sábado, 22 de junho de 2013

NOTA DA ASSOCIAÇÃO NACIONAL DE HISTÓRIA


NOTA DA ASSOCIAÇÃO NACIONAL DE HISTÓRIA (ANPUH-BRASIL) SOBRE OS MOVIMENTOS REIVINDICATÓRIOS QUE TOMARAM AS RUAS DE DIVERSAS CIDADES BRASILEIRAS NAS ÚLTIMAS SEMANAS

Ao longo da História, movimentos massivos foram, seguidamente, responsáveis por profundas transformações sociais, pela ampliação dos espaços de cidadania, pela emergência ou fortalecimento de direitos sociais e políticos, pela construção de sociedades mais igualitárias, justas e democráticas. Basta lembrarmos-nos das revoluções sociais dos séculos XIX e XX, como a Francesa e a Russa, que não obstante seus descaminhos posteriores, iniciaram com multidões nas ruas exigindo melhores condições de vida e trabalho, e procurando por fim à opressão política e à exploração econômica. Muitos destes movimentos foram violentamente reprimidos, mas deixaram como herança programas, ideais e projetos de emancipação. Para ficarmos no caso da história brasileira recente, citamos os casos dos movimentos de 68 contra a ditadura civil-militar instalada em 1964, e aqueles que clamavam por Diretas Já no início da década de 80, os quais, diga-se de passagem, foram ou criminalizados ou simplesmente ignorados pelos grandes veículos de comunicação.

Não obstante, muitos movimentos de massa seguiram outros caminhos e tiveram outros resultados. Alguns impulsionaram e serviram de base a movimentos totalitários ou autoritários, como o nazismo, o fascismo e as ditaduras de segurança nacional na América Latina, inclusive no Brasil, seguidamente em nome da moralização da vida política, da oposição aos partidos constituídos, da luta contra a corrupção e a inflação. Sabemos que a história não se repete e que cada época, apesar de catalisar antigas tradições e processos de longa duração, tem a sua originalidade. Os movimentos que irromperam nas ruas das grandes cidades brasileiras nas últimas semanas guardam a marca da sua época: 
organizam-se a partir de redes sociais, englobam grupos e projetos muito diversos, conectam-se entre si e com outros congêneres tanto no plano nacional quanto internacional. Suas práticas e reivindicações provocam espanto e não se pode prever o seu desfecho.

A ANPUH-Brasil confia que o efeito destas mobilizações será benéfico para toda a sociedade, em especial para os setores mais despossuídos, possibilitando uma apropriação mais igualitária dos serviços públicos, uma maior politização da juventude, uma gestão menos privatista das cidades e um diálogo mais direto entre sociedade civil e governantes. Por outro lado, repudia a violência contra o patrimônio público e a integridade física e moral de qualquer cidadão; as posturas que atentam contra o Estado democrático de direito e seus instrumentos, como o Parlamento e os partidos políticos; os projetos que, em nome de certo moralismo, põem em xeque o valor da democracia participativa; e a postura dos grandes veículos de comunicação que criminalizam os movimentos sociais ou tentam instrumentalizá-los em prol de projetos conservadores. 

Não menos importante, a ANPUH-BRASIL solidariza-se com estudantes e trabalhadores que em nome do direito de frequentar a praça que é do povo e fazer dela espaço de expressão de seus anseios, foram reprimidos pelas forças públicas que, ao contrário, têm a obrigação de protegê-los. Foi desta forma que se construiu a democracia. Na rua, à moda plebeia. Que esses movimentos possam retomar e radicalizar a antiga, mas não inatual, bandeira dos revolucionários de 1789: “Igualdade, liberdade e fraternidade”!

Fonte: ANPUH

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