sexta-feira, 7 de junho de 2013

Guerras Narradas

No livro O que os Cegos Estão Sonhando?, lançado em 2012, Noemi Jaffe traz o testemunho de sua mãe sobre o ano que passou em dois campos de concentração nazistas. Outros relatos de sobreviventes juntam-se neste mês à extensa lista de diários do holocausto. Leia um trecho
por Redação BRAVO!


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O que os Cegos Estão Sonhando?
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Ficção e realidade
Faz parte do senso comum e, aparentemente, também da lógica, afirmar a separação entre ficção e realidade. A ficção é falsa e a realidade é verdadeira. Mesmo assim, não existe consenso, nem pessoal, nem filosófico, nem epistemológico, sobre o significado da verdade, embora se diga, com muita facilidade, que a realidade é verdadeira. Da mesma forma, a própria ideia de realidade, ainda mais do que a de ficção, também é maleável e polivalente. Como, então, separar tão facilmente a realidade da ficção? E, principalmente, como estabelecer o que no passado é a realidade?
O passado só se reconhece no presente. Ele só existe no presente, pela lembrança de quem o rememora. O passado está inevitavelmente ligado às pessoas, à linguagem, à sua narração, à sua compreensão por quem o recupera, seja por lembranças, seja por objetos que vêm dele. Cada objeto que se encontra vindo do passado depende da interpretação de quem o encontra para receber uma dimensão e um lugar no passado e no presente. O passado, portanto, é uma espécie de invenção pessoal e coletiva, sempre esfumado por conveniências, circunstâncias, subjetividade, mudanças de hábito e de linguagem, imprecisões, dificuldades de todo tipo.
O passado é uma espécie de sonho em vigília, de futuro às avessas, em que as hipóteses parecem ser mais verossímeis, porque carregadas de comprovações e testemunhos.
Mas é claro que o passado sempre contém ficção e não há como separar, nele, a invenção e o fato. Nem uma fotografia do passado está livre de conteúdo ficcional.
O que dizer, então, do presente? Como separar a percepção do que se chama de realidade dos limites imaginários de quem a percebe? É o acordo comum e tácito sobre o que está se passando que determina o que está acontecendo, o que é real? E até que ponto esse consenso é verificável e, se fosse possível, como verificá-lo? Não é possível. O consenso é simplesmente superficial, ou melhor, sensível e convencional. É este acordo superficial e necessário que permite a todos (ou quase todos) partilharem determinados limites comuns como as horas do dia, o ambiente, as cores, os cheiros, os sons, o clima, a comunicação geral. Sem esse acordo seria impossível a vida em sociedade.
Mas, para além disso, como estabelecer o que cada um compreende como real? Quantos mal-entendidos não ocorrem diariamente, por causa de percepções diferentes do que se disse, do que se viu, do que se ouviu? Quantas pessoas não veem, exatamente nas mesmas condições de tempo e espaço, coisas absolutamente distintas, às vezes até contraditórias? É claro que a noção de realidade é ampla o bastante para abarcar múltiplas, quase infinitas interpretações do que é real. Se alguém vê, numa cena cotidiana, as pessoas e o outro vê as árvores, outro vê números e outro vê lajes e pilares, tudo isso é real. Não há problemas ou dúvidas aqui. Mas quantas variações existem nessas percepções e quantas e quais delas são carregadas de necessidades pessoais, subjetivas, experiências únicas? Quantas delas são mesmo parte exclusiva do presente e não se tornam lembrança, ou seja, passado?
A necessidade de separar a realidade da ficção está muito mais ligada a uma fraqueza do que a uma clareza. A entrada da ficção na realidade, a aceitação de sua inseparabilidade é perturbadora para os limites que cada um estabelece para si, e isto em ambos os lados. Tanto para aqueles que insistem em expulsar a ficção, como a mãe, como para os que insistem em expulsar a realidade, como a filha. Se a filha se incomoda tanto com o fato de que há um consenso em acatar a realidade como verdade e a ficção como mentira, é porque, de alguma forma, ela aceita essa separação.
O certo é que a mãe, por ter vivido tão maciçamente algo que é inapelavelmente real, não suporta as intervenções súbitas do inesperado em seu cotidiano tão bem armado, e as rechaça como ficção. E a filha, por ter tido uma mãe que viveu esta verdade, por não tê-la vivido, por só conhecer os fatos parcialmente, no passado e por alguém que prefere esquecê-los a lembrá-los, precisa ficcionalizar quase tudo o que vive e acaba rechaçando os limites do real como impertinências opressivas. Mas nada, felizmente, é tão claro ou fácil.
