quarta-feira, 24 de julho de 2013

Há 250 anos, Catarina, a Grande dava início à imigração alemã na Rússia

Em 1763, um dos primeiros atos da czarina foi assinar decreto que chamou estrangeiros a se estabelecerem na Rússia para explorar as regiões ermas do Império. Colapso da União Soviética impulsionou volta à Alemanha.
No dia 22 de julho de 1763, uma jovem sentada em um gabinete no Palácio Peterhof, próximo a São Petersburgo, assinou um decreto. "Eu, Catarina 2ª, Imperatriz e governante autocrata de todos os Russos em Moscou, Kiev, Vladimir... Desejo que todos os estrangeiros venham ao nosso Império, para se estabelecerem em todos os governos que queiram."
O documento histórico, que se encontra hoje no Arquivo de Estado da Rússia, ficou conhecido como "manifesto-convite", especialmente no âmbito das relações teuto-russas.
O manifesto de 1763
O convite foi dirigido a todos os estrangeiros, mas especialmente aos alemães – entre outros motivos porque Catarina, a Grande era alemã. A czarina nasceu em 1729 como Sophie Friederike von Anhalt-Zerbst em Szczecin, na Prússia (atualmente na Polônia).
Depois de um golpe de Estado e do assassinato de seu marido Pedro 3º (que se chamava Peter Ulrich de Holstein-Gottorp e, na verdade, também era um príncipe alemão), Catarina chegou ao poder em 1762. O convite aos estrangeiros foi um de seus primeiros atos. Para a imperatriz, a imigração vinda do oeste era "a esperança de desenvolvimento econômico e, principalmente, o desenvolvimento sociocultural de um país gigantesco e atrasado que ela passou a governar", segundo explica a historiadora Ekaterina Anissimova.
Território inexplorado
Usando o estilo conciso pelo qual era conhecida, Catarina, a Grande descreveu em seu manifesto as riquezas de seu império, com seus rios e lagos, assim como "os minérios e metais preciosos" à espera de serem descobertos. Ela também escreveu sobre a esperança que tinha de "desenvolver manufaturas, fábricas e infraestrutura".
Seu objetivo era estimular o crescimento da população e a conquista econômica de regiões ainda inexploradas do Império russo. Porém, a czarina também queria reforçar o próprio poder fidelizando novos súditos. Quando Catarina 2ª assumiu o poder, parte da nobreza russa era contra a nova imperatriz – e a maioria dos camponeses eram servos de senhores feudais aristocráticos.
Em seu manifesto-convite, Catarina prometeu aos imigrantes do oeste diversos benefícios: isenção do serviço militar, autogestão, benefícios fiscais, ajuda financeira inicial e 30 hectares de terra por família de colonos. A czarina também garantiu a liberdade de expressão na língua de origem dos imigrantes, especialmente para os alemães.
Acima de tudo, porém, a czarina permitiu o exercício livre da religião "de acordo com o estatuto e costumes de suas igrejas".
Onda de imigrantes
Liberdade religiosa era um fator fundamental para a maioria dos migrantes da Europa, assolada por guerras religiosas. Um exemplo é a família Schütz, que se mudou para a Rússia em 1870, saindo da cidade de Hahnstätten, um enclave protestante numa região tradicionalmente católica no oeste da Alemanha.
A família ainda mantém os documentos de viagem de seus antepassados, nos quais as autoridades migratórias russas registravam meticulosamente o número de "carroças, vacas, mulheres e crianças". A família encontrou um novo lar na colônia de "Prado Redondo", perto de Chernigov, hoje na Ucrânia.
Fotografia da família Schütz nos anos 1960 na Calmúquia (antiga União Soviética)
Nos cinco primeiros anos após a assinatura do decreto, mais de 30 mil pessoas migraram para a Rússia, a maior parte delas a partir da Alemanha. Elas se estabeleceram especialmente na área de São Petersburgo, no sul do país, nas regiões do Mar Megro e do rio Volga. Só na região do Volga surgiram mais de cem novas aldeias.
