sábado, 11 de maio de 2013

Por trás da notícia


Disponíveis na internet, jornais e revistas antigos ensinam como a imprensa possui estreita relação com os contextos social, técnico e político

Tânia Regina de Luca
1/4/2013
A primeira página do jornal O Estado de São Paulo já foi ocupada pelo seguinte comunicado:
A data de hoje tem um significado particular para os brasileiros, pois assinala a passagem do aniversário natalício do Sr. Getúlio Vargas, Presidente da República. Este ano, como tem acontecido nos anos anteriores, a grande efeméride será lembrada em todo o território nacional, onde os seus patrícios o veneram não só pelas fortes qualidades de administrador, como também pelas altas virtudes de inteligência e bondade.
O mesmo acontecerá, certamente, nos demais países americanos, pois a sua política de boa vizinhança tem contribuído para estreitar ainda mais os laços de amizade entre as nações irmãs. E também do outro lado do oceano, nas terras onde soldados brasileiros lutam heroicamente para uma vitória que não será apenas nossa, mas da civilização em que nascemos.

Se o texto faz lembrar os discursos oficiais de autoglorificação das ditaduras, não é por acaso: ele foi publicado em 19 de abril de 1945, quando ainda vigorava o Estado Novo e o jornal paulista estava sob controle do governo. Este é um exemplo de como a imprensa produz documentos de grande significado histórico que merecem ser conhecidos e trabalhados em sala de aula.
Ao percorrer com seus alunos uma hemeroteca (coleção de periódicos) diversificada, o professor tem a oportunidade de trabalhar numa dupla direção: por um lado, tornar patente como, no decorrer do tempo, os conteúdos e os formatos variaram, mas também destacar que, num mesmo momento histórico, a imprensa periódica é diversificada e plural. No Rio de Janeiro e em São Paulo do início do século XX, por exemplo, conviviam jornais feitos por imigrantes ou migrantes, outros que apresentavam as reivindicações operárias, folhas sindicais, semanários que davam conta dos problemas de certo bairro e os elaborados por estudantes. E ainda havia a chamada “grande imprensa”, ou seja, empresas que contratavam não apenas redatores, repórteres, fotógrafos, desenhistas, revisores, críticos e analistas, mas também trabalhadores administrativos e operários que movimentavam as máquinas das quais saíam milhares de exemplares impressos, cortados, dobrados e prontos para serem distribuídos.
As transformações da imprensa ao longo do tempo se fazem notar tanto nos conteúdos – reportagens, notas policiais, entrevistas, esportes, crônicas, artigos, editorias diversas – quanto nas técnicas de impressão, que também têm uma história. O formato de jornais e revistas não é algo dado e imutável, pois é fruto da sociedade que o produziu. Assim, por exemplo, a publicação diária de trechos de romances – os famosos folhetins – era uma estratégia certeira para aumentar a vendagem, e escritores do porte de José de Alencar, Machado de Assis e Lima Barreto tiveram suas obras divulgadas nos jornais. Já a notícia, hoje vista como a própria razão de ser dos jornais, só mais recentemente ocupou o centro da cena.
Foi por volta de meados do século XIX que as imagens invadiram as páginas das publicações periódicas, trazendo consequências de grande alcance, uma vez que permitiram ampliar os horizontes dos leitores – mesmo dos que não eram alfabetizados – ao difundirem representações visuais de lugares, personagens e eventos. Os adjetivos “ilustrado” ou “ilustrada”, que também significavam a intenção de instruir e educar, passaram a compor o título de inúmeros periódicos, propagando novas sensibilidades e leituras de mundo.
Nas primeiras décadas do século XX, a fotografia pôde ser incorporada às páginas das revistas. Foi então que os instantâneos da vida urbana conquistaram semanários e mensários. É significativa, por exemplo, a diferença entre as capas da Semana Ilustrada, lançada no Rio de Janeiro em 1860, e a de A Cigarra, que começou a circular em São Paulo em 1914.
No interior de cada segmento da imprensa sempre houve diferenças marcantes. Aspectos visuais relacionam-se com o público que se quer atingir. É instrutivo observar a primeira página de O Jornal, órgão líder da cadeia de comunicação de Assis Chateaubriand,por volta de 1950: letra miúda, muitas colunas e texto denso. Comparando com a página inicial deÚltima Hora, fundado pelo jornalista Samuel Wainer em 1951 – numa empreitada que contou com o apoio de Getúlio Vargas, recém-reconduzido pelo voto popular à Presidência da República – fica evidente que a diagramação expressa concepções e objetivos em termos da visão política e do público que se pretende atingir. Além disso, jornais e revistas permitem o contato com linguagens variadas, tanto textuais quanto imagéticas, como fotografias, ilustrações, caricaturas, charges e gráficos. 
