sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Fazendo História no Congresso Internacional de Estudos do Rock

O PIONEIRISMO ROMPENDO PRECONCEITOS:
I CONGRESSO (ACADÊMICO) INTERNACIONAL DE ESTUDOS DO ROCK

Antônio Augusto Pereira da Silva[1]

O relato que segue redigido em perspectiva descompromissada terá como foco a relevância do evento como um todo e as apresentações às quais tive a oportunidade de assistir, não contando com a pretensão de resenha ou de ser encarado como artigo acadêmico.

            Ao se refletir acerca de congressos acadêmicos confrontamo-nos com uma série de questões formais. No entanto, em vista de minha participação em um congresso (acadêmico), promovido na Universidade Estadual do Oeste do Paraná (UNIOSTE) nos dias 25, 26 e 27 de setembro na cidade de Cascavel no Paraná (terra do sertanejo universitário) denominado I Congresso de Estudos do Rock, pode-se afirmar com certo embasamento que definitivamente não teve o evento qualquer caráter formal ou dogmático.


        Iniciando os “trabalhos”, na quarta-feira pela manhã 08h30 (logo após o credenciamento e abertura do evento), a banda Fulminantes subiu ao palco e realmente “fulminou” um repertório de Hendrix e Led Zeppelin, ainda enquanto os participantes estavam com a maior cara de sono (para o próximo congresso sugiro que o mesmo seja iniciado na parte da tarde estendendo-se ao longo da noite, horário mais propício a músicos, ouvintes e simpatizantes do rock).



                Posteriormente iniciou-se uma conferência esclarecedora sobre rock argentino com o Prof. Dr. Sérgio Pujol da Universidad Nacional de La Plata, apresentando Histórias do Rock na Argentina: “De la réplica al original. El rock argentino em los años 60” com uma perceptível aproximação do rock produzido pelos “hermanos” na década de 1960 com a Jovem Guarda brasileira – sendo que ambos países destilavam influências britânicas e norte-americanas de maneira ampla naquele contexto. O debatedor desta atividade foi o organizador do Congresso, Prof. Dr. Alexandre Felipe Fiuza (UNIOESTE).



            Ainda, na parte da manhã durante todo o evento realizaram-se conferências, mesas redondas e conversas com músicos, sendo que na quinta-feira pela manhã, dia 26, a conferência versou sobre Histórias do Rock no Chile: “Rock chileno 1965-1975: sonido, covers y actitud", com fala proferida pelo Prof. Dr. Pablo González, tendo como debatedora a Prof.ª Dr.ª Geni Rosa Duarte (UNIOESTE). Depois da conferência foi realizada a palestra musical “Os primórdios do rock” com o Prof. Ms. Beto Eyng e Seus Capangas.



         Na sexta-feira pela manhã ocorreu uma mesa redonda intitulada “O rock e o jornalismo literário” com o pesquisador, jornalista e autor do livro "O Som da Revolução", Rodrigo Merheb (o qual tive a oportunidade de conversar e de garantir um exemplar do livro com uma dedicatória) e o jornalista, radialista e músico Giovani Pinheiro.


             Nos três dias do evento, no turno da tarde, além dos Workshops de Baixo/Guitarra e Videoclipe e do Ciclo de Cinema: Cinerock-se, foram realizados os simpósios temáticos com apresentação dos comunicadores, turno no qual apresentei o artigo que havia escrito especialmente para o Congresso do Rock “Para não ficar sentado à beira do caminho”: Uma análise do álbum “Carlos, Erasmo...” (1971). Nesta proposta utiliza-se como corte temporal o período de transformação do rock produzido pela Jovem Guarda, referenciando uma “atualização musical” na carreira de Erasmo Carlos – que na década de 1970, depois do rompimento de contrato com a RGE, encontrava-se sem gravadora. O texto contou com a orientação da Prof.ª Dr.ª em História Gizele Zanotto (UPF) e com análise musical da obra realizada pelo músico e Prof. Me. em História Alexandre Saggiorato (UPF), que também participou do Congresso apresentando a comunicação “Rock brasileiro dos anos 1970: transgressão comportamental x censura moral”. Ainda representando a Universidade de Passo Fundo participou como comunicador Prof. Dr. Gérson Luís Werlang com o tema “Quintal de Clorofila: rock progressivo acústico, bucolismo e contracultura no interior do RS nos anos 1980”.


            De forma parcial gostaria de referenciar ainda determinados trabalhos apresentados no Congresso, os quais tive o prazer de assistir, na intenção de ressaltar a qualidade das apresentações presentes no evento:

·         O Rock nas Ditaduras Civis-Militares na América Latina: O Caso do Brasil, Argentina e Chile na década de 1980 – Paula Cresciulo de Almeida (UFF);
·         A Construção de Sentido em My Generation – Roberto Corrêa Scienza;
·         Movimentos sociais e ensino de história: uma análise do movimento punk e suas representações no ensino fundamental - Érika Hasse Becker Neiverth (UEPG);
·         O festival PampaStock como um intercessor social – Thaysa Flores/ Wagner Moreira;
·         Jornalismo em quadrinhos: colocando o rock em pauta – Marcos Antonio Corbari/Ébida Rosa dos Santos;
·         O psicodelismo e a arte contemporânea dos anos 60 na Inglaterra e Estados Unidos – Aline Pires Luz;

           


            Na parte da noite, igualmente ao turno da manhã, aconteceram conversas com músicos e mesas redondas, sendo que no primeiro dia ocorreu “O rock em Cascavel: Debate e apresentação musical da Ecos da Tribo” (banda representativa no cenário do rock de Cascavel – Paraná) contando com Ricardo Burgarelli, Serginho Ribeiro e Luciano Veronese, membros da banda, e tendo como debatedora a Prof.ª Me. Cristini Coleoni.



            Considerado por muitos o ponto alto do Congresso, na quinta-feira a noite aconteceu uma conversa com o músico João Ricardo, líder e criador do Secos & Molhados referenciando os 40 anos de banda (que além de um bate papo descontraído com o músico, deu uma “canja” do clássico Sangue Latino).



               Obtive ainda autógrafos com o “mestre” nos discos Secos & Molhados (1973) e Secos & Molhados II (1974).


            Na sexta-feira a noite, turno de término do evento, aconteceu a mesa redonda “Histórias do Rock no Brasil”, com o Prof. Dr. Guilherme Bryan (FEBASP) e o colunista do jornal O Globo, Prof. Ms. Arthur Dapieve (PUC-RJ), tendo como debatedor o Prof. Dr. Silvio Demétrio (UEL - PR).

            Direcionando-me para o final deste relato, gostaria de ressaltar que mesmo que a alternativa de se pesquisar o rock e suas mais variadas vertentes como fenômeno cultural e social (ainda marginalizado por alguns desinformados presos a conceitos acadêmicos ultrapassados, superficiais e estereotipados) o I Congresso de Estudos do Rock serviu primeiramente como um veículo para extrapolar qualquer classificação normativa sobre os estudos a partir do gênero.  Apresentando um número expressivo de trabalhos acadêmicos de altíssimo nível que versaram de Sergio Sampaio a Pink Floyd, de Mutantes a Bob Dylan. Configurando-se desprovido de qualquer “caretice acadêmica”, o Congresso foi imensamente significativo aos participantes e com absoluta certeza abriu as “portas da percepção” no quesito de estudos sobre a temática. Cabe salientar que o Congresso, mesmo dispensando todo esse aparato formal, não deixou a desejar de forma alguma no quesito qualidade de seus simpósios temáticos, conferências e workshops. Depois de dias intensos de debates e rock and roll, posso afirmar que qualquer participante do I Congresso de Estudos do Rock espera ansiosamente o segundo encontro.







[1] Acadêmico do curso de História da Universidade de Passo Fundo (UPF); Bolsista de Iniciação Científica da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio Grande do Sul (FAPERGS). E-mail: augusto_pereira_@hotmail.com

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