terça-feira, 14 de maio de 2013

As pioneiras do ar


Ao passo em que as mulheres lutavam pela igualdade de gênero na Terra, no céu, a batalha também foi acirrada. Pilotos de diferentes países deram asas à imaginação e conquistaram seu espaço, apesar das adversidades

Lucita Briza
13/5/2013
Amelia Earhart em Southampton
Amelia Earhart em Southampton
A invenção do avião e a consequente euforia pelo domínio dos ares uniu de forma feliz o impulso pelo progresso e a expectativa de liberdade que pairavam sobre o mundo durante as primeiras décadas do século XX, como ilustra o dossiê da Revista de História do mês de maio. O cenário era predominantemente masculino, mas não tardou para que algumas mulheres decidissem se arriscar por este caminho inóspito: além de lidar com as máquinas ainda rudimentares, elas tiveram que enfrentar a sociedade patriarcal para conquistar seu espaço no céu - e na terra. Do primeiro voo público de Santos Dumont, na Paris de 1906, às aventuras de Amélia Earhart nos anos 1930, muita água – ou muito vento – rolou.
A primeira corajosa a se aventurar pelos ares foi a francesa Elise Raymonde Deroche, uma moça de origem humilde, que um dia se nomeou Baronesa Raymonde de LaRoche na esperança de brilhar no teatro.  A experiência não deu certo e ela decidiu voar mais alto. Dois anos após a decolagem de Santos Dumont, Laroche pediu a um amigo piloto que lhe ensinasse os ossos do ofício e mudou de profissão. Trocou os vistosos chapéus e vestidos por um grosso pulôver de gola alta. Em março de 1910, tornou-se a primeira mulher do mundo a obter o brevê de piloto da Fédératon Aéronautique Internationale (FAI), mas nem tudo deu certo. De Laroche foi vítima de dois acidentes - um aéreo e outro de automóvel - que por pouco não lhe custaram a vida. A francesa chegou a servir ao Exército durante a I Guerra Mundial, como motorista. Mal terminou o conflito, se entregou à paixão, bateu recordes aéreos femininos, mas no ano seguinte, antes que conseguisse se tornar a primeira mulher piloto de testes do mundo, morreu durante um voo experimental, aos 36 anos.
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Os acidentes de percurso que, por vezes, se tornavam verdadeiras catástrofes aéreas eram muito comuns neste período. A belga Héléne Dutrieu (1877-1961), que também venceu inúmeras competições aéreas, se machucou em um deles. Por sorte, seu destino foi um pouco diferente: não morreu, mas se feriu com outras pessoas na queda de um avião que pilotava. O caso, aliás, chamou atenção da imprensa não pelos danos causados às vítimas. Mas pelo fato de que Dutrieu não usava espartilho por baixo dos trajes de aviadora. Mais conhecida como “Flecha Humana” por sua notabilidade como ciclista profissional, Dutrieu teve outras profissões: chegou a ser piloto de ambulâncias durante a Primeira Guerra e, depois, se tornou jornalista.
Do outro lado do Atlântico, nos Estados Unidos, a primeira a receber o brevê de aviadora, em 1911, foi Harriet Quimby (1875-1912), jornalista já famosa por sua coluna de teatro que passou a escrever sobre e tirar fotos das atividades aviatórias. Quimby causava sensação ao voar usando capa e capuz de cetim vermelho forrados de lã. Foi a primeira mulher a cruzar o canal da Mancha pilotando um aeromodelo, mas morreu meses depois durante uma apresentação aérea em um festival, em Bostom. Apesar de seus feitos, a maior heroína da aviação americana não foi ela. Coube a Amélia Earhart (1897-1937) levar o título de ‘Rainha do Ar’.
A  estrela despontou em 1922. Na ocasião, bateu o recorde nacional feminino de altitude.  Depois, só ladeira acima. A piloto empreendeu sozinha a
Anésia diante do avião em que realizou o vôo entre São Paulo e Rio de Janeiro, em setembro de 1922
Anésia diante do avião em que realizou o vôo entre São Paulo e Rio de Janeiro, em setembro de 1922
travessia do Atlântico Norte, entre Terranova e Irlanda, em 1932. Virou modelo de mulher: escrevia para jornais e revistas defendendo a igualdade entre os sexos. Sua popularidade a lançou em campanhas publicitárias e, com esse dinheiro, projetava dar a volta ao mundo. Mas não conseguiu completar a tarefa. Seu destino foi trágico: Amelia desapareceu no Pacífico após percorrer 35.000km. Para muitos, foi a melhor aviadora do mundo.
Os britânicos elegeram sua “Rainha do Ar” num dia de 1930, quando Amy Johnson (1903-1941) abriu as portas da cabine de seu biplano e se viu cercada por uma multidão na pista de corridas de Darwin, Austrália, depois de ter voado solo por 19 dias. Ao lado do marido, o também piloto Jim Mollison, bateu novos recordes. Durante a Segunda Guerra, chefiou o serviço da Força Aérea britânica para transporte de tropas e aviões de combate, mas acabou morrendo em uma missão sobre o Rio Tâmisa, num dia de mau tempo.

