sábado, 18 de maio de 2013

O gato que andou por todo o mundo


Em sua pesquisa sobre História da Bósnia, professor da Universidade de Sarajevo encontrou pegadas de um felino medieval em uma fonte do século XV. A foto que fez do achado virou sucesso na internet

Emir O. Filipovic


1/5/2013


Foto: Emir O. Filipovic


Dubrovnik é uma bela cidade na costa oriental do Mar Adriático, e conta com uma história longa e rica. Apesar de reconhecer a autoridade de venezianos, húngaros e otomanos ao longo de sua história, a cidade foi capaz de manter a sua independência até o início do século XIX. Apesar de ser um ótimo lugar para se visitar nas férias, a minha principal razão para frequentá-la é o trabalho. A pesquisa que faço é sobre a história da Bósnia durante a Idade Média, um período durante o qual a Bósnia e Dubrovnik tiveram relações intensas. Essa troca gerou muitos documentos, que estão, na maioria dos casos, nos famosos Arquivos da República de Dubrovnik.


Por isso, no verão de 2011, eu pesquisava em algumas fontes do século XV à procura de informações úteis para incluir em minha tese de doutorado. Foi quando me deparei com algumas páginas com estranhas manchas: eram pegadas de um gato, um gato medieval, que andou pela tinta e pelo documento deixando marcadas suas “digitais” para o futuro.


Tirei fotos, como eu costumo fazer sempre que encontro algo interessante ou incomum. No entanto, eu prestava mais atenção no conteúdo dos documentos do que nas pegadas. Quando o professor Erik Kwakkel, um historiador do livro que eu sigo na rede social Twitter, postou a imagem de um gato com raiva em um manuscrito medieval, eu pensei que ele e seus seguidores poderiam se interessar pelas fotos do meu documento. Eleretwittou para seus seguidores e recebeu tanta atenção que as pessoas começaram a entrar em contato comigo para saber mais sobre as origens do livro e outros detalhes que pudessem incluir em suas mensagens ou blogs sobre as pegadas. Em pouco tempo, jornais, revistas e emissoras de TV passaram a me escrever pedindo para comentar sobre o documento ou para fazer uma entrevista. Graças à mídia social e à internet, a foto que tirei tornou-se instantaneamente conhecida em todo o mundo!


No entanto, o sucesso dessa fotografia me fez pensar sobre a necessidade de promover a pesquisa histórica e sobre os meios para isto ser feito. Alguns historiadores certamente precisarão repensar a forma com que divulgam seu trabalho. A popularidade da fotografia me provou que ainda há interesse do grande público pelos tempos passados, e que essas coisas podem ser utilizadas a fim de difundir os resultados, tanto quanto possível. Esse sucesso também levanta uma velha questão: um pesquisador deve deliberadamente tentar fazer uma parte de seu trabalho mais interessante, a fim de trazê-lo para mais perto do público, ou ele deve se concentrar em fazer sua própria pesquisa para o bem de uma comunidade com um número bem menor de pares? Uma coisa é certa, a maioria das pessoas prefere ler uma mensagem de 140 caracteres com uma imagem incluída do que um enorme livro de 500 páginas ou um artigo científico especializado. Os dois aspectos não são excludentes e, independentemente da sua escolha, os historiadores devem estar cientes de que eles sempre terão uma audiência.


Emir O. Filipovic é professor da Universidade de Sarajevo.


Fonte: Revista de História

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