quinta-feira, 6 de junho de 2013

A primavera turca

Pesquisadora especializada na relação Brasil-Turquia, Monique Goldfeld, da FGV, contextualiza os protestos que começaram em praça de Istambul e se alastraram por todo o país

Ronaldo Pelli
4/6/2013
Na semana passada, um grupo de manifestantes se dirigiu para a Praça Taksim, mais especificamente para o parque Gezi, na parte europeia de Istambul, para protestar contra a destruição da área verde e a construção de um shopping center no lugar. A polícia tentou acabar com o protesto usando gás lacrimogênio e jatos de água. O protesto, então, cresceu e extrapolou os limites do pequeno parque, atingindo toda a Turquia. O foco não era mais apenas o parque, mas principalmente as políticas do primeiro-ministro turco Recep Tayyip Erdogan, que vem tomando posições cada vez mais conservadoras, e que apareceu na mídia desconsiderando as reivindicações dos manifestantes.
Para entender as motivações desse grupo de insatisfeitos, que remetem à história recente, e nem tão recente da Turquia, conversamos com Monique Sochaczewski Goldfeld, professora da Fundação Getúlio Vargas, especializada nas relações Brasil-Turquia. Sua tese de doutorado, O Brasil, o Império Otomano e a Sociedade Internacional: contrastes e conexões (1850-1919), mostra semelhanças entre nossas histórias, ao lembrar que, sendo “impérios periféricos”, os países buscavam reconhecimento na sociedade internacional.
Aqui, Monique mostra que os manifestantes não apareceram do nada, já tinham uma série de reivindicações anteriores. Ela conta também que há uma aceitação popular de Erdogan, que se reflete no fato de ele ter sido eleito três vezes, por conta do bom momento econômico. Mas que as recentes políticas conservadoras, como restrição ainda maior ao aborto, dificuldades de vender bebida alcoólica e até interferência na cor dos batons das comissárias de bordo de uma empresa aérea, desagradam à parcela da população mais liberal: Eles “temem uma ‘islamização’ do país”, diz ela.

Revista de História: Podemos dizer que há uma primavera Turca e a praça Taksim é a nova Tahrir?
Monique Sochaczewski Goldfeld: Ironicamente, a Turquia é a única que de fato tem sua revolta ocorrendo na primavera, mas vejo mais influência do que semelhança. Aqueles que protestam nas cidades turcas hoje fazem eficiente uso das redes sociais para burlar a imprensa turca que ostensivamente se cala sobre os ocorridos, assim como para se organizar frente à censura de uma maneira geral e à repressão por parte da polícia: foi incrível ver como em minutos, ao saber que a rede 3G próximo à Taksim Square tinha sido bloqueada, como divulgaram os códigos de acesso às redes wifi das redondezas, assim como telefones de médicos e de advogados que estavam atendendo aos manifestantes. Isso aliás parece ter a "Onda Verde" ocorrida no Irã em 2009 como precedente. O caso turco se difere, a meu ver, por ser de uma forte crítica às tendências autoritárias que o governo parecia seguir nos últimos tempos e não de revolta com uma ditadura de fato, como era o caso egípcio. Trata-se também de um movimento de classe média urbana secular, em sua maioria, sem grande participação dos trabalhadores.

