sábado, 17 de agosto de 2013

1956 – Morre o ator Bela Lugosi, imortalizado como Drácula no cinema


No dia 16 de agosto de 1956, morre aos 73 anos, na cidade de Los Angeles, em decorrência de um ataque cardíaco, o ator húngaro Bela Lugosi, célebre por interpretar, com sucesso, o primeiro Drácula da era pós-cinema mudo. Foi cremado vestido com a capa do personagem que o imortalizou, a pedido de sua família. Após uma fase de sucesso em Hollywood, o ator terminou sua carreira estigmatizado pelo papel do rei dos vampiros, viciado em drogas e participando de filmes “B”.

Lugosi nasceu com o nome de Be’la Ferenc Dezsõ Blaskó em 1882, na cidade de Lugos, no Reino da Hungria (atual Lugoj, Romênia), local de onde tirou seu sobrenome artístico.

Começou a atuar por volta dos 18 anos com pequenos papeis em peças de teatro e operetas no interior do país, ganhando destaque aos poucos ao interpretar peças de Shakspeare. Mudou-se para Budapeste em 1911, onde se apresentou por sete anos no Teatro Nacional da Hungria.

Lutou na I Guerra Mundial pelo Império Austro-Húngaro, sendo promovido a capitão e condecorado por lutar no front contra os russos. Em razão de seu ativismo no meio artístico, teve de deixar a Hungria em 1919. O país se encontrava em um período de guerra interna e com seus vizinhos. Por tentar fundar um sindicato, foi acusado de apoiar Bela Kun na criação da República Soviética da Hungria. Após a derrota do movimento, teve de fugir da caça às bruxas. Tentou, sem muito sucesso, fixar-se em Viena e Berlim e resolveu imigrar para os Estados Unidos. Acabou parando ilegalmente em Nova Orleans, nos EUA, em um navio mercante trabalhando como marinheiro.

Antes de partir da Hungria, Lugosi fez 12 papeis em filmes mudos entre 1917 a 1919, utilizando-se do nome de Arisztid Olt. Na Alemanha, trabalhou em filmes do diretor Karl May e contracenou com a atriz judia Dora Gerson, morta em Auschwitz. Mas, nos EUA, começou ganhando a vida com trabalhos braçais para depois ingressar no teatro em Nova York com a ajuda de imigrantes húngaros. Passou a fazer turnês pelo país com atores compatriotas, e atuava para um público de imigrantes.

Conseguiu seu primeiro papel na Broadway na peça “The Red Poppy” (1922). Após peças de sucesso e papeis de maior destaque, estreou em seu primeiro filme norte-americano no melodrama “The Silent Command”, como Hisston, um sabotador estrangeiro em uma conspiração para explodir o Canal do Panamá.  Outros papeis se seguiram, sempre como vilão ou estrangeiro.

Em 1927, foi convidado para estrelar uma produção da Broadway para uma adaptação do romance “Drácula” de Bram Stoker. A produção foi bem sucedida chegando a 261 apresentações. Por essas performances, ele foi chamado para interpretar o personagem no cinema falado. “Drácula” (1931), de Tom Browning, foi um sucesso, tornando a Universal referência no gênero do terror, e a atuação de Lugosi foi marcante – por muitos, considerada definitiva. O ator usava pouca maquiagem, tinha um sotaque europeu carregado, fala pausada e presença autoritária.



No entanto, o sucesso com esse personagem o atrapalhou na busca por outros papeis. Acabou estigmatizado e reduzido a filmes de terror. Entre eles, “Os Assassinatos da Rua Morgue” (1932), “O Corvo” (1935) e “O Filho de Frankenstein” (1939). A exceção foi na comédia “International House” (1933), interpretando um militar elegante e destemperado.

Também participou de cinco produções ao lado de Boris Karloff. A relação entre ambos era considerada por muitos de rivalidade, e até ódio, já que o ator inglês era sempre colocado como a estrela nos cartazes, mesmo em produções onde Lugosi tinha o papel principal. Outros testemunhos da época, no entanto, diziam que eles mantinham uma relação cordial e respeitosa – versão confirmada, com algumas ressalvas, pelo próprio Karloff.
ReproduçãoApós muita insistência, a Universal lhe concedeu papeis fora do terror, de heroísmo ou mesmo romântico nos anos 1930. No entanto, o estúdio concluiu que sua caracterização como vampiro era forte demais.

