domingo, 2 de junho de 2013

Quando o humor vira arma contra ditaduras

Fazer piada em regimes autoritários impõe riscos, mas pode ser eficiente para levar a população à reflexão sobre problemas do sistema vigente que não podem ser abordados abertamente.
Quando, em 2008, Maung Thura foi condenado a quase seis décadas de prisão, não se intimidou perante o regime militar de Mianmar, então um dos mais fechados do mundo. Algemado e a caminho da penitenciária, entreteve seus fãs com o mesmo discurso que usara durante anos para criticar a ditadura. Zarganar, como é conhecido, perdia a liberdade, mas não a piada – sua principal arma e, ao mesmo tempo, escudo.
"Os americanos dizem que um deles escalou o Everest com uma perna só. Os britânicos dizem que, com apenas um braço, um deles atravessou o Atlântico nadando. Um birmanês diria: 'Isso não é nada! Aqui um governante comandou o país por 18 anos sem cérebro”, brincou o comediante mais famoso de Mianmar.
Zarganar foi preso e torturado por suas piadas
Encontrados aos montes nas democracias, comediantes como Zarganar são figuras raras nos regimes autoritários. Hoje, ele está livre – foi anistiado dentro do processo de abertura política de Mianmar. Mas durante anos sofreu com perseguições, condenações e até tortura, como alega.
A ousadia fez de Zarganar mundialmente conhecido. O comediante alemão Michael Mittermeier é um dos seus amigos e apoiadores. Quando soube da prisão de Zarganar, viajou imediatamente para Mianmar e participou de um documentário, dirigido pelo diretor britânico Rex Bloomstein, sobre o comediante.
“Ele me perguntou se eu apoiaria um colega que foi preso por causa de suas piadas. Aceitei sem hesitar”, conta o alemão.
O comediante e o diretor viajaram para a prisão onde estava Zarganar. Logo em seguida, porém, as câmeras foram descobertas e eles tiveram que deixar o país. Mittermeier já tinha quase perdido as esperanças, quando Zarganar foi solto.
“Foi um milagre ele ter sido libertado tão rápido”, relembra o alemão.
Após a libertação, Zarganar se apresentou em palcos de Londres, Berlim e Dublin, onde pôde brincar com os absurdos e as contradições do regime birmanês. Hoje, Mianmar passa pelo início de um processo democrático. Atualmente, por iniciativa de Zarganar, um instituto de arte, cultura e mídia está sendo construído para incentivar o trabalho de outros comediantes.
***Achtung: Nur zur mit pr|emami abgesprochenen Berichterstattung verwenden!***
Der Comedian Michael Mittermeier bei seiner Bühnenshow Achtung Baby!
Wer hat das Bild gemacht? Ralph LarmannO comediante alemão, Michael Mittermeier
"Os comediantes não podem fazer grandes mudanças na sociedade, porém, podemos denunciar os abusos e incitar discussões. E isso já vale alguma coisa”, diz Mittermeier.
O sociólogo Anton Zijderveld, que se tornou conhecido por sua “sociologia do humor”, estudou o papel que a comédia desempenha na sociedade.
“O humorista brinca com os valores sociais. É gerada uma tensão, e assim, se transforma em piada”, opina.
Na Síria, o exílio como saída 
Brincar com os valores rígidos de um sistema é como brincar com fogo. Segundo Zijderveld, o humor político não pode mudar uma sociedade, mas o efeito psicológico da piada é importante. "Por isso, o humor é tão severamente punido em um regime [ditatorial]. Para evitar o fortalecimento da oposição”, comenta o sociólogo.
No Egito, é o humorista Bassem Youssef que alerta a população contando piadas sobre o governo. O comediante chegou a parodiar a ditadura de Hosni Mubarak, que governou o Egito até 2011, em um programa online. Atualmente, em seu programa de televisão, ele faz poucas piadas relacionadas ao governo de Mohamed Morsi. Mas até hoje, Youssef é regularmente interrogado e acusado por piadas que seriam insultos ao islamismo.
O humor contra o governo sírio também tem um representante: o cartunista Ali Ferzat. Ele foi perseguido e torturado em 2011 por defensores do regime. Chegou a ter os dedos quebrados por ter supostamente ofendido o presidente Bashar al-Assad. Ferzat não se abateve, mas teve que deixar o país: suas mãos melhoraram, e ele– agora exilado no Kuwait – desenha mais do que nunca.
O caricaturista Ali Ferzat protesta na França contra a violência no país sírio
Poucas pessoas no mundo têm talento e coragem para fazer as pessoas rirem de situações terríveis e nada engraçadas. O ator e comediante Fatih Cevikkollu, famoso pelos shows de cabaré nos palcos alemães, diz ter muito respeito pelos colegas no exterior que utilizam o humor contra o regime de forma tão corajosa.
“O riso a melhor forma de mostrar os dentes”, diz Cevikkollu. “E são poucos os que conseguem resistir ao riso. Isso acontece porque não se permitem pensar e manter os valores humanos acima da doutrina do regime.”
Cevikkollu critica fortemente o governo alemão em suas apresentações, mas isso não traz consequências negativas. O ator diz que em outros países é muito mais difícil: "Na Turquia, por exemplo, fazer comentários políticos sobre o sistema é perigoso e a pessoa pode ser ameaçada, presa, ou ambos”.
Até mesmo o humor negro mais pesado em algum momento chega ao fim. “Quando é realmente forte, quando as pessoas sofrem, então o humor também decai . Em regimes totalitários, como o da Coreia do Norte, o humor político é completamente suprimido, e então praticamente não existe isso por lá”, diz Zijderveld.
Na China, entretanto, há na internet um movimento anônimo de cartunistas, que não colocam nem mesmo o nome artístico no desenho. Já o conhecido cartunista “Fengxie” (algo como "camarão doido"), consegue com frequência driblar a censura online: o governo de Pequim ainda não tem um programa de computador que consiga rastrear as sátiras em forma de desenho.

DW.DE

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