quinta-feira, 2 de maio de 2013

1989: O rasgão na Cortina de Ferro


No dia 2 de maio de 1989, a Hungria desmontou as cercas de arame farpado e desligou os alarmes em sua fronteira com a Áustria.
Soldados húngaros desmontam as cercas de arame farpado
"Não consigo nem acreditar que eu esteja aqui. Fui seguindo a onda dos refugiados. Cem metros antes da fronteira, eles pararam e todo o mundo correu para a Áustria."
Palavras de cidadãos da antiga República Democrática Alemã (RDA) no verão europeu de 1989. Eles estavam em fuga: fuga do Stasi, o serviço de segurança do governo comunista, da repressão e da escassez. 60 mil chegaram à Hungria – nenhum deles queria mais voltar. Todos tinham os olhos voltados para o pequeno rasgão na Cortina de Ferro, o resultado das reformas na Hungria. Uma esperança de integração na Europa.
Na primavera europeia de 1989, os políticos húngaros decidiram abrir a fronteira para o Ocidente. Dia a dia, 600 metros de arame farpado eram arrancados. A palavra de ordem era: "Desmontar e levar para casa". Em junho, até mesmo os ministros das Relações Exteriores dos dois países fronteiriços pegaram no alicate. O austríaco Alois Mock tomou a palavra: "Agradeço a meu colega húngaro este gesto simbólico. É o mais belo momento de minha carreira política e diplomática".
Fugir da frustração
Também os alemães-orientais assistiram a estas imagens na televisão. A frustração no país era grande naqueles dias, a fraude nas recentes eleições fora mais do que óbvia. Muitos queriam simplesmente ir embora e viam agora chegar a sua chance.
Eles viajavam para a Hungria, encontravam guarida na embaixada da República Federal da Alemanha ou escapavam pela chamada "fronteira verde". Vários deles foram apanhados durante a fuga. Uma testemunha relata: "Dois soldados nos agarraram e nós imploramos tanto. Eu ainda pensei: estávamos tão perto, por favor, nos deixem passar. Mas eles não deixaram".
No entanto, muitos conseguiram fugir para a Áustria. De lá, seguiam viagem para a Alemanha Ocidental. Em agosto, 15 mil pessoas se reuniram em Sopron, perto da fronteira austro-húngara, para um piquenique pan-europeu. Elas acabaram arrancando, com as próprias mãos, os últimos pedaços da Cortina de Ferro. Centenas de alemães-orientais conseguiram escapar naquela ocasião.
Muro de Berlim seria rompido em novembro de 1989
Obviamente a fuga ainda era ilegal, o que não impediu a Hungria de receber cada vez mais cidadãos da RDA, ansiosos por liberdade. O então ministro húngaro do Exterior, Gyala Horn, conversou com o então chanceler federal da RFA, Helmut Kohl, e partiu para deliberações em Berlim Oriental: "A situação tinha que ser resolvida. Os alemães-orientais vinham em número cada vez maior e queriam ir para a Alemanha Ocidental. Não podíamos mandá-los de volta para um país em que eles não desejavam viver".
Ventos sopram de Moscou
A decisão de abrir a fronteira para os fugitivos amadurecia. De início manteve-se sigilo. "Sou da opinião de que, quando se planeja uma coisa fora do comum, é preciso mantê-la em segredo o maior tempo possível. Mas a coisa toda não teria sido possível na época de Brejnev; ela só se concretizou porque, com Gorbatchov e Shevardnadze, um novo vento soprava em Moscou."
Finalmente, em 11 de setembro, a Hungria fez cair as barreiras para o Ocidente. As autoridades anunciaram: "Os cidadãos da RDA aqui presentes podem sair do país com os seus documentos". Essas palavras desencandearam uma explosão de júbilo. Numa sucessão de cenas tocantes, as pessoas atravessavam a fronteira, cantavam, gritavam de alegria.
O general Novacki se recorda: "Eu estava em minha varanda quando ouvi a notícia no rádio. Desde algum tempo já sabíamos o que aconteceria, mas então, que clamor, que explosão de fogos, vindos de onde se alojavam os refugiados alemães. Eu diria que este foi um dos momentos mais belos da história."

DW.DE

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