RH: Onde fica Taksim e qual é a importância da praça na História da cidade e do país?
MSG: Taksim ficano lado europeu de Istambul, seu nome vem do árabe e significa algo como "divisão" ou "distribuição". Antigamente era lá que a água era distribuída para parte da cidade. Hoje ainda é um centro importante de distribuição, mas de transporte, com linhas de ônibus para os dois aeroportos da cidade, metrô e funiculaire [uma espécie de bondinho]. Conta com um importante monumento à República fundada por Atatürk, vários hotéis e restaurantes e é o início (ou o final) da superpopular entre moradores e turistas Istiklal Caddesi (Avenida Independência), uma rua enorme de pedestres repleta de lojas, restaurantes, centros culturais e afins. É tradicional local de manifestações das mais variadas, em especial durante o 1º de maio, algo como a Cinelândia aqui no Rio.
RH: Essas manifestações são protestos isolados ou representam uma série de insatisfações de uma parcela da população com a política do primeiro-ministro Recep Tayyip Erdogan? 
MSG: Os protestos começaram no parque ao lado de Taksim, chamado Gezi Park e não diria que foi tomado pela população. Aconteceram inicialmente manifestações pacíficas por um grupo de ambientalistas, sobretudo, que se opunha a destruição de enorme área verde para construção de um shopping center e de réplica de um prédio militar otomano, mas a repressão truculenta da polícia, usando gás lacrimogêneo e jatos d'água indiscriminadamente, foi gerando revolta em número crescente de habitantes da cidade e em poucos dias dezenas de milhares de pessoas tomaram as ruas não só de Istambul, em suas duas margens, como de dezenas de outras cidades turcas. Acho que os protestos são exatamente a gota d'água de uma série de insatisfações de diversos grupos: esquerdistas, kemalistas [movimento político iniciado por Mustafa Kemal Ataturk, primeiro Presidente da República da Turquia, de tendência mais liberal] ambientalistas, entre outros. Parte expressiva da população que não votou no do Partido Justiça e Desenvolvimento (cujas iniciais em turco são AKP) ou que se sente traída em relação a promessas feitas pelo partido.
Leia também
RH: Há uma tentativa de Erdogan se eternizar no poder?
MSG:  Erdogan (fala-se Erdoan, pois o 'g' é uma letra muda em turco) assumiu pela primeira vez em 2003 e está no momento em seu terceiro mandato, não podendo concorrer novamente para o cargo. Ocorrerá em breve uma revisão constitucional na Turquia e a questão do presidencialismo foi levantada por membros do AKP. Não ouvi falar em um "plano" para 2023 [quando se comemora centésimo aniversário da república turca], embora tenha ouvido falar em um planejamento estratégico do governo para 2023, nas áreas de educação, indústria e alta tecnologia.
RH: Qual é o histórico político recente da Turquia?
MSG:  A República Turca, estabelecida em 1923 sobre os escombros do núcleo central do Império Otomano, contou com vários golpes militares no passado, e proibiu durante boa parte de sua história a atuação de partidos islamistas, mas vinha seguindo no caminho pretensamente democrático nos últimos tempos. O bom momento econômico dá grande popularidade ao governo, mas desde seu segundo mandato cresce as tensões com os seus não-eleitores, seja em função de atitudes mais autocráticas ou de questões ligadas ao Islã.
RH: O primeiro-ministro estaria se alinhando com uma parcela mais conservadora da sociedade turca? Isso quer dizer mais religiosa ou não necessariamente?
MSG:  Esse é um dos motivos de grande inquietação por parte da população, sobretudo jovem e não-religiosa. Inicialmente, quando recém-chegado ao poder, o governo se mostrava bastante liberal e tolerante, mas aos poucos vem mudando nesse sentido. Nos últimos tempos atitudes como críticas a demonstração de afeto em público (que levou a um "beijaço" no metrô de Ancara há poucas semanas) e proibição de consumo de álcool entre 10 da noite e 6 de manhã e próximo a escolas e mesquitas revoltaram uma parcela importante da população. Alguns falam e temem uma "islamização" do país, sendo esses passos importantes nesta direção.
RH: Você vê algum paralelo com a história recente brasileira ou as diferenças entre as culturas são mais fortes que as suas semelhanças?
MSG: Em minha tese de doutorado dediquei um capítulo a comparar o Rio e Istambul como "capitais periféricas" do século XIX. Era bastante comum os viajantes compararem o impacto da beleza de ambas ao se aproximar de seus portos, assim como o desapontamento ao desembarcar em ambas as cidades e se deparar com a sujeira ou escravidão em suas ruas. Hoje também não é raro ouvir de viajantes brasileiros que Rio e Istambul, em especial, tem similaridades na beleza das cidades e na simpatia das pessoas. Pode-se tranquilamente se adicionar a isso a sanha por obras por que ambas passam e a grita por parte da população por conta da falta de transparência ou negociação, sendo Istambul em proporções bem maiores, obviamente.
RH: O processo de gentrificação pode estar sendo a responsável por acabar com a memória e, consequentemente, identidade da cidade de Istambul?
MSG:  A chamada gentrificação, o aburguesamento de áreas tradicionalmente ocupadas por pobres, é uma questão em comum também, sendo o caso de Talar Basi, relativamente próximo a Taksim, o mais conhecido. Quanto à "memória e a identidade" de Istambul é interessante de se observar o foco, quase obsessão, com seu passado otomano. Diferente do que ocorreu durante parte expressiva da República Turca, quando se desdenhava do passado otomano, em especial por seus dias finais de humilhação e ocupação, o governo do AKP se volta avidamente para este [passado Otomano]. O episódio da tomada de Constantinopla, em 1453, em especial, vem sendo tema de museu ("Panorama 1453"), filme ("Conquest 1453") e de festividades, como a da semana passada, no Chifre de Ouro, por conta dos 560 anos do feito. Não por acaso vê-se referências à Erdogan, por parte de seus críticos como "sultão" Erdogan.

Nenhum comentário: