segunda-feira, 12 de agosto de 2013

1973 - Há 40 anos, Hip Hop era criado em uma festa no Bronx

No dia 11 de agosto de 1973, em uma sala de recreação de um modesto prédio de tijolos no bairro do Bronx, Nova York, um DJ jamaicano de apenas 16 anos organizou uma festa que mudou para sempre a história da música pop. Naquela noite, há exatos 40 anos, no prédio nº 1520 da Sedgwick Avenue [foto à esquerda], é inventado o hip hop, estilo musical que acabou evoluindo para se tornar uma cultura e um modo de expressão que, através também da dança e da moda, representa parte da juventude em todo o mundo.

Em razão dessas festas que realizava, as quais chamava de “block parties”, Clive Campbell, que viria a ser conhecido pelo nome de DJ Kool Herc, é considerado o fundador e pai desse estilo musical.

Na ocasião, Herc se deu conta de que o público nas festas se animava muito mais quando ele tocava a parte mais rítmica das canções de funk de James Brown na ausência de letra (os chamados breaks). Ele decidiu então tirar a agulha do toca-discos, voltando manualmente para o ponto do início do break e repetir o procedimento tantas vezes quanto achasse necessário. Naquela festa, ele utilizou dois discos iguais em dois aparelhos para reproduzir os breaks um após o outro e conseguir o mesmo efeito que conseguia manualmente para estender o break da canção – no caso, uma segunda versão  da música “Give it Up or Turnit Loose”, do LP Sex Machine. Esse movimento ficou conhecido como “Break Beat”.

No entanto, naquela noite, Kool Herc não tinha ideia do que estava sendo criado, ele só queria manter as pessoas dançando na pista. O objetivo principal, na verdade, era arrecadar algum dinheiro para sua irmã, Cindy, que era aniversariante, para juntos fazerem compras na Delancey Street, em Manhattan.

Seu amigo, Coke la Rock, sem avisar, pegou o microfone e começou a cantar de maneira em cima dos breaks, em um estilo vocal (à época de improvisação) hoje mundialmente conhecido como “rap”. La Rock é creditado como o primeiro MC (mestre de cerimônia) na história do hip hop. A ele são creditados versos famosos como “You Rock and you don’t stop”.

A partir daquela noite, o público de Herc não queria que ele tocasse de outra maneira. Exigiam que Herc fizesse breaks após breaks. Não importava se fosse de James Brown ou do Led Zepellin. Não demorou para que, com o sucesso, ele tivesse de tocar em lugares maiores, como clubes.
É importante levar em conta o contexto histórico em que Herc, que treinava técnicas de discotecagem no quarto, e seus amigos viviam no Bronx na época. Campbell havia chegado da Jamaica para lá em 1967. Ganhou o apelido de “Hércules” ou “Herc” por sua estatura e gana nas quadras de basquete. Na época, o Bronx se encontrava em ebulição, em meio a uma transformação urbana violenta e dolorosa causada pela especulação imobiliária. A conclusão da estrada Cross Bronx, em 1963, provocou muitas transformações no bairro, levando ao êxodo de milhares de moradores, principalmente dos brancos. Com a desvalorização dos imóveis, proprietários realizavam incêndios criminosos para tentarem ser indenizados pelo seguro.



Esse cenário contribuiu para a explosão de gangues juvenis violentas. Naquela fase, Herc já havia conseguido uma maneira de realizar as festas sem que ocorressem brigas de gangue – os bailes se tornaram uma alternativa à juventude do bairro. Aos casais que ensaiavam passos de dança novos a cada break beat, ele os chamava de "B-Boys e B-Girls" – "b" de break.

WikiCommons - DJ Kool Herc em 2009
O estilo de Campbell foi rapidamente incorporado por outras figuras consideradas precursoras do rap, como Grandmaster Flash e Afrika Bambaataa, que seguiram com seu legado. Mas, ao contrário deles, Herc nunca se preocupou com o lado comercial da música. Recentemente passou por sérios problemas de saúde e teve de realizar uma operação para retirar pedras nos rins – com dificuldades financeiras, não tinha plano de saúde para financiar a operação.

Quarenta anos depois, o hip hop, e o rap saíram do underground e foram massificados e incorporados à cultura pop ocidental. Mesmo após terem aderido às grandes gravadoras, esses estilos ainda são a principal voz de expressão cultural e protesto contra as injustiças nas periferias das grandes cidades e a grande referência cultural da juventude, particularmente nas comunidades de maioria negra e carente – ocupando um espaço que o rock, cada vez mais branco e elitizado, nunca conseguiu plenamente ocupar.
Fonte: Opera Mundi

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