sábado, 27 de julho de 2013

O pequeno jornal heroico que tentou enfrentar Adolf Hitler


O líder nazista Adolf Hitler ao lado de um de seus auxiliares diretos, Rudolf Hess
O líder nazista Adolf Hitler ao lado de um de seus auxiliares diretos, Rudolf Hess
A jornalista brasileira Silvia Bittencourt fala com exclusividade ao Diário sobre seu livro que conta a pouco conhecida história do “Münchener Post”, diário alemão que lutou contra o genocida líder nazista Adolf Hitler
Fernando de Oliveira, do Diário Regional
A bibliografia tanto do jornalismo quanto da Segunda Guerra Mundial acaba de ganhar um livro precioso. Trata-se de A Co­zinha Venenosa – Um Jor­nal Contra Hitler ( 374 pp., Editora Três Estrelas, São Paulo, 2013), cerzido pela jornalista brasileira ra­dicada na Alemanha desde 1991, Silvia Bittencourt.
Nessa obra recém-lançada, ela conta pela pri­meira vez – e em detalhes – a história do Münchener Post, pequeno jornal social-democrata de Munique que entre 1920 e 1933, mesmo sofrendo represálias como atentados e processos ju­diciais, fez campanhas em suas páginas para impedir a ascensão de Adolf Hitler (1889-1945) ao poder e cha­mar a atenção para o perigo que o demônio de bigodinho e a “corja nazista” represen­tavam para a humanidade.
No entanto, o heroísmo do Post, responsável por tra­zer à tona a “solução final da questão judaica”, resultou em sua extinção em 1933.
Na noite de nove de mar­ço daquele ano, semanas depois de o genocida Hitler – que chamava a publicação de “Cozinha Venenosa” – ter sido nomeado chanceler da Alemanha, a polícia na­zista invadiu a redação doPost (localizada no prédio de número 19 da Rua Al­theimer Eck, centro de Mu­nique), que estava vazia, e a destruiu completamente, colocando um ponto final nas quase cinco décadas de história do jornal.
Nesta entrevista exclu­siva ao Diário, concedida durante sua passagem pelo Brasil dias atrás para lançar o livro em São Paulo e, de­pois, participar da Festa Li­terária Internacional de Pa­raty (Flip) no Rio de Janeiro, Silvia Bittencourt fala desse pouco conhecido capítulo do século 20, sobre o qual se de­bruçou por três anos.
Sala da redação do “Münchener Post” destruída pelos nazistas em um dos primeiros atentados cometidos por
Sala da redação do “Münchener Post” destruída pelos nazistas em um dos primeiros atentados cometidos por eles contra o jornal, em novembro de 1923
Diário Regional – Como nasceu a ideia de escrever sobre o “Münchener Post”?
Silvia Bittencourt - Sou­be da história do Münchener Post através do livro Para Entender Hitler, do jorna­lista norte-americano Ron Rosenbaum. Segundo ele, ao acompanhar os passos de Adolf Hitler desde o início de sua carreira política, quan­do este ainda discursava nos salões das cervejarias de Mu­nique, os repórteres doPostforam os primeiros a tentar explicar sua personalidade doentia e questionar suas in­tenções (os demais jornais da cidade mencionaram Hitler apenas quando sua popula­ridade começava a crescer). Mas o livro de Rosenbaum não teve tanta repercussão na Alemanha, por isso a história do Postpermaneceu desco­nhecida do público geral. Só alguns historiadores ale­mães sabem da existência deste jornal, mas também nenhum deles contou sua história detalhadamente.
DR – Por que ninguém antes de você havia se inte­ressado em retratar o “Post”?
Silvia - O Post era um jornal social-democrata pe­queno e caro, que circulava sobretudo em Munique, na conservadora Baviera. En­tão ele era lido mais pela eli­te política do Estado do que pelos operários, seu público alvo. Além disso, ele tendia frequentemente ao sensa­cionalismo, querendo mais atirar para todos os lados do que checar as informações que recebia. Acho que por causa disto os historiadores alemães têm certa reserva em considerar seus repórte­res grandes heróis.
DR – Em razão da au­sência de bibliografia sobre o “Post”, quais foram suas principais fontes de pesquisa?
Silvia - Minha fonte principal foi o próprio Post, ou seja, as dezenas de rolos de microfilme do jornal, de 1889 até 1933. Além disso, nos arquivos de Munique e de Berlim há vários docu­mentos de processos envol­vendo o jornal, assim como boletins policiais sobre os conflitos nas cervejarias e os ataques à Redação. Também recorri às memórias de polí­ticos e jornalistas da época, assim como do próprio ad­vogado do Post, Max Hirs­chberg. Finalmente, alguns historiadores trataram do Postem seus livros, como aqueles que estudam a histó­ria da imprensa bávara ou os que pesquisam a ascensão de Hitler ao poder.
Caricatura de Hitler numa edição de 1932
Caricatura de Hitler numa edição de 1932
DR – Você entrevistou parentes dos jornalistas do “Post”. Como foi isso?