Há uma dimensão na vivência do sofrimento que não é mesmo passível de invenção e narrativa. É o que é, é o que foi, foi o que é. Não existe forma de apreender a “coisidade” imanente desta coisa, que é sem arestas, sem poréns, sem brechas. Nada pode ser mais o ser em si mesmo do que a dor física extrema impingida por uma pessoa a outra. O injustificado, o absurdo, o radical, o sem nada, o vazio vazio. Como habitar esta dor, depois que ela termina, depois que a “vida continua”? Como localizá-la em si? O outro parte, some, morre, desparece, mas a dor que se sentiu fica ali. O outro deixa a dor para quem a viveu e ela não tem nome nem lugar e não pode tornar-se história. Quem ouve a pedra, emudece. Caminha-se com ela, mas não é possível transformá-la em mais nada.
Isto também assusta a filha; a possibilidade de que existam coisas que não podem ser contadas. Por ninguém. Há uma forma sublime de narrar a beleza, o infinito, o desconhecido. Mas a forma sublime de narrar o horrível parece pecar por princípio: Como? Talvez somente como Beckett ou Celan, invadindo a linguagem e quebrando-a constitutivamente, de modo que não haja mais o rastro semântico e sintático que subordina tudo a uma compreensão sucessiva, causal. Nesse registro, a narração do fato é sempre uma tentativa fracassada e medíocre de dar corpo e nome ao nada.
— Mãe, se você nunca se interessou em escrever, por que você quis escrever este diário, lá em Estocolmo?
— Para mostrar para você!
Esta resposta da mãe à pergunta da filha novamente revela como a mãe confia na sabedoria do destino. É como se ele já soubesse e como se a filha tivesse nascido para ler o diário, para dá-lo a público e também seria por isso que ela o teria escrito, já que não tinha o hábito de escrever. Ninguém, dentre os conhecidos dela, escreveu.
É uma espécie de narrativa que cada pessoa vai tecendo, por baixo e por dentro de si mesma, para que os fios permaneçam e se cruzem, continuando e se desenvolvendo em outras histórias. De alguma forma, o diário dela existia calado, mesmo quando ela não o mencionava, quando ninguém sabia de sua existência. Ninguém sabe, nem saberá, onde ele ficava localizado na sua vida, antes de ela mencioná-lo. A filha também não se lembra de quando ouviu falar dele pela primeira vez; se era ou não um componente da sua infância. As irmãs também não se lembram. Mas por quê, em algum dia da adolescência, a filha mais nova sentiu tanta curiosidade por este diário? Sua terapeuta, em meados dos anos 1990, teve a ideia de transformar o diário da mãe em um livro. Dizia que a alta da terapia da filha seria simbolizada por esta tradução do diário. Ela via nisso uma apropriação pela filha de sua própria memória, da memória dos pais e sua realização em objeto, ou, em linguagem psicanalítica, uma elaboração concreta de sua história. Uma espécie de cura. A filha, nesta época, agilizou a tradução, a psicanalista escreveu uma introdução ao livro, o livro foi enviado a Moacyr Scliar, no Rio Grande do Sul, que prontamente atendeu ao convite para escrever um préfacio. O projeto foi apresentado a uma editora que, depois de algum tempo, propôs lançá-lo como um livro infanto-juvenil. Acabou ocorrendo uma competição entre dois editores, dentro da mesma empresa, cada um propondo um diário de guerra diferente. O da mãe era um deles e o outro acabou vencendo a concorrência. Mas, já nos anos 2000, por motivos que a filha também não recorda, reapareceu o desejo de publicar esta história. Sua própria filha também escreve e ela pensou em irem as duas até Auschwitz, para verem alguns dos caminhos feitos pela mãe e avó e para conhecerem esta história mais de perto.
E, aos poucos, a filha vai entendendo e concordando que sim, a mãe escreveu o diário para mostrá-lo a ela. Não como uma missão, nem como o sentido de sua vida, nem mesmo como uma necessidade incontornável ou uma dívida para com a mãe. É uma co-incidência de desejos e linguagens que, de alguma forma, se ajustam: o apego à escrita e à memória, por parte desta filha, e o fato de ela ser a mais nova e de ter tido mais acesso às histórias dos pais, que já estavam em mais condições de contá-las do que às outras filhas.
A mãe quer muito ver o livro pronto. Ela dá ideias de títulos para a filha: 1944. Sua impressão deve ser a de que a filha está recontando sua história de forma mais bem escrita, mais arranjada do que ela pode fazer. Como explicar à mãe que não é isso o que ela está fazendo? Qual será a reação da mãe, quando ela vir que este livro é um apanhado de retalhos, de divagações, de memórias soltas, de tentativas rasgadas de interpretações misturadas a lembranças coladas?
Fonte: Bravo!

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