Asas verde-amarelas
Um pouco antes, no Brasil, duas jovens se preparavam para voar: Thereza de Marzo (1903-1986) e Anésia Pinheiro Machado (1902-1999). Aos 18 anos, Thereza, nascida em São Paulo filha de rico imigrante italiano, não conseguiu aprovação paterna para aprender a pilotar. Mas rifou seu gramofone e, com o dinheiro, pagou as aulas. E em 8 de abril de 1922, perante representantes do Aero Club Brasileiro, Marzo obteve o brevê nº 76, o primeiro atribuído a uma mulher por estas bandas. A moça chegou a bater alguns recordes brasileiros de aviação, mas, ao completar 350 horas de voo, decidiu se casar e abandonar a carreira.
Anésia Machado, por outro lado, permaneceu em alta por muito tempo: obteve também em São Paulo o brevê de nº 77, um dia depois da colega brasileira. Com isso, concretizou um sonho que lhe custara árduo esforço: estudiosa e oriunda de uma família falida, foi para a capital paulista trabalhar como vendedora e tradutora.  Só assim conseguiu pagar pelas aulas. Ela foi a primeira piloto brasileira a levar passageiro a bordo de um avião. Além disso, ao cruzar a Serra do Mar em direção a Santos, bateu o recorde feminino de altitude da América do Sul; e recebeu um prêmio das mãos do próprio Santos Dumont ao completar o reide São Paulo-Rio de Janeiro, em homenagem ao Centenário da Independência. Em 1954, foi proclamada pela FAI Decana Mundial da Aviação Feminina.
A alemã Hanna Reitsch  (1912-1979) foi a melhor piloto de testes em sua terra natal e sua história se cruzou com a de uma aventureira brasileira. Hanna começou voando de planador e, como volovelista campeã, visitou o Brasil, em 1934. Aqui, a moça conheceu  Ada Rogato (1910-1986) e acabou a inspirando a se tornar a primeira volovelista da América do Sul. Em 1936, Ada Rogato foi a terceira mulher a obter o brevê de aviadora e, como tal, sentiu que devia ir além de suas antecessoras. Se tornou a primeira paraquedista (1941), primeira piloto agrícola (1948) e também primeira brasileira a cruzar os Andes (1950). Além disso, disparou como maior recordista de voos solitários sobre o Brasil, três Américas, do Alasca à Terra do Fogo. No fim da vida, Rogato dirigiu o Museu da Aeronáutica de São Paulo.

Avião pilotado pela alemã Hanna Reitsch
Avião pilotado pela alemã Hanna Reitsch
Saiba Mais

INSTITUTO HISTÓRICO-CULTURAL da AERONÁUTICA (INCAER). História Geral da Aeronáutica Brasileira, Vol. 2. Rio de Janeiro. Editora Itatiaia Ltda.,1990
MOSCROP, LIZ and RAMPAL, SANJAY. The 100 Greatest Women in Aviation United Kingdom. Aerocomm Ltd., 2008
PINHEIRO, CARLOS DOS SANTOS. Aviadoras Pioneiras. Rio de Janeiro. Editora Fábrica de Livros – SENAI, 2003
PINHO, LUCY LÚPIA PINEL BALTHAZAR ALVES DE. Voo Proibido: os apuros de uma pioneira. Rio de Janeiro. L.L. Pinel Balthazar Alves de Pinho, 2000

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