quarta-feira, 3 de abril de 2013

História no presente

3/4/2013 09:44:00

O processo de produção e educação da História na Era da Informação encontra barreiras que separam escolas e as universidades. Enquanto o ambiente escolar luta para acompanhar as evoluções tecnológicas, os professores trabalham para aproximar alunos da produção dos historiadores

Redação Carazinho
(Redação Carazinho / DM)

redacao.carazinho@diariodamanha.net


Gustavo Farezin, Isabella Mayer
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Quando o homem rabiscou paredes de pedra nas cavernas da pré-história mal sabia que estava criando o sistema mais antigo de se contar a História. Aquele foi o princípio de um código que se transforma e evolui a cada geração. Os desenhos que retratavam o cotidiano selvagem dos nossos ancestrais são indícios da vontade que o ser humano tem de expressar o que sente.

De acordo com o professor de História, Lucas Cabral Ribeiro, 27 anos, ao longo do tempo, tal ferramenta permitiu a evolução dos métodos de compartilhamento do saber e a perpetuação dos fatos se tornou uma realidade. O homem conseguiu passar, através das gerações, a maneira como via o mundo, embora seguindo uma série de questões relativas à sua ideologia, etnia e contexto. A imparcialidade, deste modo, fica em cheque, afinal, cada relato do mundo está intrinsecamente associado ao inconsciente de quem a conta.

Para Lio Bocorny, 72 anos, historiador por vocação, muita coisa se perdeu nas curvas do tempo. Bocorny, autor de 14 livros, afirma que são várias as maneiras de se interpretar os fatos, embora a verdade seja uma só, que pode ser atingida por meio da pesquisa em profundidade. “Não trabalho com informática, mas com dois métodos, memória e apuração, utilizando a mídia impressa. Acredito que, dentro do espaço-tempo, é ela que dispõe do melhor conteúdo. Deve-se estar atento, porém, aos interesses dos agentes da história”, classifica Bocorny.

Para Ribeiro, porém, a verdade é utópica. Ele afirma que o historiador não tem a função de afirmar uma verdade, mas mostrar para uma determinada comunidade e deixar que ela interprete. “Temos o papel de informar, compreendendo a história como uma ciência em transformação”, diz o professor.

Em meio aos fatores que procuram definir o processo histórico, está sempre em discussão o modo como transmitir tal conhecimento. Para o aluno Augusto Albuquerque, são diversas as maneiras de se localizar a informação. “As pesquisas estão disponíveis a quem quiser, só depende da pessoa ter ou não o interesse histórico”, revela o estudante.

Enquanto isso, o professor de história se vê em uma batalha contra os meios de comunicação que tomaram o seu posto de mediador do conhecimento. “O jovem está acessando a internet via notebook, ao mesmo tempo em que lê o jornal e assiste à televisão. Capitalizando informação via alguma rede social ou site específico para informação”, afirma Ribeiro.


A História para quem conta
O dia 11 de Setembro de 2001 foi marcante para Bocorny, que acompanhou pela televisão, em uma barbearia, os aviões se chocando com os prédios gêmeos do World Trade Center, nos Estados Unidos. A ditadura militar no Brasil também foi presenciada por ele, assim como a eleição do papa Francisco. "É o sétimo pontífice da minha vida e já divide opiniões. Se foi conivente ao período militar argentino, se ele se surpreende com a riqueza exagerada do Vaticano, se é mesmo humilde ou não. Como a religião existe desde que o homem adora o sol, são várias as ideologias que se confrontam. Mas, provavelmente, isso dará um novo sentido histórico”, conta o historiador.



(A verdade histórica é alcançada toda vez uma novidade que possa ser provada é alcançada / FOTO DM GUSTAVO FAREZIN)


Fazer a história chegar aos alunos da maneira com que possa ser interpretada é o papel dos professores. Aos seus alunos, Ribeiro procura fazê-los perceber a justa relação entre os tempos, em meio à rapidez da informação digital, explicando que história é o estudo do passado em relação ao presente. “O Ministério da Educação nos impõe alguns componentes curriculares básicos que a gente precisa colocar no ensino, como questões cronológicas, história do Brasil, do mundo e, claro, com o passar do tempo e desenvolvimento dos estudos históricos, alguns elementos são transformados. As atualidades, na medida do possível, buscamos abordar juntamente com outras áreas das ciências humanas, como a sociologia e a filosofia, que contribuem para o debate histórico, sempre que há a possibilidade de ‘linkar’ os tempos. Por exemplo, para explicar os eventos da primavera árabe eu trabalhei as comunidades das antiguidades orientais”, explica.

Com o advento da internet, o papel do professor mudou. Ele não é mais o detentor do conhecimento, se tornando um mediador, filtrando o que o aluno precisa saber. “Nosso dia-a-dia é trabalhar o mundo antigo com o presente e representar a noção de um todo, de como os processos de formação da história se transformam no presente, ao mesmo tempo em que temos a complicada condição de competir com a internet, correlacionando o mundo antigo com links”, comenta.