Depois de um início difícil, os imigrantes alemães conseguiram uma prosperidade, considerável, já que eram agricultores progressistas, operários empenhados e empresários criativos. As Guerras Napoleônicas (1803-1815) impulsionaram uma nova onda de imigração. Assim, na metade do século 19, a Rússia tinha mais de meio milhão de teuto-russos.
"Potenciais traidores"
A colônia de Prado Redondo também prosperou. Os agricultores utilizavam tecnologia agrícola de ponta e a biblioteca da aldeia, no início do século 20, recebia diversas revistas alemãs com regularidade. Porém, a alguns quilômetros dali, havia uma aldeia católica, com a qual os colonos protestantes não tinham nenhum contato. Eles preferiam buscar esposas para seus filhos na Alemanha. Organizavam diversas festas e as crianças frequentavam a escola alemã.
Mas o século 20 trouxe o fim dessa coexistência pacífica. Os primeiros problemas surgiram na Primeira Guerra Mundial. Apesar de muitos homens terem lutado do lado russo, os soldados teuto-russos eram sempre tidos como "potenciais traidores". A escola alemã da colônia foi fechada temporariamente.
A teuto-russa Galina Schütz vive hoje em Colônia
"Mas isso não foi nada em comparação com o que veio depois", relata Galina Schütz, uma descendente dos colonos da região – foi ela que preservou os documentos familiares. Depois da guerra, houve uma grande crise na Ucrânia, com ataques contra alemães. Os colonos foram desapropriados e a região foi transformada numa cooperativa agrícola tipicamente soviética. Com a Segunda Guerra Mundial, quem falava alemão nos territórios não dominados por Hitler também era denunciado como "fascista".
Após a emissão de um decreto pelo Soviete Supremo, então o órgão legislativo mais poderoso da União Soviética, todos os teuto-russos chegaram a ser deportados para a Sibéria em 1941 – entre eles, os Schütz. Metade dos membros da numerosa família morreu de fome ou doenças nos campos de trabalho. Depois da morte do ex-líder soviético Josef Stálin em 1955, a família se mudou para o Cazaquistão e depois para Calmúquia, onde há 50 anos nasceu Galina Schütz.
O colapso da União Soviética marcou outra grande mudança na história dos teuto-russos. A vida nos "porões do Império" se tornou cada vez mais difícil. Mais de dois milhões de teuto-russos decidiram voltar para sua "pátria histórica". A terra de seus antepassados os aceitou como "repatriados tardios". Apenas cerca de 800 mil descendentes de alemães permaneceram na Rússia. Hoje em dia, a maioria deles vive na Sibéria.
A família Schütz também voltou para a Alemanha em 1995, quase 210 anos depois de sua partida: sem "carroças e vacas", mas com muitos descendentes. A família se mudou para Colônia, não muito longe de Hahnstätten, cidade de onde saíram os Schütz.
Fotografias históricas do acervo privado de Galina Schütz
Novo e difícil recomeço
Eles tiveram um começo difícil em sua "nova e velha" terra natal. A língua foi um grande problema. "Minha avó Margarethe mal falava russo – só quando tinha que repreender alguém", diz Galina Schütz. Mas Margarethe não falava o alemão oficial (Hochdeutsch), e sim um antigo dialeto, chamado Plattdeutsch.
"Quando chegamos à Alemanha, meu pai não conseguia ver televisão. Seu dialeto do século 18 tinha muito pouco em comum com o alemão moderno", lembra Galina Schütz. Ele compreendia um pouco melhor holandês. Galina também precisou aprender alemão praticamente do zero.
Ela diz ter saudades da Rússia com frequência. Em Colônia, Galina trabalha como babá, algo que sempre quis fazer. Mas ainda sonha com as flores desabrochando nos vastos campos do país de origem, e sente falta de seus amigos de infância. "Porém, tenho certeza que meus filhos e netos terão um futuro melhor e mais seguro aqui na Alemanha", justifica.

DW.DE

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