A Universal mudou sua gerência em 1936 e, por causa do banimento dos filmes de horror no Reino Unido, a demanda nos EUA para o gênero foi drasticamente reduzida. Assim, Lugosi foi deslocado a papeis na unidade de filmes B do estúdio. Mesmo atuando em filmes independentes, teve de pedir dinheiro emprestado após o nascimento de seu único filho, Bela George Lugosi, em 1938.

A partir dessa época, sua carreira começou a sofrer forte declínio, com bons papeis se tornando cada vez mais escassos. Também começou a sofrer mais acentuadamente de ciatalgia (dor na perna causada pela compressão do nervo ciático), problema iniciado durante sua participação na Guerra. Também se encontrava em estágio de dependência de drogas – muitos diretores, no fim dos anos 1940, nem tinha certeza se ele estava vivo.

Seu último filme considerado como produção “linha A” foi a comédia “Abbott and Costello Meet Frankenstein” (1948), onde mais uma vez interpretou Drácula. Passou a desempenhar vários papeis no teatro interpretando o rei dos vampiros, chegando a fazer um tour de seis meses na Inglaterra – onde participou de um filme de comédia novamente no mesmo papel.

Ed Wood

Quando já estava esquecido, quase na pobreza, o ator húngaro foi encontrado pelo diretor de filmes “B” Ed Wood, grande fã de seu trabalho. Em condições quase amadoras, trabalhou como narrador do filme “Glen or Glenda” (1953) e como um cientista louco (parodiando Victor Frankenstein) em “A noiva do Monstro” (1955).

Na fase de pós-produção do filme, foi tratar de sua dependência de drogas. Querido pela equipe, a première do filme foi usada para pagar suas despesas hospitalares. Frank Sinatra também o teria ajudado nessa fase.

Em 1955, começou a trabalhar em um novo projeto de Wood, “The Goul Goes West”. Com a famosa capa de Drácula, os dois chegaram a rodar algumas cenas, sem roteiro definido (abaixo), na frente de seu apartamento. Essas filmagens acabaram resultando no ícone do cinema “B” “Plan 9 from Outer Space”, em que boa parte foi rodada após a morte do ator.

Wikimedia Commons


As cenas adicionais de seu personagem foram realizadas com um ator mais alto e magro que Lugosi, que não mostrava o rosto nas cenas, escondendo-se com a capa. Nesse mesmo ano, casou-se pela quinta vez com Hope Lininger, uma fã de sua carreira que lhe escrevia cartas enquanto ele se recuperava no hospital.

Seu último filme foi Black Sleep (1956). Apesar da empolgação inicial por ter sido novamente lembrado, se decepcionou ao saber que seu papel não teria falas.

Controvérsia

Seu filho, Bela George Lugosi Jr., tornou-se notório advogado. Ficou famoso em um processo defendendo sua família contra a Universal Pictures para que ela ficasse com os “direitos de personalidade” do pai. Venceu em primeira instância, mas perdeu na apelação por decisão da Suprema Corte da Califórnia. Essa disputa judicial foi a responsável pela criação do California Celebrities Right Act, lei que passou a garantir que esses direitos fossem repassados como herança por 70 anos após a morte de determinado artista. Em 2007, foi decidido que essa lei retroagiria para todas as famílias de todos os artistas mortes a partir de janeiro de 1938.

Bela George Lugosi nunca perdoou Wood por achar que ele explorava seu pai. Mas muitos pesquisadores colocam o controverso diretor como o melhor amigo do húngaro durante a fase final de sua carreira.

Legado

O trabalho de Lugosi voltou a ser reconhecido com o filme “Ed Wood” (1994), de Tim Burton – a película dava muito destaque para a relação entre o diretor (interpretado por Johnny Depp) e Lugosi (Martin Landau, que obteve um Oscar de Ator Coadjuvante pela atuação). Segundo George, o filme inventou muitas mentiras sobre seu pai, como as cenas que o mostravam dormindo em caixões.

Em sua homenagem, Lugosi recebeu várias citações em séries de TV norte-americanas, foi tema de peça de teatro húngara (Lugosi: A sombra do Vampiro), de tela de Andy Warhol, vendida pelo valor de 800 mil dólares, e da célebre música “Bela Lugosi’s Dead”, da banda Bauhaus, no disco considerado o nascimento do gothic rock.
Fonte: Opera Mundi

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