Para Ribeiro não existe uma verdade absoluta, por isso o papel do professor é importante e insubstituível. “Por exemplo, a ditadura militar brasileira passou por diversas transformações de acordo com quem a interpretou e quem a reproduziu. Temos a Wikipédia, que é uma ferramenta livre, em que qualquer um pode preenchê-la, mas não podemos saber até que ponto aquilo é conhecimento. Por isso, o professor deve mediar”, pondera Ribeiro.

Imparcialidade histórica
Ao estudar a história na sala de aula, poucos são os alunos que se perguntam quem escreveu o texto ou em que período ou circunstâncias aquele material foi redigido. Quando deixado de lado, estes aspectos dão a impressão de que a história contada é uma verdade absoluta ou que se tornou uma em razão de sua veiculação em meios gráficos. Porém, Ribeiro observa que mesmo baseado em fontes e fatos ocorridos, o processo de formação da história não é imparcial.

Este assunto é amplamente discutido em âmbito acadêmico em razão de que se busca um ideal de objetividade e imparcialidade ao se narrar os fatos, porém os ideais e até mesmo a formação de cada historiador influenciará na maneira de como a história será contada. “Os historiadores buscam por imparcialidade, trabalhando sempre na produção do conhecimento histórico relacionando as suas fontes, sejam elas orais ou documentais. Mas, a gente não pode formar o pensamento histórico sem contar com um pouco das influências do trabalho do historiador, porque ele vai colocar elementos formativos no processo dele”, menciona Ribeiro, citando um dos livros mais conhecidos sobre a Guerra do Paraguai, Guerra do Paraguai: o Genocídio Americano, escrito por Júlio José Chiavenato, em que o autor apresenta dados que até hoje não foram confirmados, seguindo uma ideologia política ufanista.



(A verdade histórica é alcançada toda vez uma novidade que possa ser provada é alcançada / FOTO DM GUSTAVO FAREZIN)


Uma das principais orientações ao se entrevistar ou pesquisar uma fonte é não absorver o seu discurso. Ribeiro explica que, mesmo a fonte sendo confiável, o historiador tem seus conhecimentos prévios que vão permear a produção daquele material. “Acredito que isso se resolve com questões de produção de métodos, qual será utilizado, como vai ser avaliado. E em um trabalho serio de história isto esta presente sempre”, reitera.



HISTÓRIA NAS ESCOLAS
Na sala de aula

O meio acadêmico trata a história de forma diferente de como ela é ensinada na sala de aula. De acordo com a historiadora e professora de História na Escola Municipal de Ensino Fundamental Justiniano Rocha, do distrito de Igrejinha em Coqueiros do Sul, Paola Rezende Schettert, 23 anos, é um grande desafio transformar o conhecimento adquirido durante a faculdade em conhecimento didático que é ensinado aos alunos. “Existe uma dificuldade em transpor o conhecimento aos estudantes em razão de que é necessário transformá-lo em algo lúdico, que atraia a sua atenção, mas ao mesmo tempo em que os fatos não se percam”, relata Paola.

Ribeiro também acredita que este é um dos desafios em ser professor. Ele menciona que existem diversos estudos em neurociência que provaram que a capacidade de absorção de conhecimento é muito maior quando o indivíduo está em um ambiente ou conversa que mais lhe agrada. “Fazer uma brincadeira na aula é legal, faz com que o estudante preste atenção ao que o professor está dizendo, mas também deve se tomar cuidado para não criar um anacronismo histórico ou uma deturpação do elemento histórico para priorizar uma brincadeira”, comenta, alegando que é necessário ensinar de uma forma que o aluno consiga compreender os principais processos históricos.

Dentro da sala de aula também existem outras barreiras que dificultam o ensino de História. Segundo Paola, toda a educação tem suas falhas, desde a escola até o meio acadêmico, mas a absorção de conhecimentos também depende do interesse de cada indivíduo. A professora dá aulas para o ensino fundamental e, mesmo há pouco tempo na profissão, notou que o aprendizado das ciências humanas é mais complicado, comparado à ciências exatas. “A falta de incentivo ou de interesse em leitura faz muita falta aos alunos do Ensino Fundamental, e isso acaba prejudicando o ensino das ciências humanas, por não ser algo prático. Na História, o estudante tem que refletir, mas é um desafio válido”, destaca.

O ensino da história: didática
Ribeiro conta que a pergunta mais recorrente em sala de aula é: “Professor, porque eu tenho que aprender história?”. Às vezes, no mundo do jovem, é difícil fazer essa correlação, em razão de que ele ainda não passou por certas experiências em que o conhecimento adquirido na escola lhe será útil, como por exemplo, na faculdade. “Temos que dar um sentido ao que está sendo ensinado em sala de aula. É difícil, nem sempre o professor consegue, mas quando isto é alcançado temos um sucesso bem maior”, alega.