Silvia - Com a ajuda do Partido Social-Democrata de Munique eu cheguei aos descendentes dos jornalis­tas e advogados do Post. O contato com eles foi muito especial. Não tanto pelas informações que me deram, pois eles sabiam pouco do passado dos avós. Mas fica­ram extremamente agrade­cidos pelo meu interesse e curiosos sobre o meu livro. Inesquecível foi a conversa com Harimella Stock, filha do ex-articulista do jornal Wilhelm Hoegner. Ela tinha 91 anos quando a visitei e me contou em detalhes dos jornalistas e da Redação doPost. Dos meus entrevista­dos, foi a única que havia conhecido oPost.
DR – Qual considera o personagem mais impor­tante do seu livro?
Silvia - É impossível falar de um personagem mais im­portante. Cada um moldou a história do jornal de um jei­to. Erhard Auer era o editor-responsável, o chefão não só do jornal, como da social-democracia bávara. Martin Gruber, o editor-executivo, era quem punha a mão na massa, escrevendo os tex­tos principais e enfrentando vários processos na Justiça. O advogado Hirschberg, um judeu social-democrata, sempre defendeu o Postcom afinco. Mas perante uma Justiça reacionária e parcial, como a bávara, costumava perder as causas envolvendo interesses políticos.
DR – Embora não fosse esta a intenção, o “Post” contribuiu para a popu­laridade de Hitler e suas ideias ao falar dele em suas páginas?
Silvia - Não acho que tenha contribuído. No iní­cio de sua carreira política, Hitler empenhou-se para ser o “tocador de tambor”, agi­tando os salões de cervejaria com seus discursos. Com o Post ou não ele se tornaria popular, como acabou se tornando. E desde o começo o jornal alertava as autorida­des para o perigo que ele re­presentava. Os outros eram bem menos críticos.
DR – À luz de suas pes­quisas, como Hitler, que era uma pessoa, como você já disse, “desocupada, sem formação ou profissão al­guma”, conseguiu chegar ao poder?
Silvia - Hitler estava no lugar certo, na hora certa. Era uma época de grande instabilidade econômica e política, o que o ajudou a conquistar uma massa de insatisfeitos e desemprega­dos. O fato de ele viver na Baviera também colaborou. Ali o governo e a Justiça favoreciam descaradamente os grupos de direita e perse­guiam os de esquerda, como os jornalistas do Post. Qual­quer outro Estado alemão teria mandado Hitler de vol­ta para a Áustria, tamanha a violência promovida
DR – Qual o legado dos jornalistas do “Post”, que tentaram “avisar” sobre o mal que surgia no mundo, mas foram ignorados?
Silvia - As denúncias do Münchener Postprovam que, muito antes de Hitler chegar ao poder, havia gen­te alertando para os planos macabros dos nazistas para a Alemanha. É incrível que não tenham levado o jornal a sério. Para mim, depois dessa pesquisa, fica difícil aceitar o argumento de que os alemães não sabiam do que ele era capaz.
DR – Quais as princi­pais descobertas prove­nientes de sua pesquisa?
Silvia - Este é o primeiro livro com a história detalha­da da luta desigual entre um jornal pequeno e indefeso e a violenta corja nazista. Pela primeira vez alguém conta minuciosamente das campa­nhas desesperadas promovi­das pelo Post para impedir a ascensão de Hitler. Desde as investigações sobre as ori­gens do dinheiro para o alto nível de vida que ele levava até as denúncias referentes à homossexualidade do capi­tão Ernst Roehm, chefe da tropa de assalto nazista.
DR – Qual o sentimento de ser uma brasileira que es­creveu o único livro existente sobre o “Münchener Post”?
Silvia - Até hoje muitos pesquisadores estrangeiros, norte-americanos, britânicos, vão para a Alemanha pesqui­sar sobre o nazismo. Menos envolvidos com este triste capítulo da história alemã, talvez eles tenham mais fa­cilidade de perceber e abor­dar novos aspectos. Durante a minha pesquisa, sempre estranhavam o fato de uma brasileira ir atrás da histó­ria de um jornal pequeno e desconhecido. E eu sempre respondia que não era apenas um jornal pequeno e desco­nhecido, mas um jornal que enfrentou Hitler e seus ca­pangas, sem fraquejar, até o último dia de sua existência. Estava na hora de alguém es­crever esta história.
DR – Por que você vive na Alemanha?
Silvia - Vivo na Alema­nha faz 22 anos. Primeira­mente fui para lá aprender a língua e daí passei a gostar muito do país. Por isso decidi deixar o Brasil para fazer em Colônia um segundo estudo, em história. Logo conheci meu marido, o que ajudou na decisão de ficar definiti­vamente. Fiz ótimos amigos na Alemanha e adoro a vida lá, bem mais tranquila e civi­lizada do que no Brasil.
A jornalista Silvia Bittencourt em sessão de autógrafos do seu livro em São Paulo
A jornalista Silvia Bittencourt em sessão de autógrafos do seu livro em São Paulo

Fonte: Sul21

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