terça-feira, 16 de julho de 2013

Verdade a sete palmos

Comissão da Verdade anuncia que a Polícia Federal fará a exumação dos restos mortais do ex-presidente João Goulart até o fim do ano. Ainda hoje há duvidas se ele teria sido envenenado por agentes ligados à Operação Condor

Alice Melo
10/7/2013
Ex-presidente do Brasil, João Goulart / Foto: Wikipedia
Ex-presidente do Brasil, João Goulart / Foto: Wikipedia
O mistério que cerca a morte do ex-presidente João Goulart está prestes a ser solucionado. Após uma reunião realizada na terça passada (9) com os descendentes do estadista deposto pelo golpe de 1964, a Comissão Nacional da Verdade (CNV) anunciou que os restos mortais do político serão exumados até o fim deste ano. A iniciativa da CNV coloca em prática um desejo antigo da família e serve para eliminar de vez ou comprovar a hipótese de que Jango teria sido envenenado por agentes envolvidos na Operação Condor.
"Há tempo vínhamos convivendo com a dúvida, uma dúvida pertinente à morte do nosso pai e hoje nós vimos o avanço do Estado brasileiro", comentou João Vicente Goulart, filho do ex-presidente. O pedido para que a exumação fosse realizada foi feito no Ministério Público Federal em 2007. Em 2011, a ação foi estendida à Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos da SDH, mas ficou a cargo da CNV tirar a história a limpo. A exumação será feita por peritos da Polícia Federal, em Brasília.
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Jorge Ferreira, professor titular de História do Brasil na UFF, e autor de João Goulart, uma biografia (2011), parabeniza a iniciativa da Comissão e afirma esta é única forma de provar o que aconteceu. O historiador explica que há indícios de que Jango possa ter morrido tanto de morte natural, quanto por envenenamento. “Ele era um homem [com problema] cardíaco, tomava diariamente três remédios para pressão arterial, não se cuidava,  fumava e tinha depressão. Ou seja, há indícios de que pode ter morrido de morte natural, mas não há provas, porque não houve autópsia”, comenta. Por outro lado, o professor conta que também há indícios que Jango possa ter sofrido um atentado.  Afinal, a década de 1970 foi um período muito difícil na América Latina, em que existia a Operação Condor, integrada por membros do serviço de segurança do Brasil, Uruguai, Argentina, Chile e Paraguai, que se uniram para eliminar os opositores do regime.
Morte matada?
Os indícios da possível conspiração que teriam levado o ex-presidente à morte por assassinato, no exílio, são de ordem oral. No primeiro caso, trata-se de um aviso dado pelo ex-governador Miguel Arraes, por volta de 1975. Quando estava no exílio, na Argélia, Arraes recebeu a visita de dois emissários da América Latina, os quais revelaram a ele que o serviço secreto de alguns países se uniu para eliminar lideranças de oposição aos regimes militares vigentes.  Arraes teria repassado a informação para Brizola, alertando-o que tanto ele quanto Jango estavam na lista das eliminações.  Mais tarde, outra especulação. O agente da repressão uruguaia, Mario Meira, em cárcere, afirmou às autoridades que agentes da CIA trocaram os remédios de Goulart por veneno e isso teria sido a causa de sua morte. Foi o necessário para que pairasse a dúvida.
Sobre o clima de conspiração do passado e o atual ar de ‘reconciliação’, assentado pelos trabalhos da CNV, Jorge Ferreira comenta: “Se há tecnologia para encontrar venenos, então deve-se exumar o corpo. E a Comissão está de parabéns pela atitude corajosa. Creio que esse processo de investigação poderia se estender a outros casos polêmicos, como a morte do ex-presidente Juscelino Kubitschek, do ex-governador Carlos Lacerda e, inclusive, de Tancredo Neves”.

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