O predomínio da informação, com separação nítida entre opinião e notícia, resultou de um longo processo, iniciado em meados dos anos 1950, quando os lucros provenientes da publicidade ganharam vulto, embalados pela produção e pelo consumo de bens duráveis. Isso diminuiu a dependência econômica da imprensa em relação ao poder.
A situação política também tem implicações na trajetória da imprensa. Regimes de força frequentemente se empenham em silenciar as vozes discordantes e tentam controlar os meios de comunicação. O Estado Novo (1937-1945) não mediu esforços para difundir seus valores e ideais. O golpe de 1937, comunicado à nação por meio do rádio, então um veículo moderno, pretendia forjar um novo homem, deixar para trás o jogo democrático e liberal e instaurar um regime forte no qual a ligação entre o povo e o chefe de Estado fosse feita diretamente, sem intermediários. A nova Constituição imposta ao país naquele ano definia a imprensa como um serviço de utilidade pública, que deveria se afastar de questões partidárias, paixões políticas e valores contrários à nacionalidade. Para reprimir os opositores do regime e promover as ações do governo e seu líder, foi organizado, em 1939, o Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP). A partir de então, a difusão de qualquer conteúdo considerado inadequado resultava em punições que iam desde a advertência, perda de favores e isenções até a censura prévia, apreensão da edição, suspensão temporária ou definitiva da publicação, destituição do diretor e proibição do exercício profissional.
O papel a ser utilizado pela imprensa tornou-se outro importante instrumento de controle, uma vez que o fornecimento do produto sem as taxas de importação, que inviabilizavam financeiramente o empreendimento, dependia de autorização do DIP. Impunha-se um verdadeiro rosário desde o registro da publicação até a obtenção da liberação da cota de papel junto à alfândega. Essa imprensa regrada, controlada e apoiada pelo poder público, comprometida à força com o “engrandecimento” do país, desfrutava, segundo a visão governamental, de verdadeira liberdade. E o governo não se limitou a fiscalizar, adotando uma atitude ofensiva e fundando o matutino A Manhã e a revista Cultura Política, que circularam de 1941 a 1945. A observação dos periódicos em circulação naquela época aponta uma nítida tendência para a homogeneidade.
Até bem recentemente, o professor de história interessado neste tipo de documento tinha que se contentar com títulos contemporâneos, uma vez que exemplares mais recuados no tempo encontravam-se em arquivos e instituições de pesquisa, com acesso bastante controlado, tendo em vista as necessidades impostas pela preservação. Esse panorama está mudando rapidamente: várias instituições disponibilizam acervos integrais de periódicos em seus sítios na internet, com destaque para a Hemeroteca Digital Brasileira, da Biblioteca Nacional, que já acumula amplo rol de títulos, desde pequenas folhas do início do século XIX até grandes jornais e revistas que circularam no XX. Jornais como O Estado de São Paulo e a Folha de São Paulo, bem como a revista Veja,também apresentam versão digital de todos os exemplares publicados.
Essa política beneficia diretamente o ensino de história. Com sua variedade de títulos, formatos, organização de conteúdos, objetivos e público-alvo, os periódicos impressos permitem indagar a respeito de comportamentos, valores, crenças e hábitos sociais compartilhados, sem desprezar o fato de que sua produção também resulta de condições técnicas, ou seja, das possibilidades de impressão disponíveis num dado momento.

Tania Regina de Luca é professora da Universidade Estadual Paulista/Assis e autora de Leituras, projetos e (re)vista(s) do Brasil (Unesp, 2011).

Saiba mais - Bibliografia
GOMES, Angela de Castro. História e historiadores: A política cultural do Estado Novo. Rio de Janeiro: FGV, 1996.
PINSKY, Carla (Org). Fontes Históricas. 2. ed. São Paulo: Contexto, 2006.

Sites
Hemeroteca Digital Brasileira http://hemerotecadigital.bn.br
Arquivo Público do Estado de São Paulo, acervo Última Hora www.arquivoestado.sp.gov.br/uhdigital
Acervo de periódicos e coleções especiais da UNESP http://unesp.br/bibliotecadigital
Acervo Folha de São Paulo  http://acervo.folha.com.br/
Acervo O Estado de São Paulo  www.acervo.estadao.com.br

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