segunda-feira, 15 de abril de 2013

Memórias de um estigma


Registros fotográficos do hospital-colônia de leprosos Asilo Aimorés, em Bauru (SP), ajudam a contar a história da doença que ainda hoje castiga o país

Aline Salgado
13/4/2013
Em visita ao antigo asilo, estão a ex-Deputada Estadual Conceição da Costa Neves e o Dr. Lauro de Souza Lima
Em visita ao antigo asilo, estão a ex-Deputada Estadual Conceição da Costa Neves e o Dr. Lauro de Souza Lima
Foi nos anos 20, quando o Brasil procurava se modernizar, que a lepra começou a preocupar as autoridades brasileiras. Mas até ser encarada de frente, como prioridade na agenda de endemias pelo governo, foi preciso esperar por mais dez anos. Hoje, quase um século depois, a doença, que mudou de nome por causa do estigma social que carregava, é ainda um desafio. Somos o segundo lugar no ranking mundial de prevalência da hanseníase, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS).
Há 38 anos trabalhando no antigo Asilo Aimorés, hoje Instituto Lauro de Souza Lima – referência nacional no estudo e tratamento da hanseníase –, Jaime Prado acompanhou de perto os avanços médicos para controle e cura do mal. Os registros dessa saga, cheia de sofrimento, estão guardados na casa do servidor. São 13 mil fotografias em preto e branco que mostram desde a visita dos ex-presidentes Getúlio Vargas e João Goulart ao hospital-colônia, até o dia a dia dos internos.
"São imagens historicamente maravilhosas. O acervo foi doado por ex-pacientes da colônia, além de médicos e políticos que, de alguma maneira, ajudaram na causa dos doentes. Entre eles, a família do médico Lauro de Souza Lima e da deputada Conceição da Costa Neves, considerada a mãe dos portadores da lepra", conta Jaime Prado, que se autodenomina um amante da História.
Pesquisadora especializada em Políticas Públicas da Saúde, Valtéria Alvarenga explica que só a partir da década de 30, com o projeto de centralização do Estado pelo Governo Vargas, é que a lepra passou a fazer parte das prioridades do país: "Em dezembro de 1923, o governo federal publica decreto que cria a Inspetoria de Profilaxia da Lepra e de Doenças Venéreas e determina o isolamento dos doentes em todo o país. Mas, a legislação não teve força de cumprimento e a norma acabou perdendo seu efeito. Só em 30, com Vargas, a lepra passa a integrar a agenda de endemias do governo. Tendo um plano de combate específico".

Apesar da mudança de posicionamento, a orientação médica para o controle da hanseníase continuou pautada no isolamento dos doentes em hospitais-colônias. Grupos religiosos e comunidades filantrópicas, na sua maioria, eram responsáveis por manter e cuidar dos doentes. Foi assim, dentro desse contexto, que o Asilo Aimorés de Bauru foi construído. "Através da doação de 87 municípios, próximos a Bauru, a colônia Aimorés foi construída. As obras começaram ainda em 1927 e em 1933 o hospital já abrigava 2 mil doentes", conta o servidor, Jaime Prado, que lembra o aniversário de 80 anos do instituto, no próximo dia 13.
Segundo Jaime, pessoas de todas as partes de São Paulo chegavam a Bauru por trem. Os doentes viajavam trancados nos vagões e eram levados em viaturas, parecidas com as da polícia. Pesquisadora, Valtéria Alvarenga explica porque os pacientes eram tratados com tanta segurança e medo. "Por causa de todo o sentimento de civilização que tomou conta do país, a sociedade e a comunidade médica passaram a olhar a doença e os pacientes com mais atenção. Mas, mesmo assim, a dificuldade em se tratar a lepra se mantinha, já que os pesquisadores do mundo todo não conseguiam cultivar a bactéria in vitro e isolar o bacilo. Logo, a única saída para evitar uma contaminação geral continuava sendo o isolamento dos pacientes", aponta a pesquisadora.
Só a partir dos anos 60, dez anos depois da descoberta da sulfona, a primeira droga para combater a doença, é que a política de isolamento dos pacientes com lepra deixou de ser adotada pelo governo brasileiro e o tratamento passou a ser feito de forma ambulatorial. Para Jaime Prado, a preservação da memória do Asilo Aimorés é um dos mecanismos para se acabar com o preconceito, que ainda hoje atinge os portadores da hanseníase no país.
"A lepra tem cura, mas o preconceito, não. Preservando a história da doença, acredito que conseguiremos minimizar o preconceito contra os leprosos. Quero que a história da hanseníase e da luta para a cura e o tratamento sejam contadas e preservadas por todos", defende Jaime. 

Nenhum comentário: