terça-feira, 9 de julho de 2013

Grande artista, ser humano abominável

Comemorado amplamente este ano, inclusive no Brasil, o bicentenário do compositor Richard Wagner traz discussões sobre sua obra e aversão aos judeus

Vivi Fernandes de Lima
8/7/2013
Com a celebração dos 200 anos de Richard Wagner este ano, os aficionados pela obra do compositor estão tendo mais opções para apreciá-la. Além de seminários sobre o assunto e lançamentos de livros, diversas orquestras brasileiras têm se dedicado a peças de Wagner. A Orquestra Sinfônica do Theatro Municipal se prepara para apresentar “A valquíria” nos próximos dias 17 e 27. Já a Orquestra Petrobras Sinfônica, fará concerto com peças wagnerianas em agosto.
Mas as comemorações do bicentenário nem sempre são apenas festivas. Isso porque sua biografia traz, além da genialidade, um discurso cheio de preconceitos. Em Leipzig, na Alemanha, um monumento inaugurado em homenagem ao artista em maio passado não deixará esta “mancha” esquecida. O artista plástico Stephan Balkenhol é o autor da escultura, que carrega a fama de arte controversa. A base da obra foi feita pelo escultor Max Klinger, ainda em 1913, quando se comemorava o centenário de Wagner. Com a chegada da Primeira Guerra, a obra ficou inacabada. Para concluí-la, Balkenhol criou um Wagner jovem, em tamanho natural, colorido, bastante coerente com o tempo em que o artista viveu na cidade. Atrás dele, há uma sombra de quatro metros de altura. O fato de uma sombra estar permanentemente atrás de Wagner já estimula o debate em torno de sua figura. Mas Balkenhol não parou por aí: a silhueta não “reflete” a posição de Wagner. O compositor está de pé com a mão direita apoiada na cintura, com um ar descontraído. Sua sombra, não.
Leia também
Na ocasião da inauguração da obra, o artista justificou sua escolha, com relação à escultura do jovem compositor: “Eu escolhi um gesto único, uma atitude indiferente aos muitos estados emocionais que podem ser interpretados em sua expressão facial. Acho que ele está com um otimismo ao mesmo tempo ativo e cauteloso, também parece um pouco cético sobre o futuro”, explicou à revista Stern. Quanto à sombra: “Wagner teve realmente uma vida muito controversa. Sua obra se divide com relação a esses prós e contras. Mas sua música é tocada até hoje, ele sobreviveu e continua atual”. Balkenhol falou ainda sobre a diferença de tamanho entre a escultura e a sombra: “Este contraste é importante para mim. Ele deve garantir o convite à reflexão”. O prefeito de Leipizig, Burkhard Jung, disse o mesmo: “O monumento não é só para pensar em Wagner, mas também para estimular a discussão”.
Toda esta necessidade de debate está no fato de Richard Wagner ter feito, quando já era consagrado como compositor, um discurso antissemita. Em 1850, ele lançou o ensaio “O judaísmo na música”, no qual expôs suas ideias preconceituosas com relação aos judeus. “A nossa ânsia de nivelar os direitos dos judeus foi bastante estimulada mais por uma ideia geral do que por qualquer simpatia verdadeira, pois mesmo com toda a nossa língua e escrita em favor da emancipação dos judeus, sempre me senti instintivamente repelido por qualquer contato real, prático com eles”, escreveu Wagner.
O desprezo de Wagner aos judeus – que chegaram a ser retratados como “ex-canibais” pelo artista – afeta de alguma forma as celebrações do bicentenário. Em meio às comemorações, há sempre um “porém” acompanhando os eventos. Ciclos de palestras e artigos, desde o início de 2013, apresentam a genialidade do compositor romântico e os vários estudos existentes sobre sua biografia, inclusive a apropriação de sua obra por Adolf Hitler. O líder nazista se encantou por Wagner ainda na adolescência, aos 12 anos, quando assistiu à ópera Lohengrin. A associação Wagner-Hitler está tão demarcada que o jornalista Joachim Köhler chegou a apresentar Hitler como uma criação de Wagner no livro Hitler de Wagner: o profeta e seu discípulo, em 1997.
Sobre o tema, a revista alemã Der Spiegel lançou a pergunta que não quer calar: “Podemos separar o homem de suas obras?”. Thomas Mann (1875-1955), que refletiu sobre o assunto em vários trabalhos – como no ensaio Pensadores modernos e no livro Pro e Contra Wagner – deu longas respostas. Para ele, o compositor era um homem plenamente voltado para sua obra, para o poder, o mundo e o sucesso, assim como o dramaturgo norueguês Henrik Ibsen (1828-1906).  Ambos eram, escreveu Mann em “O escritor e sua missão”, “homens políticos nessa mesma acepção, e isso explica por que é tão completo, perfeitamente esférico e sem lacunas o conjunto de suas obras para o teatro”. Já em Pro e contra Wagner, Mann justifica a importância desta separação entre o homem e a obra, afirmando que Wagner “é um daqueles que são capazes de convencer alguém não-musical a ouvir música”.
Richard Wagner
Richard Wagner
O escritor palestino Edward Said (1935-2003) foi direto ao ponto, taxativo: “Uma mente madura deve ser capaz de admitir a coexistência de dois fatos contraditórios: que Wagner foi um grande artista e, segundo, que Wagner foi um ser humano abominável”. O maestro Isaac Karabtchevesky, regente da Orquestra Petrobras Sinfônica, encorpa a discussão ressaltando um fato normalmente ignorado: “Não nos esqueçamos que dois de seus maiores amigos, Hermann Levi, o primeiro regente a reger Parsifal, e o pianista Joseph Rubinstein, assistente musical de Wagner desde 1872, eram judeus. Minha convicção é que, mesmo imbuído de um profundo sentimento antissemita especialmente na confrontação com Mendelssohn e Meyerbeer [compositores judeus], seus famosos rivais da época, Wagner manifestava o desejo de ver o povo judeu, tão numeroso e influente na Alemanha pré-Hitler, integrar-se à cultura alemã e renunciar à sua religião”. [Leia aqui a entrevista completa com o maestro].

O som da Primeira República
No Brasil, a obra de Wagner chegou praticamente junto com a República. “Houve um movimento wagneriano no início da Primeira República, buscando a dissociação dos símbolos culturais da monarquia”, explica Maria Alice Volpe, professora da Escola de Música da UFRJ. Mas este movimento não foi muito duradouro, caracterizando a Primeira República até por volta de 1908. “Depois disso, aos poucos, foi perdendo a força. Até porque, em 1922 surgiu o movimento modernista”, ressalta a professora.
O compositor Leopoldo Miguez (1850-1902) foi um dos que integraram o movimento wagneriano. Confrontando o operismo italiano, que era bastante difundido no Brasil imperial, buscou a vanguarda nas obras de Wagner e Franz Liszt (1811-1886). Miguez chamava esta nova música que estava se criando no Brasil como a “música do futuro”, segundo Maria Alice Volpe, expressão muito usada por Wagner com relação à sua própria obra. “O Brasil adotou este slogan para modernizar a sua música sinfônica. Mas não se conseguiu consolidar esta vertente musical. O movimento wagneriano durou apenas uma geração, possivelmente porque a escola francesa já estava bastante consolidada neste período.”
Uma das organizadoras do IV Simpósio Internacional de Musicologia da UFRJ, que traz como tema “Verdi, Wagner e contemporâneos”, Maria Alice percebe o interesse dos alunos na obra de Wagner. “Principalmente os cantores. Cantar uma obra de Wagner é um desafio muito grande pra eles porque é uma das execuções que estariam no estágio mais avançado em técnica vocal. É preciso muita potência vocal, a voz não pode ser pequena”, ensina.
Quanto às poucas oportunidades que normalmente os brasileiros têm de assistir a uma obra de Wagner, Maria Alice credita à complexidade das execuções. “Wagner não é tão executado no Brasil porque as produções de suas obras são mais complexas. Não são óperas simples, são mais caras. Existe aqui um público de aficionados representativo, mas não é tão popular, como La Traviata, de Verdi”. Ou seja, a hora de aproveitar é agora.

Nenhum comentário: