segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Intencionalmente esquecido

Reza a lenda que foi negado o mais famoso prêmio literário do mundo a Jorge Luis Borges por conta de suas declarações políticas. Pior para o Nobel

Ronaldo Pelli
23/8/2013
Aos 37 anos, um Jorge Luis Borges que ainda não tinha publicado nem Os jardins de veredas que se bifurcam nemArtifícios (volumes que integrariam depois suas “Ficções”) quiçá O Aleph, ou seja, um Borges ainda quase desconhecido, principalmente fora da Argentina, faz um comentário sarcástico, ácido, pernóstico e um pouco imaturo sobre a instituição do Nobel:
Um dos regulamentos do prêmio Nobel [...] decreta que dos cinco prêmios anuais, o quarto deve ser abjudicado, sem consideração à nacionalidade do autor, à obra literária de maior mérito, dans le sens d’idéalisme [no sentido idealista]. A condição final é inofensiva: não há no universo um livro que não possa ser considerado ‘idealista’, se nos empenhamos em que o seja. A primeira é algo insidiosa. O honrado propósito essencial de que se repartam os prêmios imparcialmente, sem distinção da nacionalidade do autor, se resolve de uma maneira com um internacionalismo insensato, em uma rotação geográfica.
Escreveu ele, em 27 de novembro de 1936, na revista argentina El Hogar, da ocasião do prêmio ao norte-americano Eugene O’Neill, quase demonstrando que a proposta do julgamento de ser “Idealista”, no caso, era quase uma contradição em termos. Porque, se fosse uma interpretação “ideal”, isto é, sem influência “externa”, no caso o autor, o seu tempo, etc., também deveria desconsiderar o lugar onde a tal obra foi escrita.
Ainda no seu comentário, e antes mesmo de falar sobre o dramaturgo O’Neill, ele faz um vaticínio duplo, e erra, até o momento, em ambos os casos: “Eu não sei, por exemplo, se dentro de cem anos a República Argentina terá produzido um autor de importância mundial, porém sei que antes de cem anos um autor argentino terá obtido o prêmio Nobel, por mera rotação de todos os países do atlas.”
Borges é, hoje, reverenciado por intelectuais dos mais diferentes campos, e das mais diferentes nacionalidades. Sua fortuna crítica é imensa e não é possível repeti-la aqui sem cair na mesmice. De Foucault a Beatriz Sarlo, de Harold Bloom a Umberto Eco, diversos escritores das mais variadas vertentes o veneram, o citam, o usam para ilustrar outros pensamentos. Porém, apesar desse reconhecimento quase incontestável, Borges foi ruidosamente ignorado pelo comitê do Nobel. Implicância com sua descompostura, de quando era um ainda quase desconhecido autor? Muito pior que isso.A partir da data deste comentário, houve muitas e grandiosas mudanças na trajetória literária do escritor. Borges se tornou Borges. O simples bibliotecário se transformou exatamente o tal “autor de importância mundial”, como ele duvidava, um pouco com falsa modéstia – e nenhum argentino, até hoje, ganhou o Nobel de literatura.
Essa ignorância mexeu tanto com o Borges, escritor, quanto com o Borges, bibliotecário. Ao longo de toda a sua vida, ele apareceu em inúmeras entrevistas ressentido por não ser agraciado pela academia sueca: “É uma velha tradição escandinava a de me prometer esse prêmio anual e depois dá-lo a outro. É uma tradição tão antiga que já não pode nem deve se quebrar”. Ou: “Na verdade, todos os anos o espero pacientemente, me iludo. E, embora saiba que não chegará, espero-o”. Ainda: “A Academia Sueca inicialmente premiava escritores que eram mundialmente conhecidos. Agora mudou de modus operandi: dedica-se a descobrir valores. Não a reprovo, eu gostaria que me descobrissem”. A lista de declarações é imensa e pode ser conferida ao fim desse texto.
Quando recebeu o “Cervantes”, um prêmio à literatura de língua espanhola, Borges pôde, enfim, desdenhar um pouco o Nobel: “O ‘Cervantes’ me honra muito mais ainda porque não é um prêmio político. Foi-me concedido por homens de letras. Em Estocolmo, claro, pensam de outra maneira...”.
Borges se referia as declarações da Academia Sueca sobre as constantes negativas em conceder o prêmio ao argentino. Os responsáveis por escolher o ganhador do Nobel argumentavam que não poderiam conferir um prêmio tão importante para um escritor que tinha ligações com os regimes autoritários do seu país natal. Não era segredo para ninguém que Borges apoiou a última ditadura militar na Argentina. Segundo Emir Rodríguez Monegal, um dos seus principais biógrafos, quando recebeu a notícia do golpe, Borges, que estava na Califórnia, se abraçou ao escritor Julio Caillet-Bois e disse “fui feliz’.
Borges, que se dizia anarquista (“no sentido spenceriano. Isto é, não acredito nos Estados, não acredito nos governos”, declarou certa vez), além de anticomunista e conservador notório, queria de qualquer maneira manter o grupo político ligado a Juan Domingo Perón (ex-presidente e ex-ditador argentino) distante do governo. A razão de sua aversão completa por Perón é igualmente bastante conhecida: ele e sua família foram perseguidos diretamente por sua ditadura. Ele foi destituído do cargo que ocupava na Biblioteca Nacional da Argentina e colocado em uma divisão de fiscalização de aves e coelhos em mercados públicos – o que, na opinião dele, era extremamente humilhante. Sua mãe e irmã, muito mais críticas ao governo Perón que o suave Borges, chegaram a ser presas.
Dessa forma, Borges, um escritor que raramente se envolvia de maneira direta com política, se dispunha a dar declarações favoráveis aos militares: “Uma ditadura não me parece censurável. De relance, parece que cortar a liberdade é um mal; contudo, a liberdade se presta a tantos abusos: há liberdades que constituem uma forma de impertinência”. Ele era agradecido aos militares argentinos porque em 1976 eles tiraram do poder Isabel Perón, segunda mulher de Juan Domingo, que havia morrido dois anos antes. E principalmente porque foi no regime militar que ele voltou à biblioteca nacional argentina e, agora, no cargo de diretor – o que, para ele, que já tinha dito que o universo se parecia com uma biblioteca, era, talvez, a maior honraria possível.
Desconectado da realidade
Temos que levar em conta, também, que Borges era um homem desconectado com as realidades cotidianas. Apesar de ser uma figura fácil nos jornais, não gostava de ler os diários, dizia constantemente que preferia reler um clássico. Sua opinião sobre a ditadura mudou drasticamente exatamente quando teve contato com essa realidade cotidiana, segundo Monegal, ao conversar com uma mãe de um desaparecido. “Ele, frente ao horror da verdadeira história universal da infâmia, passou a atacar os militares com palavras muito mais certeiras do que as que os antimilitaristas profissionais possuem.”
Então, era tarde para Borges dissociar sua imagem do escritor que apoiou a ditadura Argentina, e suas consequentes atrocidades. Sua obra já tinha sido contaminada pelo regime militar, suas mortes e suas perseguições.
O que não deixa de ser irônico. Esse perigoso absurdo, julgar uma obra inteira pelo comportamento político do seu autor, é exatamente contrário à proposta do Nobel de ser “idealista”. O escritor, que sempre se posicionou contrário aos regimes totalitários da primeira metade do século XX em sua obra, sofreu por conta das posições do homem, que optou, na segunda metade, por um mal que julgava, erroneamente, menor. Borges não foi o primeiro nem será o último a sofrer dessa espécie de cegueira seletiva. Pior para o Nobel.


Algumas declarações de Borges sobre o Nobel:
“É uma velha tradição escandinava a de me prometer esse prêmio anual e depois dá-lo a outro. É uma tradição tão antiga que já não se pode nem deve se quebrar.”
“Vamos supor, embora eu saiba que não irá acontecer, que a Academia sueca se distraia e me dê esse prêmio. Sentirei muita gratidão e o aceitarei com toda a avidez, como é natural.”
“Sei que deram um prêmio a um australiano. Nada sei da literatura australiana e nem sequer sei se existe essa literatura; em todo caso, não chegou ao meu conhecimento. Possivelmente pensaram menos no autor do que nesse vasto continente dos eucaliptos e cangurus. Assim, a cada tantos anos, se dá um prêmio a um judeu; creio que houve um negro que recebeu um prêmio; sem dúvida não demorará muito para que haja um esquimó com prêmio Nobel.”
- “Los escandinavos amam a Borges”, entrevista a Olga Pinasco.
“Tenho a esperança de morrer sendo um futuro prêmio Nobel. Fala-se tanto do prêmio que muita gente pensa que eu já o recebi. E não acho que o mereça. Os acadêmicos suecos compartilham de minha opinião com entusiasmo. Que curioso! Um prêmio tão importante, e as pessoas que o outorgam não são. Não é estranho? Ninguém se lembra do nome de algum acadêmico sueco. Muito menos eu.” [1974]
“Na verdade, todos os anos o espero pacientemente, me iludo. E, embora saiba que não chegará, espero-o.” [1977]
“O Prêmio Nobel de literatura é de uma insignificante academia, que só escolhe escritores medíocres.” [1977]
“Deus acertou com Kipling e com Shaw. Eles ganharam o Prêmio Nobel. Comigo parece que não acertou, pois não me agraciaram com o dito. Seria maravilhoso que me outorgassem-no. Sempre declarei muito amor pelo povo escandinavo. O prêmio seria uma consagração. Uma espécie de canonização, embora haja muitos escritores que receberam o prêmio e não foram canonizados.” [1979]
“Não me outorgar o Nobel se converteu em uma tradição escandinava; desde que nasci  - a 24 de agosto de 1899 – eles não o concedem a mim.” [1982]
“A Academia Sueca inicialmente premiava escritores que eram mundialmente conhecidos. Agora, mudou de modus operandi: dedica-se a descobrir valores. Não a reprovo, eu gostaria que me descobrissem.” [1984]
“Os suecos são gente sensata, e por isso acho que nunca me darão esse prêmio. A Academia Sueca atualmente não está mais confirmando valores, mas descobrindo escritores, e eu me considerao já descoberto.” [1984]
“Por que teriam de me conceder o Nobel? Nem sequer possuo uma obra definida. Tenho apenas escritos soltos, poemas e narrativas, nada mais.” [1985]
Compilados por Carlos R. Stortini, em “Dicionário de Borges”.

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