quarta-feira, 12 de junho de 2013

"Jornalistas não devem ter pretensão de fazer história com notícia", diz Jaime Pinsky

Guilherme Sardas 10/06/2013 18:20
Seja concedendo entrevistas, participando de debates ou colaborando com artigos, o historiador Jaime Pinsky é personagem frequente nos principais jornais e revistas do país. Com mais de 20 livros publicados, o doutor e livre-docente pela Universidade de São Paulo (USP) e professor aposentado da USP, Unesp e Unicamp, acaba de lançar  "Por que gostamos de história", uma seleção de textos produzidos para a grande imprensa, pela editora que fundou em 1987, a Contexto.

Crédito:Divulgação Editora Contexto
Jaime Pinsky
No bate-papo abaixo, Pinsky fala do tratamento dado ao conhecimento histórico nos veículos brasileiros, o nível dos profissionais das redações e daquilo que, para ele, é uma falha na abordagem histórica: o jornalista que, fazendo jornalismo, busca fazer história. "É importante que ele não tenha a pretensão de fazer história com a notícia, o que não quer dizer que ele não possa escrever um livro de história. Mas, aí ele vai usar o instrumental do historiador". 

Confira a entrevista na íntegra!

IMPRENSA – Você trata no livro da diferença do conceito de notícia e de história. Em que sentido não delimitar bem isso pode ser um problema?
Jaime Pinsky -  O compromisso do repórter ou do colunista é de trabalhar a notícia da melhor forma possível. Ele tem que verificar se a fonte é adequada, fazer a checagem, buscar o outro lado. É uma preocupação com o efêmero. Por exemplo, faz-se um experimento com uma pílula que poderá impedir a ovulação das mulheres, o que virou a pílula anticoncepcional. O jornalista não tem condição de saber se isso será um fato histórico. É muito importante que ele não tenha a pretensão de fazer história com a notícia. Mas, veja bem, não nego a possibilidade de um jornalista escrever um livro de história, mas, neste momento, ele estará usando o experimental do historiador.


É possível dizer se os equívocos jornalísticos em relação à história aumentaram?
Eu não ouso fazer isso. O que eu posso dizer é que há um vazio hoje em dia. Não temos no Brasil historiadores que são explicadores do país. Então, esse vazio, talvez, esteja sendo preenchido bem ou mal por especialistas de outras profissões, como economistas, sociólogos e jornalistas também. 

Por que isso tem acontecido?
Tivemos grandes historiadores na primeira metade do século XX, como Caio Prado Jr., Sérgio Buarque de Holanda, Gilberto Freyre, Florestan Fernandes, Octavio Ianni - mesmo que os dois últimos tivessem outras profissões. Eram todos grandes explicadores do Brasil. Hoje, com a expansão dos cursos de pós-graduação no Brasil inteiro, os historiadores trabalham com temas cada vez mais regionais, específicos e sobre períodos cada vez mais delimitados. Estão trabalhando com pedaços de história. Não tenho dúvida de que, dentro de alguns anos, vão surgir novos explicadores que vão juntar esses pedaços. Ao mesmo tempo, há pessoas mais impacientes – o que acho bom – que buscam em suas especialidades uma explicação que o historiador no momento não está dando. 


Há muitos equívocos histórico perpetuados pelos veículos?
Sem dúvida alguma. Vou dar um exemplo clássico. Na maior parte dos países, a nação precedeu o Estado – ou seja, o povo tinha um sentimento de identidade e por conta dessa identidade nasceu o Estado nacional, como é o caso da França moderna ou de Israel. No Brasil, foi o contrário. Quando nasce o Estado nacional brasileiro, a língua portuguesa não era sequer a mais falada no país. A maioria falava as línguas tupis. Se um fato básico como esse sequer é lembrado ou discutido... E, óbvio, acabam colocando esses erros nos livros e a imprensa e até historiadores acabam repercutindo. Isso não é um vício exclusivo da imprensa.

Qual seria um problema exclusivo da imprensa brasileira?
A imprensa dissocia excessivamente a categoria de temas. Quando está tratando temas políticos, trata rigorosamente a política. Quando trata da economia, trata rigorosamente da economia. Quando trata de um tema supostamente social, trata rigorosamente sob o ponto de vista supostamente social. 


Como você vê o nível dos jornalistas que recorrem a você?
É muito variável. Você tem jornalistas que estão há mais tempo na profissão e têm uma formação mais sólida, e é uma delícia conversar com eles. Tenho enorme prazer. Outros se atêm rigorosamente a pontas de iceberg. Não conseguem fazer sequer perguntas corretas. É um problema de formação e de cultura histórica.

É um problema nosso ou de outros países também?
Eu diria que em países como França e EUA, que conheço melhor, você tem profissionais com base bastante sólida. Fui entrevistado poucas vezes por veículos nesses países, mas fui muito bem entrevistado, com perguntas oportunas e intelectualmente desafiadoras. Outro dia, alguém de uma redação que não era pequena aqui de São Paulo disse que queria discutir comigo o livro de “História da Cidadania” [Contexto, 2003; com coautoria de Cala Bassanezi Pinsky]. A primeira pergunta da jornalista foi: “Professor, do que se trata o livro?”. Ela não tinha lido uma linha do livro.


Neste livro mais recente, você traz casos relacionados à imprensa. Quais destacaria?

Há dois casos bem sintomáticos. Um deles é do Egito, da primavera Árabe. Toda a imprensa estava eufórica, repercutindo o fato de que não seria possível a Irmandade Muçulmana chegar ao poder, porque tinha um número insignificante de intenção de votos. Escrevi um artigo na ocasião. Em qualquer processo revolucionário, quem chega ao poder é o grupo mais bem organizado, não a maioria. Isso é uma formação elementar, que aconteceu na Rússia, na China, em Cuba. O fato de ela ter chegado ao poder não quer dizer que eu seja um historiador excepcional, mas porque olho as coisas com olhar histórico. A mesma coisa com a eleição do Obama, que foi bombardeado unanimemente pela imprensa mundial como se fosse um fato que ia mudar os EUA de ponta a ponta. Escrevi um texto que está nessa seleção, mostrando que isso não vai acontecer. Há uma certa ingenuidade nos jornalistas, que entram na esparrela coletiva de uma forma acrítica.


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