Também fazem parte da formação dos alunos em História, os livros didáticos – por vezes tão criticados, em razão de conter falhas ou não discutir amplamente um assunto. Paola afirma que o professor deve saber utilizar do livro didático como uma ferramenta para lecionar. “O livro didático não é o conteúdo, é apenas um apoio em que o professor e aluno utilizam como base. É importante que além, dele, o professor leve para a sala de aula textos diversos, inclusive do meio acadêmico, para que os alunos possam adquirir conhecimentos mais específicos sobre os assuntos tratados”, fala.

Os livros são essenciais no aprendizado de História, mas o estímulo à discussão sobre um assunto também é fundamental para tornar a aula mais atrativa. O estudante Augusto lembrou que ao fazer debates sobre o assunto que está sendo estudado, o conteúdo abordado é mais facilmente absorvido. Porém Ribeiro ressalta o fato de que não se pode deixar de lado as características pessoais de cada estudante. “Em toda a turma existe aquele aluno mais tímido, que detém o conhecimento, mas que não se sente à vontade em compartilhá-lo em uma roda de debate, por exemplo. O professor não pode obrigá-lo a participar, mas sim inserir elementos do dia a dia dele para que possa facilitar o diálogo”, pondera Ribeiro.



(O ideal é que o professor participe do processo de produção da história também, tendo assim a capacidade de correlacionar os conteúdos e discernir elementos sem produzir anacronismos / FOTO DM GUSTAVO FAREZIN)


A História para quem ouve
Uma dificuldade encontrada pelos professores de história é fazer com que o conteúdo produzido chegue até o ambiente escolar. O mundo escolar acaba repetindo, muitas vezes, coisas que não são mais usadas. Carazinho, por exemplo, teve um importante processo em passagens históricas do país, que são contados pelo trabalho de pessoas que embora não tendo a formação acadêmica, ajudam a resgatar certas coisas. "Gostaria que tivesse muito mais", explica Ribeiro, "que as pessoas soubessem, por exemplo, que em nosso município em 1930, durante o Barracão Liberal, houve um entreposto de reabastecimento dos militares que seguiam para o Rio de Janeiro para apoiar o governo de Getúlio Vargas. O aluno assim poderia perceber que o local onde vive não está deslocado da história do país. A disciplina de história, porém, tem menos carga horária nas escolas. Enquanto as ciências exatas têm quatro períodos semanas, história tem um ou dois", revela.

A forma como o professor trabalha com assuntos da atualidade vem do processo formativo e de sua carga acadêmica. O ideal, segundo Ribeiro, é que ele participe do processo de produção da história também, tendo assim a capacidade de correlacionar os conteúdos e discernir elementos sem produzir anacronismos. “O grande desafio da escola é fazer com que o aluno utilize a facilidade de aprendizado que tem, para aprofundar os saberes. Conceitos históricos como o nome Regime Militar não é mais certo. Para nós, historiadores, o nome correto é Golpe Civil Militar, ou seja, há o envolvimento de civis e também de militares. Então a gente ainda encontra um distanciamento da relação materiais didáticos atualizados com o que é produzido no mundo acadêmico. A eleição do Papa é muito recente, mas se faz um aporte trazendo elementos do passado, como a estrutura política do Vaticano e enfatizando o conceito de que a história não serve só pra entender o passado. O aluno não aprende de uma única forma, é multi-midiático. Hoje ele é uma pessoa extremante visual, porém, isso decai sobre um problema de superficialidade da informação", diz.


Limitações
Ao contrário do ensino no meio urbano, algumas escolas do interior ainda têm dificuldades quanto ao acesso às tecnologias. Conforme Paola, que leciona em um colégio no interior, a maioria das crianças não possui acesso à internet em casa, o que dificulta tarefas variadas de pesquisa. “Como há uma limitação na pesquisa, eu tenho que criar, levar textos, objetos, apresentações em data show, trechos de jornais para que o ensino de História fique mais dinâmico e prenda a atenção dos alunos com algo novo, diferente do que há nos livros”.
A longa distância em que moram os alunos também é uma barreira aos alunos. “Como eles dependem de transporte para chegar até a escola fica difícil a locomoção deles em horários diferenciados ou até mesmo para outros locais. Mas cabe ao professor conhecer sua realidade e aprender com ela”, disse.

O professor tem buscado ferramentas de tecnologia aliadas à educação com o recurso de usarem mídias, introduzindo imagens e as aulas podendo ser compartilhadas. "Se chama Prezi, uma ferramenta gratuita da internet para exposição de slides mais dinâmicos, em que pode ser feito zoom e visualizar vídeos, fazendo com que o aluno seja atraído. É uma coisa que se assemelha ao que ele vive, diferente do que ficar parado, só falando. Além de poder compartilhar as aulas que são feitas com ela, para outros professores", explica Ribeiro.
 

Fonte: Diário da Manhã

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