sábado, 1 de junho de 2013

Jazz e outros estilos musicais "degenerados" foram alvo dos nazistas

Há 65 anos, exposição em Düsseldorf era dedicada ao que os nazistas entendiam como "música degenerada", difamando sobretudo compositores e músicos judeus e negros.
O fanatismo racial dos nazistas não poupava nada, nem mesmo a música, que na Alemanha nazista deveria ser pura, livre de todas as influências não alemãs e não arianas.
Para que as pessoas entendessem melhor esse conceito, a exposição Entartete Musik (Música degenerada) foi aberta ao público no dia 24 de maio de 1938, em Düsseldorf. Tudo o que não se encaixava no conceito musical dos nazistas estava representada em pôsteres, fotos, músicas e textos.
Os estilos musicais atacados na mostra incluíam o schlager, as operetas, a música atonal e especialmente a música de compositores judeus e o jazz, apresentado como "música de negros". A exposição foi o começo de uma campanha sem precedentes: nenhum dos músicos incluídos nela tinha permissão para continuar exercendo sua profissão no estado nazista. A proibição foi o primeiro passo, seguida da perseguição, da deportação ou do assassinato.
A caricatura de Jonny
Saxofonistas negros eram um dos alvos do nazismo
A exposição foi concebida para afastar as pessoas das músicas expostas, segundo as intenções do organizador Hans Severus Ziegler, um fervoroso admirador de Hitler que era o diretor do Teatro Nacional de Weimar. No discurso que abriu a mostra, ele disse: "O que foi reunido para essa exposição é uma verdadeira festa das bruxas, uma imagem da arrogância judaica e uma completa imbecilização espiritual".
A capa do folheto da exposição deixava claro o que Ziegler queria dizer. Ela apresentava uma caricatura depreciativa de Jonny, um músico negro de jazz que era o protagonista da ópera Jonny spielt auf (Jonny começa a tocar), de Ernst Krenek, muito popular na época. Jonny tocava saxofone, "instrumento musical de negro" para os nazistas.
Ele também foi popularizado pela canção Jonny, wenn du Geburtstag hast (Jonny, quando você fizer aniversário), de Friedrich Holaender, que se tornou popular através da interpretação sensual de Marlene Dietrich. No panfleto, Jonny era mostrado como um negro com feições de macaco, que trazia uma estrela judaica em vez de um cravo na lapela. Ele era um um símbolo do que os nazistas consideravam "música degenerada".
"Música negra ajudeuzada"
A reconstituição da exposição "Música Degenerada"
No começo da década de 1930, Ziegler já havia manifestado sua aversão ao jazz, dizendo que o gênero colaborava para "uma vitória da cultura negra". A ópera-jazz de Krenek, que havia estreado em Leipzig em 1927 com grande sucesso e desde então era apresentada em diversas cidades alemãs, era um exemplo de "música negra ajudeuzada".
"Um povo que de maneira quase histérica reverencia Jonny ficou doente da mente e do espírito, internamente confuso e sujo", escreveu Ziegler no panfleto da exposição. Essa visão de mundo orientou toda a exposição.
Antes aclamados, compositores de opereta judeus, como Emmerich Kálmán, Leo Fall, Paul Abraham ou Leon Jessel, e cantores famosos, como Richard Tauber, foram retratados em caricaturas como doentes mentais. Cabines de som permitiam aos visitantes ouvir o "poder corrosivo" do jazz e do swing. Cartazes ridicularizavam Arnold Schöneberg e seus seguidores, que "zombavam dos clássicos e depreciavam tradições sagradas" com sua música atonal. Paul Hindemith também foi condenado como "teórico da atonalidade".
Reconstituição viaja pelo mundo
A versão atual é itinerante e já passou por mais de 40 países
A exposição ficou em cartaz em Düsseldorf até 14 de junho de 1938. Depois disso, ela passou por Weimar, Munique e Viena. O começo da Segunda Guerra Mundial, em 1939, impediu que fosse levada a mais cidades.
Se a exposição nazista Entartete Kunst (Arte degenerada) foi reconstituída e exposta diversas vezes desde 1945, Entartete Musik foi por muito tempo esquecida. Somente 50 anos depois, em 1988, o musicólogo Albrecht Dümling criou uma reconstituição comentada da exposição. Desde então, ela já passou por mais de 40 países, incluindo Israel, Holanda, Suíça e Estados Unidos.
Novas pesquisas sobre a política musical dos nazistas, principalmente em relação ao jazz e à opereta, permitiram a Dümling expandir sua reconstituição em 2007. Com o título Das verdächtige Saxophon. 'Entartete Musik' im NS-Staat (O Saxofone Suspeito. 'Música Degenerada' no Estado nazista), a exposição itinerante conta hoje com 80 peças. Essa extensa documentação não apenas mostra como os nazistas se utilizaram da música e perseguiram músicos – ela é também um alerta para que adjetivos como "degenerada" e "impura" sejam para sempre coisa do passado.

DW.DE

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