a ser bloqueado por agentes. A casa do meu pai é invadida e os armários são vasculhados — contou, revelando que, com medo, a família deixou o país por seis meses.
O empresário disse que o Arquivo Nacional localizou documentos produzidos pelo Centro de Informações de Segurança da Aeronáutica (Cisa) acionando funcionários do Ministério da Fazenda para promover investigações nas empresas da família. A justificativa utilizada para a suspensão das linhas foi a má situação financeira da empresa.
O herdeiro admite que a empresa enfrentava dificuldades, mas seria a principal opção do setor naquele tempo. Ele contou ainda que só conseguiu levantar a falência da empresa em 1995, quando foi descoberto cerca de R$ 20 milhões nos caixas da empresa. Atualmente, a família possui na Justiça ações de indenização pelo uso de três aeroportos que eram propriedade da Panair à época e foram tomados pelo governo. São eles o Aeroporto Internacional de Belém, Aeroporto Internacional dos Guararapes, em Recife, e o aeroporto de Pici, em Fortaleza.
No sábado será realizada uma audiência pública sobre o caso no teatro Maison de France no Rio.

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