quinta-feira, 25 de abril de 2013

Quase um século após genocídio, comunidade armênia luta contra o esquecimento


Por Paloma Rodrigues
“Lutamos para sanar a dor que cada armênio e sua família carregam no peito, para que reconheçam o genocídio”. No dia 24 de abril, essa é a frase que ecoa por todos os cantos do mundo que abrigam uma comunidade Armênia. Em São Paulo, os mais de um milhão e meio de mortos no genocídio comandado pelos turcos entre 1915 e 1917 são homenageados na movimentada Avenida Santos Dumont, zona norte da cidade, onde os fieis se reúnem para uma tradicional celebração na Igreja Apostólica Armênia São Jorge.
Missa na Igreja Apostólica Armênia São Jorge em homenagem aos mortos no genocídio armênio. Foto: Pedro Presotto
Missa na Igreja Apostólica Armênia São Jorge em homenagem aos mortos no genocídio armênio. Foto: Pedro Presotto
Noventa e oito anos após massacre, os armênios seguem pedindo um reconhecimento do genocídio. Até hoje, apenas 21 países reconhecem os crimes. O Brasil não está entre eles. A Turquia se nega a assumir a violência e pressiona para que outros países façam o mesmo.  Nações influentes, como os EUA, classificam o episódio como um “grande e triste massacre”, mas evitam a palavra genocídio, temendo embaraços diplomáticos com os turcos. O discurso atual da Turquia é que entre 300 e 500 mil armênios morreram em decorrência de uma guerra civil – e não por perseguição étnica, conforme a versão armênia. Argumentam que cidadãos turcos também morreram no conflito.
A celebração é seguida de um protesto no consulado da Turquia na capital paulista. “O objetivo é pressionar, mas de maneira pacífica. A violência só traz antipatia”, disse um manifestante que não quis se identificar.
O som da cidade que perturba do lado de fora é imperceptível dentro da igreja. Fundada em 1948, saltam aos olhos os ornamentos, quadros, luzes, lustres e roupas, repletas de símbolos bordados. Os símbolos que se espalham pela parte interna do local remetem tanto ao Ocidente, com figuras conhecidas de Maria e dos Santos Expedito e São Judas, populares também na Igreja Católica Apostólica Romana, quanto ao Oriente, percebido na influência do Império Bizantino na arquitetura e na iconografia.
Há muito a se ver e muito a se ouvir. Um coral intervém na missa em quase 100% da cerimônia, iniciada às 10 horas da manhã – antes, fieis já rezavam no templo. O sacerdote e os diáconos fazem suas intervenções cantando a maior parte dos versos. A missa é densa e, neste 24 de abril, triste. Uma parte é reservada às homenagens aos mortos.
Garabed Sapadjian, de 62 anos, integra o Coral da Igreja e frequenta o Clube Armênio SAMA – Sociedade Artística Melodias Armênias, da qual é tesoureiro. “Estamos tentando manter viva a cultura. Tivemos que fugir, mas estamos tentando manter nossa cultura viva. A comunidade aqui é bem unida. O pouco que contribuímos é feito de coração e tentando preservar nossa cultura”, conta.
Missa do dia 24 de abril Foto: Pedro Presott
Missa do dia 24 de abril Foto: Pedro Presott
O grupo é comandado pelo regente Estepan Khatchur Balkian, que há mais de 60 anos dedica sua vida à atividade. “Eu fui subindo aos poucos e agora estou aqui. É assim que as coisas são, vamos adquirindo as responsabilidades com o passar do tempo”, diz ele. Solícito, gradativamente aponta quando se iniciará o Pai Nosso ou as canções e orações específicas em homenagem aos mártires. Cantadas em armênio, as melodias podem ser acompanhadas por um programa completo bilíngüe – mas o regente faz questão de indicá-las para aqueles que não estão habituados ao ritual da missa.
