domingo, 14 de abril de 2013

Livros libertários


Centro de referência, que foi antigo cemitério de escravos no Rio de Janeiro, inaugura biblioteca com obras relacionadas à memória afro-brasileira

Gabriela Nogueira Cunha
1/4/2013
Foto: Arquivo Nacional
Foto: Arquivo Nacional
Uma biblioteca inaugurada em novembro de 2012 está movimentando ainda mais o roteiro cultural da zona portuária da Gamboa, na cidade do Rio de Janeiro. É a Biblioteca Pretos Novos, que conta com um acervo bastante específico e totalmente em sintonia com a cultura da região: são 450 obras dedicadas à memória afro-brasileira.
O espaço integra o Instituto Pretos Novos (IPN), que tem como objetivo preservar a memória dos africanos recém-chegados da África e desembarcados no Rio de Janeiro em meados do século XIX. Criado em 1996, o Instituto é sediado em um sítio arqueológico que abriga o antigo cemitério dos chamados pretos novos [Ver RHBN nº 70].
A coleção de obras da biblioteca está dividida em 11 seções, com temas variados, como artes, literatura, cinema, música, história e antropologia. É um verdadeiro deleite para os admiradores do tema e frequentadores do IPN. “Quando cheguei lá, havia muitos livros relacionados à história e à cultura não só afro-brasileira, mas também africana. Há uma coleção rara só sobre a pré-história no continente africano”, conta Kate Lane Paiva, curadora da biblioteca e especialista em estética afro-brasileira, referindo-se à ColeçãoHistória Geral da África, da Unesco. A biblioteca – cuja construção estava prevista no projeto de 2009 que transformou o IPN em Ponto de Cultura – contou com investimento do Ministério da Cultura (MinC) e recebe doações de colaboradores, como o próprio MinC e a Pallas Editora.
Com a ajuda da bibliotecária Lilian Paiva, Kate Lane deu início à organização e à catalogação dos livros, separando-os por assunto e áreas afins nas estantes. “E aí percebemos que as obras não contavam só a trajetória da cultura afro-brasileira, mas dialogavam com a própria história da cidade, principalmente do porto do Rio. Então, o acervo, de alguma maneira, fala da história do local, de uma história viva, que está ali literalmente sob nossos pés”, diz a curadora.
“Obras de referências sobre história da África, religião afro-brasileira, arte, antropologia e arqueologia estão entre as mais procuradas e, com a formação da biblioteca, este acervo pode ser ampliado regularmente através das doações de autores, editores e instituições”, explica o arqueólogo Reinaldo Tavares, responsável pela pesquisa que dimensionou o tamanho total do cemitério dos Pretos Novos. Ele acredita ainda que o IPN e a mais nova biblioteca têm um papel “aglutinador” de entidades, como conselhos de direitos humanos, religiosos, pesquisadores e militantes oriundos do movimento negro.

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