André Hagop Habib, de 15 anos, faz parte da ala mais jovem da renovação da Igreja. O sobrenome diferente, que foge do sufixo ian, é fruto da perseguição sofrida pelo avô, que se refugiou na Síria. Lá, foi adotado por uma família e herdou seu sobrenome. Os pais de André também são sírios; só o menino nasceu no Brasil. “Eu sempre estive na Igreja e quando o bispo me chamou para ajudar nas celebrações eu vim. Isso já faz dois anos”. O menino ressalta a importância dos jovens se envolverem na vida da comunidade. “Eu sou um dos poucos que é fluente em armênio aqui”".
Sobre as manifestações, ele se mostra politizado e confirma a presença no evento em frente ao consulado turco. “Aqui no Brasil o movimento ainda é fraco. Se você olhar pelo mundo, vai ver lugares onde milhares de pessoas saíram nas ruas hoje”.
A missa na Igreja de São Jorge foi acompanhada por cerca de cem crianças, todas matriculadas no Externato José Bonifácio, instalado no prédio anexo à Igreja.
Na grade curricular, a língua e a cultura armênia são exaltadas. É a maneira que a comunidade encontra para que os descentes não percam o vínculo com sua terra e se reconheçam como armênios. “Como qualquer povo que precisou se refugiar, um armênio se reconhece por seu sangue e não por sua nacionalidade”, diz o ator armênio Arthur Haroyan, no Brasil há cinco anos.
Durante uma semana, atividades especiais são programas para relembrar o massacre, desde apresentações de teatro até trabalhos interdisciplinares realizados em sala de aula. Antes da missa, Eduardo Keiro Inoeu, professor de história do colégio – não descente de armênios -, apresenta uma retrospectiva geral do contexto da Primeira Grande Guerra e da situação da Armênia no conflito. “Hoje é um dia para ser relembrado, não comemorado”, diz ele.
Dentre os motivos históricos encontrados para a represália turca está a perda de território na guerra. O Grupo dos Jovens Turcos, recém-chegado ao poder, culpou a falta de unidade armênia pela derrota e, como solução, instaurou a deportação forçada. Em 24 de abril de 1915, um domingo de páscoa, os armênios amanheceram sem uma liderança local e receberam a notícia de que precisavam deixar o país.
O coral, que tem participação efetiva na celebração. Foto: Pedro Presott
O coral, que tem participação efetiva na celebração. Foto: Pedro Presott
O Artigo I da Convenção do Genocídio confirma que o ato, cometido em tempos de paz ou de guerra, é um crime contra o Direito Internacional e que a comunidade internacional deve, então, puni-lo. Em seguida, atesta no Artigo II: “Na presente convenção, se entende por genocídio qualquer dos atos mencionados, perpetrados com a intenção de destruir, total ou parcialmente, um grupo nacional, étnico, racial, ou religioso”.
“O genocídio é uma questão política. Todos sabem o que aconteceu, não precisamos provar isso. Mas é importante que seja reconhecido por todos os países, porque quando você reconhece um crime, ele não se repete”, diz Arthur Haroyan.
Em uma reunião estratégica, ao defender o extermínio dos judeus, o comandante do maior Holocausto da História, Adolf Hitler, citava o caso armênio para demonstrar sua confiança na impunidade: “Quem ainda se lembra do massacre dos Armênios?”.
Os mais de 7 milhões de armênios espalhados pelo mundo e os cerca de três milhões que ainda vivem na porção de terra que sobrou do país – mais da metade da nação foi anexada pela Turquia – querem mostrar que alguém ainda se lembra e que esse massacre jamais será esquecido.
Eles acreditam que o Brasil tem como obrigação reconhecer os crimes praticados pela Turquia segundo a Convenção do Genocídio, aprovada pela ONU em 1948, depois da incansável luta de Raphael Lemkin, o judeu vítima do Holocausto que cunhou a expressão. Genocídio, genos, família ou grupo; cídio, matança. Ou seja, o extermínio sistemático de uma raça ou etnia.
“A Armênia foi uma das primeiras colônias brasileiras. Temos, inclusive, mais armênios no Brasil do que turcos. É preciso que respeitem os armênios, porque eles são cidadãos brasileiros. E uma demonstração de respeito seria reconhecer o genocídio”.
Fonte: Opera Mundi

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